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‘Privatiza tudo’: Quem é e o que pensa o ‘guru’ de Bolsonaro para a economia

Quem é o economista Paulo Guedes, como suas ideias conversam com propostas do deputado e quais são os riscos que o liberal tem em se transformar no que foi Joaquim Levy para Dilma

  • Brasília
  • Flávia Pierry
 | Hugo Harada    /    Gazeta do Povo
Hugo Harada /    Gazeta do Povo
 
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Privatiza tudo. Esse é o discurso de Paulo Guedes, o economista liberal e ex-banqueiro que tem sido a tábua de salvação do deputado e presidenciável Jair Bolsonaro (PSC-RJ) quando questionado sobre propostas da economia. Em entrevista para a “Folha de S.Paulo” neste domingo (25), Guedes defende o deputado e diz que o mercado tem de mudar sua visão sobre o militar. “Por que as pessoas têm medo do Bolsonaro?”, questiona.

“É possível fazer uma aliança de centro-direita, onde em vez de aumentar imposto seja reduzido gasto público? Em vez de criar 150 estatais, como o PT, seja reduzir e privatizar de verdade? Em vez de combater a inflação só com juros na Lua, fazer a parte fiscal com juro baixo?”, disse ao jornal.

Nessa aliança, Guedes avançou no apoio também ao lado mais controverso do deputado. À “Folha”, afirmou que Bolsonaro cometeu excessos (como ao entrar em embate com a deputada Maria do Rosário, do PT), mas que ele tem demonstrado “retidão”. “Ele tem os valores dele: Deus, pátria, família. ‘Ah, mas é a favor da tortura’. Ele é realmente, torturou alguém?”, disse. 

Ainda resta a dúvida se o deputado vai mesmo assumir a agenda liberal e privatizante. Mesmo Guedes se esquiva de responder ao ser questionado se Bolsonaro se converteu ao liberalismo. “Tem de perguntar pra ele”, disse.

Para responder em entrevistas o que pretende fazer nessa área, Bolsonaro se exime de responder chamando o nome do economista. Os dois ainda não apareceram juntos e nem mostraram qual é a profundidade dessa relação, suas concordâncias e discordâncias. Em mais de três meses de “namoro”, como diz o deputado sobre sua relação com Guedes, pouco se viu de concreto. 

Guedes é economista com PhD pela Universidade de Chicago, onde impera o pensamento liberal econômico. Foi um dos fundadores do banco Pactual e do grupo financeiro BR Investimentos. Também tem vasta atuação na academia: foi professor de macroeconomia na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), na Fundação Getulio Vargas (FGV) e no Instituto de Matemática Pura e Aplicada (IMPA) no Rio de Janeiro. 

Além de sugerir que a Petrobras e os Correios também sejam privatizados, Guedes defende a reforma da Previdência, e de forma bem radical, com contas individuais para cada cidadão. Com as privatizações, ele defende o pagamento da dívida pública, para liberar as contas para programas sociais. Ele reforça que manteria o Bolsa Família. 

A máquina pública também passaria por um enxugamento, com 10 a 15 ministérios. Impostos passariam por uma simplificação e redução de alíquotas – similar ao que fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Eu acho que nenhuma alíquota no Brasil podia ser mais de 20%. Em vez de ter o isento e o de 37%, vamos para o 20%?”, disse Guedes. 

Em 12 de fevereiro, o jornal “O Estado de S. Paulo” divulgou nove pontos que baseariam um suposto plano econômico de Guedes para Bolsonaro, com foco em ajuste fiscal, queda estrutural dos juros e do gasto com a dívida pública, e a retomada da capacidade de investimento do governo, que segundo o jornal focaria na área social. A reforma da Previdência é um desses pontos. 

Ainda é preciso que Bolsonaro e Guedes alinhem o que falam e verifiquem se estão usando o mesmo dicionário sobre termos econômicos. Em entrevista ao youtuber Nando Moura em 15 de fevereiro, Bolsonaro listou os problemas que ele vê na economia brasileira e que teria pedido ajuda a Paulo Guedes: 

“Eu tenho conversado com o economista Paulo Guedes. Ele é uma pessoa conhecida dentro e fora do Brasil. Botei na mesa, até como leigo, os problemas que nós temos: preço de combustível, questão de inflação, taxa de juros, dólar. A nossa dívida interna de R$ 3 trilhões, pagamos meio bilhão reais de juros (sic) e amortização de dívida. Como a gente vai resolver esse assunto não aumentando impostos? Ele disse ‘eu tenho a formula’. Então vamos continuar conversando para resolver esses objetivos”, disse Bolsonaro.

O deputado não deixa entrever o que pensa sobre cada ponto, como o que quer propor ao citar o preço da gasolina como uma problema. O preço do combustível varia de acordo com o preço do petróleo no mercado internacional, e nenhum economista liberal aceitaria uma manipulação da livre flutuação do valor da commodity.

O mesmo vale para o dólar, inflação e taxa de juros. Na visão do admitidamente leigo em economia Bolsonaro, o problema é o número que se registra desses indicadores e não as causas que resultam nesses números e seus efeitos. Dificilmente um economista liberal aceitará a redução ou elevação artificial da taxa de câmbio, ou represamento de preços administrados para controlar a inflação, como fez Dilma com o preço da eletricidade e dos combustíveis. 

Onde Guedes e Bolsonaro concordam e discordam? 

Também ainda não está claro o limite de Guedes quanto a pontos inarredáveis defendidos por Bolsonaro, como o fortalecimento das polícias e dos militares. Guedes já criticou pontos associados à direita, como o autoritarismo e a insensibilidade social dos militares, em artigo publicado no jornal “O Globo” em novembro de 2017.

“A ‘direita’ brasileira afundou com a redemocratização por estar associada ao autoritarismo político e à insensibilidade social do regime militar. A ‘esquerda’ brasileira afunda agora com a morte da velha política por estar associada à roubalheira, ao colapso do crescimento econômico e à insegurança nas ruas de uma decrépita Nova República. A ‘direita’ hegemônica governou por duas décadas, e a ‘esquerda’ hegemônica por três, ambas com um modelo econômico dirigista desastroso para o desenvolvimento social e político do país”, escreveu Guedes.

Falar em corte de gastos e privatizações de estatais como forma de desalojar a esquerda do poder soa bem para parte da sociedade e também o mercado, que defende ajuste fiscal e pagamento dos juros da dívida pública. Mas como será o entrosamento de Guedes e Bolsonaro quando o corte tiver de chegar aos benefícios de militares e policiais?

A começar pela reforma da Previdência, que Bolsonaro admitia ser contra, pelo menos no formato proposto por Michel Temer. Já Paulo Guedes é favorável à reforma e a redução de privilégios do funcionalismo. “O ato final da tragédia foi a indexação salarial do funcionalismo, cujos privilégios previdenciários apenas reforçam o status de uma casta superior”, escreveu Guedes em artigo de 6 de fevereiro deste ano, em sua coluna no jornal “O Globo”.

Lançar o nome de Guedes como seu procurador para assuntos econômicos tem sido a estratégia de Bolsonaro e ajudou a causar uma onda positiva do mundo financeiro em torno do deputado, que aparece em segundo colocado nas pesquisas de intenção de voto, atrás do ex-presidente Lula. Com o aceno, grupos no mundo financeiro fizeram a seguinte leitura: se Guedes estiver cuidando da economia de Bolsonaro, podemos ter um governo conservador nos costumes e liberal na economia.

Porém, a empolgação sobre a amizade de Guedes e Bolsonaro tem se reduzido. A avaliação é que Bolsonaro não é liberal, não mostra propostas concretas e quando as apresenta acaba dando um verniz desenvolvimentista e nacionalista, com soluções mais próximas às que candidatos à esquerda defenderiam. Ao citar Guedes, Bolsonaro tem se esquivado de falar claramente o que fará.

Passada a empolgação inicial, é preciso lembrar que ministros da Fazenda liberais (ou com propostas mais próximas do livre mercado e ajuste fiscal) não fazem milagres sozinhos. Guedes pode se tornar para Bolsonaro o que foi o ex-ministro da Fazenda Joaquim Levy para a ex-presidente Dilma Rousseff. Competente e louvado pelo mercado financeiro, Levy não conseguiu levar a cabo suas propostas e teve até que voltar atrás de algumas declarações, após reprimendas da presidente. 

Por enquanto, Guedes admite que “conversa” com Bolsonaro, mas sem avançar na criação de um plano de governo a quatro mãos. “O cara é capitão e fala palavrão, então não pode? Isso é coisa de maluco”, disse no dia 30 de janeiro em palestra de evento do banco Credit Suisse. No mesmo evento, Paulo Guedes disse que nesse encontro com Bolsonaro um representa a Ordem e o outro o “progresso”. “Quer saber se a ordem está conversando com o progresso?”, afirmou, segundo o portal Exame. 

Guedes destaca que ainda há muito pela frente para se falar em um aprofundamento nessa parceria. “Me chamou pra conversar, não pode? Vai ter patrulhamento? Se for um programa liberal-democrata pensando em governabilidade e em reformas políticas e econômicas com apoio costurado, por que não pode?”, disse o economista. 

As campanhas estão apenas começando e ainda devem vir muitas mudanças no tabuleiro desse xadrez eleitoral até abril, quando os candidatos devem formalizar suas candidaturas e a aliança entre o economista e o deputado terá de amadurecer ou vai se extinguir. Antes de começar a namorar com Bolsonaro, Guedes teria se aproximado do apresentador de TV Luciano Huck, que ainda era visto como possível candidato à Presidência da República. O flerte terminou quando ainda em novembro Huck afirmou não ser candidato. 

Bolsonaro também já terminou um namoro nessa corrida eleitoral, ao romper com o PEN (Patriotas), partido que tinha se apresentado para lança-lo como candidato, e migrar para o PSL, causando um desembarque generalizado da ala liberal jovem do partido, o Livres. 

Com a intervenção federal no Rio de Janeiro e melhoras na economia esperadas neste ano, Bolsonaro terá poucas bandeiras para se apegar. Poderá optar por endurecer seu discurso, o que pode afastar parte de seus apoiadores. O começo da propaganda eleitoral e da campanha nas cidades também pode mostrar o potencial de Bolsonaro e afugentar intelectuais que hoje ainda lucram em ver seu nome associado ao do militar. O próprio Paulo Guedes já deixa claro que seu “namoro” pode não virar casamento. 

"Estou tendo uma boa impressão dele, mas até virar um programa de governo leva tempo ainda", afirmou o economista.

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