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Quem é o dono da Havan e por que ele quer entrar na política

Empresário catarinense Luciano Hang pretende disputar a eleição para consertar “a bagunça que virou esse país”. E ele já tem uma “solução” para o Brasil, que pode ser sintetizada pelas estátuas que são marca registrada de suas lojas: liberdade, mais liberdade

  • Fernando Martins
Luciano Hang: episódio de invasão de campo num jogo da segundona do Campeonato Catarinense resume o perfil do empresário. | Roberto Custódio/Gazeta do Povo/Arquivo
Luciano Hang: episódio de invasão de campo num jogo da segundona do Campeonato Catarinense resume o perfil do empresário. Roberto Custódio/Gazeta do Povo/Arquivo
 
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Eram 36 minutos do segundo tempo do jogo entre Brusque e Marcílio Dias, clássico do Vale do Itajaí, válido pelo quadrangular final da segunda divisão do Campeonato Catarinense de 2013. O Brusque, dono da casa, vencia por 2 a 1. Mas tinha dois jogadores a menos, expulsos por reclamarem de marcações polêmicas do juiz. O árbitro então marca um pênalti questionável para o Marcílio Dias.

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Foi a gota d’água. A torcida se enfurece com o que considera ser um “roubo”. Integrantes da comissão técnica e da diretoria do Brusque invadem o gramado. Há tentativa de agressão do juiz. Logo depois, entra em campo um sujeito careca vestindo a camisa do time local. Ele comanda a retirada de seu time para os vestiários. É ovacionado pelos torcedores, aos gritos de “Luciano! Luciano!”. Sem o time mandante, a partida não termina.

O torcedor careca era o catarinense Luciano Hang, de 55 anos, dono da patrocinadora do Brusque, a Havan – empresa da cidade que se tornou a 27.ª maior rede de comércio varejista do país, com 107 lojas de departamentos espalhadas de Norte a Sul, 12 mil funcionários e uma marca registradíssima: as amadas e odiadas réplicas da Estátua da Liberdade.

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De certa maneira, a confusão em que Hang se meteu no jogo resume o perfil do empresário catarinense: arrojado nos atitudes e nas opiniões, voluntarista, defensor ardoroso daquilo que acredita, “pop star” em Brusque. E, como não podia deixar de ser, envolvido em polêmicas, algumas que ele nem mesmo provocou – como a de que o verdadeiro dono da Havan seria Lula, Dilma Rousseff ou algum de seus filhos.

Depois do futebol, Hang quer “invadir” outro campo: a política. Mas ainda esconde o jogo

Agora, quase cinco anos depois da fatídica incursão para dentro das quatro linhas, Hang (a pronúncia correta é “Rang”) quer “invadir” outro campo – a política. Guardadas as devidas proporções, o objetivo é o mesmo: tentar consertar o que ele considera estar errado, como as injustiças e “roubos” cometidos por aqueles que ditam as regras da partida que transcorre no imenso gramado chamado Brasil. “Ainda não sou candidato, mas estou no jogo”, disse o empresário no último dia 5.

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O fato é que, por enquanto, Hang ainda esconde o jogo. Não decidiu para qual partido vai migrar; no dia 5 ele anunciou que estava deixando o PMDB, sigla da qual era filiado desde 1985.

Também faz mistério sobre a cadeira que pretende disputar. “Posso pleitear qualquer cargo, como também posso apoiar alguém e também posso, com minha voz, minha vontade, ser um incentivador ou ser alguém que possa ajudar esse país a ir para o caminho que eu acho que tem que seguir”, afirmou.

A indefinição só alimenta especulações do que ele quer: governo de Santa Catarina, Senado e até mesmo a vice-presidência. Há um rumor espalhado nas redes sociais de que o deputado federal Jair Bolsonaro (PSC-RJ) considera o nome de Hang uma possibilidade para compor sua chapa presidencial.

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O dono da Havan e Bolsonaro, aliás, compartilham algumas semelhanças no discurso sem papas na língua, contra “a bagunça que está por aí” e avesso ao politicamente correto. Por exemplo: ambos defenderam o general Antonio Hamilton Mourão, que em setembro pregou que os militares deveriam intervir no país se a Justiça não resolver o problema da corrupção. Mais ou menos como se o Exército invadisse o campo para tirar o juiz que está roubando o jogo.

“Eu apoio o general Mourão. (...) Estamos cansados – a população, nós empresários – da bagunça que virou esse país. (...) Parabéns, general Mourão! A população está do seu lado; continue assim. Chega desse negócio do politicamente correto, de falar o que só alguns querem falar”, disse Hang num vídeo divulgado na internet.

No jogo eleitoral, a camisa que Hang vai vestir é a do antipolítico

Se efetivamente entrar em campo nas eleições, Hang vai vestir uma camisa que anda em alta no mercado: a do antipolítico. No discurso, ele já é assim. O que atrapalha o crescimento do país? “A burocracia e o grande número de políticos”, disse em entrevista ao programa do Ratinho, do SBT, em dezembro de 2016.

“Ninguém mais quer saber do político que rouba mas faz, do bonzinho incompetente ou daquele que fica em cima do muro. Precisamos de políticos que não dependam daquele cargo. A maioria dos maus políticos só fez política a vida toda. Se perderem o cargo, não sabem fazer nada. Precisamos mudar esse cenário”, disse no último dia 5.

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E quem sabe fazer? A resposta de Hang: “Este [2018] é o ano do fato novo, é o ano do empreendedor, do empresário, o ano de as pessoas votarem em quem tem disciplina, sabe administrar e quer fazer”.

De operário que andava com sapato furado a dono de rede de lojas

Ninguém pode acusar Hang de não saber fazer. Dinheiro, pelo menos. Ele encarna o self made man. Filho de dois operários de uma indústria têxtil de Brusque, ele seguiu os passos dos pais e, aos 17 anos, começou a trabalhar no chão da mesma fábrica. Em sua biografia divulgada no site da Havan, Hang relata que uma de suas recordações daquele tempo era ir trabalhar com um sapato furado, que ele forrava com papelão para não pisar no chão frio. Não tinha condições de comprar um novo par de calçado.

Mas sua situação logo mudou. Com tino para os negócios, comprou aos 21 anos uma pequena tecelagem. Aos 24, em 1986, deu aquele que seria um pequeno passo mas um grande salto: abriu uma acanhada loja de tecidos juntamente com um sócio, Vanderlei de Limas. Da junção das primeiras letras do sobrenome de Hang com as do nome do sócio surgiu a denominação da nova empresa: Havan.

Vanderlei vendeu para o sócio sua participação na Havan no início dos anos 90 e montou outra loja de tecidos. Ele queria manter os pés no chão. Hang tinha planos mais ousados: importar não só materiais têxteis, mas também produtos para vender por R$ 1,99.

Casa Branca e Estátua da Liberdade: a admiração pelo espírito livre e empreendedor dos EUA

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A Estátua da Liberdade da megaloja de Barra Velha (SC) é a maior do Brasil, com 57 metros de altura, mais que o Cristo Redentor: Hang pensa alto, como suas estátuas.Foto: Havan/divulgação

É dessa época que a Havan ganharia o visual pela qual viria a ficar conhecida. Por causa da admiração de Hang pelo espírito empreendedor dos norte-americanos: “Me perguntam: ‘Por que você gosta tanto dos Estados Unidos?’ Porque é um país que deixa você fazer”, explicou certa vez. Hang então passou a adotar nos prédios de sua loja uma fachada inspirada nas colunas neoclássicas da Casa Branca.

Logo depois, vieram as réplicas da Estátua da Liberdade – uma polêmica estética: cafonas para muitos, atrativo turístico para outros . Foram sugeridas por um garoto. Hang gostou da ideia e a adotou como marca definitiva da loja. “É o símbolo da liberdade, liberdade de compra, de escolher o produto que o consumidor quer”, justificou Hang numa entrevista de 2016.

E elas tinham de ser grandes, como os sonhos de expansão de Hang. Aliás, a maior estátua do Brasil, com 57 metros de altura, é um dos colossos da Havan: fica na megaloja de Barra Velha, em Santa Catarina.

À sombra das gigantescas estátuas, a Havan cresceu. E cresceu. E cresceu. E também se tornou uma gigante, com 107 lojas em 15 estados. A meta para 2018 é chegar a 120 lojas. E Hang sonha ainda mais alto: quer 200 unidades até 2022.

Havan cresce rápido. Bem como os rumores de que Lula, Dilma, Silvio Santos e até Edir Macedo seriam seus donos

A rapidez do crescimento – que chega a ser de mais de uma loja inaugurada por mês – levantou rumores de quem seria o verdadeiro dono da Havan: coreanos, chineses, norte-americanos (dada a inspiração de seus símbolos) Silvio Santos, o bispo Edir Macedo, Lula (ou um de seus filhos), Dilma (ou a sua filha). A desconfiança por trás do boato era de que só uma empresa que tivesse um político ou um figurão por trás poderia ter tanto sucesso no Brasil.

Quem é de Brusque e imediações sempre soube quem não era nada disso. Mas não o resto do Brasil. “Nunca me incomodei. Sempre pensei que quem tinha que aparecer era a empresa, não o dono”, disse Hang numa entrevista em dezembro de 2016.

Ainda assim, foi naquela época que Hang decidiu desfazer o mal-entendido. Saiu dos escritórios e foi para a frente das câmeras. Estrelou comerciais publicitários para dizer claramente quem mandava na Havan. “Fiz a campanha para dizer que é possível, com trabalho, ter sucesso empresarial.”, complementou ele, numa declaração que deixava claro seu entendimento de que não é preciso estar ligado a políticos para crescer.

Na verdade, para Hang, os políticos e as amarras que eles impõem à sociedade são os principais problemas do Brasil.

As estátuas das lojas de Hang simbolizam sua solução para o Brasil: mais liberdade de empreender

Agora que Hang planeja entrar na política, todo o seu discurso pode ser sintetizado pelo símbolo maior de sua empresa: as estátuas da liberdade. A liberdade de empreender e fazer o Brasil crescer sem que o governo, os burocratas ou quem quer que seja atrapalhe.

O que mais, para Hang, atrapalha o crescimento além de políticos e a burocracia? Uma resposta: sindicalistas intransigentes. Quando um sindicato conseguiu, no ano passado, fechar a loja da Havan em Cacoal (Rondônia), no feriado do Sete de Setembro, o empresário gravou um vídeo e o divulgou nas redes sociais para reclamar da falta de sensibilidade dos sindicalistas diante do momento do país: “O Brasil tem 14 milhões de desempregados; as pessoas querem trabalhar”.

Outra resposta: restrições urbanísticas e ambientais. No dia 8 de janeiro, ele gravou mais um de seus vídeos (Hang parece ter gostado da ideia de ir para a frente das câmeras). Desta vez para defender a construção de arranha-céus em Balneário Camboriú, no litoral catarinense, por gerar “milhares e milhares de empregos”.

Era uma manifestação contra, em suas palavras, “uma reportagem esdrúxula” de um dia antes do programa Fantástico, da Rede Globo. O Fantástico havia mostrado que o paredão de prédios da cidade faz com que a sombra projetada pelos edifícios tire o sol da praia durante a maior parte da tarde, além de o adensamento urbano provocado pelos espigões ameaçar a cidade de ter escassez de água no futuro.

Defensor de Balneário Camboriú, que fica próxima de Brusque, Hang não apenas reclamou da Globo, que segundo ele “está sempre do lado errado”, como viu uma vantagem adicional dos arranha-céus e de suas sombras: “Excesso de sol faz mal para a pele”.

Hang é “pop star” . Mas o buraco da política é mais embaixo

O ardor com que Hang defende sua terra e sua gente, desde o episódio da invasão de campo em Brusque até o caso dos espigões de Balneário Camboriú, faz dele ser uma espécie de pop star em sua região. E com certeza será um importante capital eleitoral caso realmente seja candidato.

Moradores de Brusque relatam com admiração que, embora seja rico e famoso, Hang continua a frequentar os mesmos lugares, restaurantes, etc., que os demais conterrâneos. Não é incomum que ele esteja na entrada da Havan da cidade cumprimentando os clientes. O empresário também é reconhecido por investir na região, recuperar imóveis históricos, patrocinar projetos sociais, culturais e de entretenimento. Sua popularidade pode ser medida tanto nos gritos da torcida do Brusque como nos pedidos para tirar selfies nas ruas da cidade.

Mas o jogo político no qual o empresário pretende entrar é pesado e só simpatia não ganha eleição. Hang sabe disso. E já armou seu time para contra-atacar. No último dia 5, quando anunciou sua intenção de ser candidato, sacou uma certidão negativa da Justiça para dizer que está limpo para concorrer.

Hang já respondeu a processos, inclusive criminais, por sonegação e lavagem de dinheiro. “Está aqui o processo, nada consta, fomos inocentados. Temos muitos processos, sim, e vamos continuar sendo processados. O que importa é não ser condenado. Aqui está a minha certidão para as pessoas que ficam falando mal de mim. Sou transparente.”

Antes de o juiz apitar o fim da reportagem, uma pequena reflexão futebolística

Se Hang vai ganhar o campeonato no qual decidiu entrar, só o futuro vai dizer. Em tempo, antes que o juiz apite o fim desta reportagem, uma rápida reflexão futebolística. Aquela partida da segundona do Catarinense foi decidida na Justiça Desportiva; e os pontos ficaram com o Marcílio Dias. Moral da história: só o apoio da torcida e a vontade de consertar o que se acredita estar errado nem sempre ganham o jogo.

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