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Camisetas de apoio a Jair Bolsonaro
Camisetas de apoio a Bolsonaro: figura do presidente será associada a candidatos e ele próprio participa de negociações de bastidor.| Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

O presidente Jair Bolsonaro (sem partido) disse por mais de uma vez, ao longo de 2020, que não se envolverá nas eleições deste ano. Mais recentemente, indicou que pode pedir votos, mas só no segundo turno. "Decidi não participar, no 1.° turno, nas eleições para prefeitos em todo o Brasil. Tenho muito trabalho na Presidência", postou Bolsonaro no Twitter em 28 de agosto. Apesar disso, o presidente já está tendo uma "presença invisível" nas eleições – seja por meio de articulações de bastidores como pela disputa em torno de quem vai ser o "candidato do Bolsonaro" em vários municípios.

O fracasso na constituição do Aliança Pelo Brasil, o partido que Bolsonaro idealizou após deixar o PSL no fim do ano passado, contribuiu para que ele adotasse um certo distanciamento da disputa pelas prefeituras. Mas isso não significa que o presidente se desconectará integralmente das eleições.

Ainda no ano passado, antes do racha no PSL, Bolsonaro estimulou que aliados se lançassem como candidatos nas capitais, como forma de defender de seu governo.

Além disso, no contexto atual, as candidaturas acabam se encaixando na complexa trama do presidente e do PSL, que pode culminar com a volta de Bolsonaro ao partido com o qual se elegeu em 2018. O presidente teria feito exigências para que a sigla lance ou não lance determinados candidatos como condição para voltar ao partido.

Outro fato que demonstra a "presença invisível" do presidente nas eleições é que, em diferentes cidades, concorrentes brigam entre si para conquistar a marca de candidato "oficial" de Bolsonaro. "Quem que não quer ter a seu lado um presidente com ampla aceitação? Muitos vão tentar utilizar isso", afirma o deputado federal Bibo Nunes (PSL-RS).

Bolsonaristas sem favoritismo esperam o "efeito Witzel"

Governador afastado do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC) figurava entre os últimos colocados nas pesquisas para o governo do estado até uma semana antes do primeiro turno das eleições de 2018. Mas ele terminou a disputa como o vitorioso, superando nomes mais famosos como os de Eduardo Paes (DEM) e Romário (Podemos). A explicação para o triunfo foi o apoio que recebeu da família Bolsonaro – ainda que, também naquele caso, o então candidato a presidente tenha evitado indicar qual o seu nome para o governo.

O "efeito Witzel" é uma esperança para muitos candidatos de diferentes cidades que se identificam com Bolsonaro. Nesse grupo estão, por exemplo, nomes como os de Helio Bairros (Patriota), de Florianópolis; Thiago Chamulera (Patriota), de Curitiba; Levy Fidelix (PRTB), de São Paulo; Otoni de Paula (PSC), do Rio de Janeiro; Bruno Engler (PRTB), de Belo Horizonte; e Alberto Feitosa (PSC), de Recife.

O deputado federal Capitão Alberto Neto (Republicanos), pré-candidato à prefeitura de Manaus, disse que falar sobre o presidente na capital amazonense é uma estratégia "que tem aceitação muito alta". "Me sinto bem à vontade para percorrer a cidade e defender as bandeiras de Bolsonaro. Falar de temas como o 'menos Brasília e mais Brasil', a austeridade e o combate à corrupção, por exemplo", afirma ele.

O Republicanos, partido de Alberto Neto, é o mesmo que recebeu em suas fileiras os dois filhos mais velhos de Bolsonaro, o senador Flávio e o vereador Carlos. Para o deputado, isso pode influenciar positivamente o seu desempenho eleitoral: "Pode contribuir, porque a população está mais ligada. O povo cobra coerência do político. Não aceita o poder pelo poder".

Alberto Neto, entretanto, diz não esperar uma declaração de apoio por parte de Bolsonaro no primeiro turno, ainda que fosse por um vídeo ou postagem nas redes sociais. "O presidente realmente não vai participar. Não vai dar apoio a ninguém no primeiro turno", diz Bibo Nunes. Em Porto Alegre (RS), a cidade de Nunes, o bolsonarismo apoiará o candidato do MDB, Sebastião Melo.

Idas e vindas da briga Bolsonaro x PSL

Nunes também afirma que os bolsonaristas estarão na cidade em campo oposto ao PSL, partido ao qual ele ainda é filiado e pelo qual Bolsonaro venceu a eleição de 2018. Embora o deputado tenha descrito esse cenário em entrevista ao site O Antagonista em 26 de agosto, ele também afirma que existe um "excelente clima" para que Bolsonaro retorne ao PSL.

O posicionamento aparentemente contraditório do deputado é um reflexo de como as disputas entre o PSL e os bolsonaristas se distribuem pelo Brasil. Não há um padrão que se repete de forma única pelas cidades. Em alguns municípios, PSL e bolsonaristas estão no mesmo barco; em outros, se portam como adversários.

Um exemplo de proximidade entre o bolsonarismo e o PSL se dá em Curitiba (PR). O pré-candidato do partido na capital paranaense é o deputado Fernando Francischini. Ele é pai do deputado federal Felipe Francischini (PR) – que, no início do racha interno, ficou no grupo anti-Bolsonaro. Mas tanto Felipe quanto Fernando não mantiveram as desavenças com o presidente e seus aliados. Hoje, Felipe lidera a bancada do PSL em Brasília, sendo um articulador entre os dois grupos, e Fernando conduz sua pré-campanha falando em nome do bolsonarismo.

Em Fortaleza (CE), o PSL terá como candidato o deputado federal Heitor Freire. O parlamentar também não esteve entre os que romperam com o partido na briga do ano passado, e acabou do lado oposto ao dos apoiadores mais ferrenhos do presidente.

Mas ele diz que "esse período já foi superado" e que "isso não vai interferir no pleito". A cidade tem também outro pré-candidato identificado com o bolsonarismo, o igualmente deputado federal Capitão Wagner (Pros), que é apoiado por lideranças locais de direita como o militante Carmelo Neto e o deputado estadual André Fernandes (PSL). Freire diz considerar Wagner "um amigo" e que sua "briga mesmo é contra a oligarquia dos Ferreira Gomes" – referência à família encabeçada pelos ex-governadores Cid e Ciro, ambos do PDT.

Na mão oposta, as cidades de São Paulo (SP), Florianópolis (SC) e Belo Horizonte (MG) veem brigas entre os atuais dirigentes do PSL e os grupos bolsonaristas.

Na capital paulista, o PSL oficializou a deputada federal Joice Hasselmann como candidata do partido à prefeitura. No ano passado, ela rompeu com o presidente da República. Bolsonaristas chegaram a cogitar trocar Joice por outro nome mais alinhado com o presidente, como o também deputado Luiz Philippe de Orléans e Bragança.

Em São Paulo, há ainda outras candidaturas que orbitam em torno do nome do presidente da República e buscam obter votos de bolsonaristas. Aí se encontram nomes como Celso Russomanno (Republicanos) e mesmo Márcio França (PSB).

Em Belo Horizonte (MG), o deputado estadual Bruno Engler deixou o PSL e se filiou ao PRTB, partido do vice-presidente Hamilton Mourão, para concorrer à prefeitura. Engler foi elogiado publicamente por Bolsonaro em algumas ocasiões e esteve com o presidente no Palácio da Alvorada no último dia 22. O PSL pode ainda ter um candidato na cidade, de acordo com o presidente estadual do partido, o deputado federal Charlles Evangelista.

Já Florianópolis (SC) é um dos locais em que a disputa entre PSL e bolsonaristas vive o estágio mais acentuado. Santa Catarina elegeu em 2018 o governador Carlos Moisés, filiado ao PSL e de discurso bolsonarista. Mas, pouco após a posse, o governador passou a adotar posicionamentos que contrariaram a bancada conservadora, que passou a fazer oposição a ele. Hoje, Moisés enfrenta um processo de impeachment e os deputados estaduais do PSL estão entre os principais defensores de seu afastamento do cargo. Nesse contexto, o pré-candidato do PSL na capital catarinense, Gonzalo Pereira, deve concorrer sem o aval dos bolsonaristas.

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