Como o PT pretende usar o plano de reconstrução do Brasil para recuperar forças nas eleições de 2020
PT pretende usar o plano de reconstrução para subsidiar discurso de recuperação da renda no pós-pandemia| Foto: Divulgação/PT

O PT planeja utilizar seu "Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil", documento com propostas para a gestão pública nacional, lançado em setembro, como uma ferramenta para fortalecer o desempenho do partido já nas eleições municipais de 2020. E a principal aposta é dar subsídios para os candidatos centrarem seu discurso na defesa do emprego e da recuperação econômica das cidades após a crise provocada pela pandemia de coronavírus.

Segundo a ex-ministra Tereza Campelo, uma das autoras do plano de reconstrução, o fato de o texto ter uma abordagem majoritariamente nacional não tira dele a possibilidade de contribuir para as disputas nas cidades.

"Com certeza, é um documento que pode ajudar muito. Porque traz um diagnóstico extremamente importante, e porque os prefeitos eleitos agora vão receber prefeituras muito impactadas pela crise econômica. A agenda de recuperação econômica é prioritária para os municípios", afirma Tereza Campelo, que comandou o Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome no governo de Dilma Rousseff.

PT é coadjuvante na eleição nas maiores cidades

A utilização de uma arma "adicional" – o plano – se mostra importante para o PT em um momento em que o partido aparece como possível coadjuvante nas brigas pelas prefeituras das principais cidades brasileiras. O PT desponta sem favoritismo nas pesquisas de intenção de voto dos três municípios mais populosos do Brasil: São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador.

No Rio e em Salvador, as candidaturas, respectivamente, de Benedita da Silva e Denice Santiago ficam próximas dos 7%, com menos de um terço das intenções de voto dos líderes. Em São Paulo a situação é ainda mais delicada. O candidato petista, Jilmar Tatto, soma 2%, e o seu nome tem sido relegado até por petistas históricos, que veem com mais entusiasmo a empreitada do ex-presidenciável Guilherme Boulos (Psol).

As três cidades também registram uma discussão que marcou o período pré-eleitoral e que tende a ficar no radar político nos próximos meses, que é a dificuldade de as forças de esquerda se unificarem em torno de uma única candidatura e, assim, evitarem a fragmentação de votos. Nos três municípios, PT e Psol têm candidatos próprios; em Salvador e São Paulo o PCdoB, histórico parceiro do PT, também se apresentou com cabeça de chapa na disputa.

O PT teve um desempenho considerado ruim nas últimas eleições municipais, realizadas em 2016. O partido conquistou 256 prefeituras, cerca de 60% a menos do que 630 as alcançadas em 2012. Entre as perdas sofridas pelo partido na ocasião esteve a derrota de Fernando Haddad, que buscava a reeleição como prefeito de São Paulo. Ele foi derrotado ainda no primeiro turno por João Doria (PSDB).

O discurso de defesa de recuperação da renda pode não ser suficiente para mudar o cenário negativo para o PT em muitas cidades. Mas ao menos o partido vai transmitir a mensagem de que defende o trabalhador – o que poderá lhe trazer frutos nas eleições de 2022.

PT vai da "carta ao povo brasileiro" ao aceno às minorias

"Nossa candidatura terá a missão de liderar uma frente antibolsonarista em Fortaleza. Nossa cidade não aceita fascismo, autoritarismo, machismo, racismo, misoginia, LGBTfobia e descaso com a saúde e educação do povo." A deputada Luizianne Lins (CE), candidata do PT à prefeitura de Fortaleza, se posicionou desse modo em suas redes sociais no dia 27 de agosto, para falar sobre seu projeto para a capital cearense.

O discurso da parlamentar e a utilização de termos como machismo, misoginia e LGBTfobia ecoam diretrizes que estão no "Plano de Reconstrução e Transformação do Brasil". O documento menciona os termos (ou similares) em suas primeiras linhas e trata as chamadas pautas identitárias como questão prioritária.

Nesse ponto, o plano atual do PT não repete o teor de um documento histórico produzido pelo partido – a "Carta ao povo brasileiro", assinada em 2002 pelo então candidato a presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O texto da ocasião tinha como linha-mestra abordagens para o campo econômico e indicativos de que o PT, no poder, não planejava o rompimento de contratos firmados pelas gestões anteriores.

A ex-ministra Tereza Campelo reconhece que tópicos como machismo e homofobia "não tinham centralidade" na carta de 2002, mas aponta que essas questões ganharam corpo ao longo do período em que o PT esteve na Presidência da República.

"A questão da igualdade de gênero e outras se tornaram políticas importantes ao longo dos anos de gestão do PT. Foram tomadas decisões como a criação do Ministério das Mulheres, a adoção do nome social à população LGBT na rede pública de saúde e as ações afirmativas de raça e gênero", declarou.

Tereza Campelo ressalta que a presença maior desses termos no documento atual não se dá apenas pelo fato de essas temáticas estarem mais fortes hoje em dia, mas são também uma resposta a medidas "contrárias à população LGBT" tomadas pelo governo Bolsonaro.

"Por mais críticas que tivéssemos ao governo FHC, não se tratava de um governo que ficava o tempo todo negando a posição das mulheres, negando o ponto de vista da população LGBT, como faz o governo Bolsonaro", afirma ela.

"É errado o governo decretar o fim da calamidade"

As propostas que o PT apresenta em seu plano são divididas em metas de curto, médio e longo prazo. Há ainda ações de implantação imediata, que se focam no combate ao coronavírus e nos efeitos da pandemia na economia.

"Não estamos apenas falando que achamos que algo está errado. Estamos apresentando o que, na nossa opinião, deveria ser feito. No caso atual, é errado o governo decretar o fim da calamidade, é errado acabar com o auxílio emergencial. Ainda há altos índices de contágio, e com muita gente desempregada", afirma a ex-ministra do PT.

Já no longo prazo, uma sugestão defendida pelo partido é a taxação de grandes fortunas. O tema é cotidianamente mencionado pelos representantes do partido no Congresso. Segundo a ex-ministra, o ambiente para o assunto é, hoje, mais favorável do que o de 2005, quando o PT governava o país e lançou a ideia.

"Tínhamos maioria, conseguida por meio do governo de coalizão, e não conseguimos avançar. Mas hoje esse debate obtém mais espaço, até como referência ao trabalho do Thomas Piketty", afirmou, em referência ao economista francês, autor de O Capital no Século 21, livro que fala sobre a desigualdade contemporânea.

Metodologia das pesquisas eleitorais citadas na reportagem

Pesquisa de São Paulo: o Instituto Datafolha ouviu 1.092 eleitores de São Paulo, presencialmente, entre os dias 21 e 22 de setembro. A pesquisa foi encomendada pelo jornal Folha de S. Paulo. A margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é SP-06594/2020.

Pesquisa do Rio de Janeiro: O Instituto Paraná Pesquisas ouviu 910 pessoas, entre os dias 20 e 24 de setembro de 2020. A margem de erro do levantamento é de 3,5 pontos percentuais, para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%. O número de registro do levantamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é RJ-08624/2020.

Pesquisa de Salvador: o levantamento do Instituto Potencial Pesquisa, encomendada pelo jornal A Tarde, foi realizada entre os dias 16 e 22 de setembro. O instituto ouviu 800 pessoas em Salvador, por telefone. A margem de erro do levantamento é de 3,5 pontos percentuais. O nível de confiança é de 95%. O número de registro da pesquisa no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é BA-02638/2020.

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