Eleição municipal de 2020 deixa lições para a disputa presidencial de 2022.
O Palácio do Planalto, ao fundo: eleição municipal de 2020 deixa lições para a disputa presidencial de 2022.| Foto: Marcos Correa/PR

Prever o impacto das eleições municipais na disputa pela Presidência e pelos governos estaduais em 2022 é um arriscado exercício de futurologia. Daqui até lá, muito pode mudar. O fato, porém, é que a distribuição de poder nas prefeituras dos mais de 5 mil municípios brasileiros é parte importante do caminho que culmina em Brasília. A razão é simples: ter mais prefeituras – ou comandar grandes centros urbanos do país – dá capital simbólico e político aos partidos.

"Eu concordo que as eleições municipais são muito marcadas por temáticas locais. Mas, por outro lado, elas têm uma importância muito grande na consolidação de bases eleitorais para as eleições nacionais", explica Mayra Goulart, professora do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). "Esses prefeitos e vereadores eleitos em 2020 vão ser cabos eleitorais para os candidatos de 2022", completa a professora.

É a partir dessa perspectiva que se pode inferir, com mais precisão, quais devem ser os impactos dos resultados das eleições de 2020 no pleito geral que ocorre daqui a dois anos. A primeira consequência do raciocínio é óbvia: partidos de centro e centro-direita, como PP, PSD e DEM – os grandes vencedores das disputas municipais –, saem fortalecidos.

"Principalmente no que a gente chama de Brasil profundo, as eleições para prefeito formam a base política para candidaturas a deputado, senador, etc. O Centrão – que tinha uma força mais concentrada em partidos como o MDB – agora ampliou esse quadro partidário. Essa dispersão vai tornar o eleito em 2022 mais dependente desse quadro disperso, provocando [a realização de] alianças e concessões", opina Eduardo Viveiros, cientista político e pesquisador da PUC-SP.

O poder de barganha ampliado por essas legendas deve se refletir, ainda, na composição das chapas na disputa para 2022. O DEM e o PSD, por exemplo, já cogitam lançar candidaturas próprias à Presidência na próxima eleição. E, mesmo se não o fizerem, ainda assim podem indicar nomes para vice nas chapas.

"O PP pode ser o partido que vai receber Jair Bolsonaro de volta. O DEM se fortaleceu de tal modo que, mesmo não tendo um nome para 2022, tem grande poder de negociação. O partido pode, inclusive, negociar um vice com o PSDB e sair como cabeça de chapa para o governo de São Paulo, por exemplo", analisa Marco Teixeira, coordenador do curso de Administração Pública da FGV EAESP.

Sem partido e sem eleger seus candidatos, Bolsonaro fica sem apoio nos municípios

E, falando no presidente Jair Bolsonaro (sem partido), é sobre ele que as eleições municipais devem ter seu maior impacto. Em primeiro lugar porque, apesar de ter negado a participação nas eleições, Bolsonaro apoiou alguns candidatos – e viu a maior parte deles ser reprovada nas urnas pelos eleitores. Os dois maiores exemplos são Celso Russomanno (Republicanos), que não chegou nem ao segundo turno em São Paulo; e Marcelo Crivella (Republicanos) que, apesar de ter avançado para a segunda etapa do pleito, sofreu uma derrota por larga margem de votos de Eduardo Paes (que, aliás, é filiado ao DEM).

No Recife, por exemplo, a candidata que Bolsonaro decidiu apoiar – Delegada Patrícia, do Podemos – começou a derreter nas pesquisas de intenção de voto justamente depois de radicalizar o discurso e receber o endosso do presidente. Entre os candidatos a prefeito apoiados por Bolsonaro, só se elegeram Mão Santa (DEM), em Parnaíba, no Piauí; e Gustavo Nunes (PSL), em Ipatinga, Minas Gerais. Tião Bocalom (PP), que ganhou em Rio Branco, também foi apoiado pelo presidente – mas só depois que surfava, tranquilo, nas pesquisas de intenção de voto.

Para Teixeira, da FGV EAESP, o fracasso se relaciona ao fato de Bolsonaro ter escolhido candidatos sem qualquer articulação de apoios. "Ele escolheu interferir nas eleições em grandes cidades: São Paulo, Rio, Fortaleza, Recife. Se deu mal em todas. Não negociou isso com a base aliada. No Recife, por exemplo, apoiou uma candidata [Delegada Patrícia], enquanto o líder do governo, Fernando Bezerra [MDB], apoiava outro [Mendonça Filho, do DEM]. Por isso, foi uma derrota pessoal", opina o professor.

Outro fator importante a ser considerado no caso de Bolsonaro é que, depois de se desentender com lideranças do PSL, o presidente ainda não se filiou a um novo partido. Com isso, na opinião de Mayra Goulart, da UFRJ, Bolsonaro perdeu a chance de consolidar a máquina partidária que pode lhe garantir uma rede de apoios em 2022. "Tanto o PSDB quanto o PT aumentaram significativamente o número de prefeituras depois que chegaram à Presidência. Bolsonaro perdeu essa oportunidade. Confiando muito no seu personalismo, ele não teve um partido para usufruir desse bônus", afirma a professora.

Ocorre que, a julgar pelos sinais dados pelos eleitores nas eleições municipais de agora, a onda personalista que levou o presidente ao poder já deve ter passado. "O 'mito' serviu para aquele momento. O contexto hoje é outro. O eleitor buscou políticos experientes. Na minha opinião, o maior derrotado é o presidente", afirma Teixeira.

Com encolhimento do PT, esquerda se fragmenta

No outro extremo do contexto polarizado que vive o país, o PT tem pouquíssimos motivos para celebrar nas eleições de 2020. O desempenho da legenda foi pior que o de quatro anos atrás (que já era considerado ruim por dirigentes partidários): em 2020, o PT elegeu apenas 181 prefeitos. "Mesmo assim, o PT, simbolicamente, recuperou Diadema e Mauá, duas cidades na Grande São Paulo, o que representa uma espécie de volta às origens", analisa Viveiros, da PUC-SP. Entre as grandes cidades, petistas também se elegeram em Contagem e Juiz de Fora, ambas em Minas Gerais.

Considerando a esquerda de forma mais ampla, outros partidos desse espectro – como PDT, PCdoB e PSB – também perderam prefeituras. Olhando apenas para as capitais, o PSB conquistou duas prefeituras (Recife e Maceió); o PDT, outras duas (Fortaleza e Aracaju); e o Psol, uma (Belém). Um marco importante foi a candidatura de Guilherme Boulos (Psol) em São Paulo – que, mesmo não tendo sido eleito, conquistou 40% dos votos válidos, o que equivale a mais de 2 milhões de votos.

"Os partidos de esquerda ganharam onde já ganhavam. O avanço foi tímido. No Recife, por exemplo, há um litígio enorme do PSB com o PT para ser resolvido. Acho muito difícil que a esquerda saia unida para as eleições de 2022", avalia Teixeira.

Na opinião de Mayra, porém, a divisão da esquerda não necessariamente será ruim para os candidatos desse espectro político. "Não acho que essa fragmentação tenha sido negativa. A esquerda está se apresentando multicêntrica, e não mais com uma hegemonia demasiada do PT. É a construção de uma esquerda que não nega o PT – e que, muitas vezes, inclui o próprio PT nas suas composições", diz a professora da UFRJ.

O que fica para 2022?

Se Bolsonaro, de um lado, e a esquerda, de outro, saem com desafios para o próximo pleito, quem se beneficia? O centro. E, nesse caso, entenda centro como sinônimo de moderação e diálogo.

"É o perfil de liderança do Bruno Covas – discreto, que reconhece a importância da política, da gestão, que não é tão midiático, que não faz qualquer tipo de investida de negação da política", exemplifica Mayra.

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