Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
  • Ícone FelizÍcone InspiradoÍcone SurpresoÍcone IndiferenteÍcone TristeÍcone Indignado
bolsonaro - motociatas - motociata - evangélicos - agropecuária - ruralistas
Presidente Jair Bolsonaro (PL) durante motociata em São Paulo: estratégia é intensificar as viagens e passeios de motocicleta| Foto: Fernando Bizerra Jr/EFE

O presidente Jair Bolsonaro (PL) decidiu intensificar sua presença em "motociatas", marchas evangélicas e eventos do agronegócio. O objetivo é mostrar popularidade e se contrapor ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Ao contrário do que foi orientado por conselheiros e assessores, Bolsonaro não vai abrir mão de suas já tradicionais motociatas. A ideia, inclusive, é intensificar esse tipo de participação nas ruas. As motociatas entraram na estratégia político-eleitoral de Bolsonaro durante a pandemia da Covid-19.

Contudo, alguns conselheiros recomendaram ao presidente a suspendê-las de forma temporária e preventiva após contestações feitas por partidos da oposição ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) após motociata organizada em abril, em São Paulo. O PT acionou Bolsonaro sob acusação de propaganda antecipada e o PDT questionou um suposto financiamento público irregular na motociata. Como resposta às denúncias feitas ao TSE, o presidente foi orientado a ter cautela em sua exposição ao público, a ponto de, no ato de 1.º de maio em Brasília, ele nem sequer ter subido no trio elétrico para não caracterizar comício.

A recomendação feita por alguns interlocutores para Bolsonaro evitar as motociatas após as representações da esquerda durou até meados da primeira dezena de maio. Durante esse período, houve quem defendesse a promoção da pré-candidatura presidencial à reeleição apenas em eventos evangélicos e do setor agropecuário – que não têm financiamento público.

Porém, uma manifestação da Procuradoria-Geral Eleitoral (PGE) no início de maio, que afirma não ter identificado atos de propaganda antecipada em uma motociata organizada em Londrina (PR), reverteu a tendência de Bolsonaro evitar esse tipo de evento. Desde então, o presidente não apenas retomou as motociatas, como também as intensificou. E agora os passeios de moto também conduzem a eventos de evangélicos e do agronegócio – dois segmentos identificados com o presidente.

Em maio, Bolsonaro participou de quatro motociatas até a última quinta-feira (26). Em Santa Rosa (RS), se deslocou até a 23ª Feira Nacional da Soja (Fenasoja). Em Maringá (PR), saiu do aeroporto até a 48.ª edição da Expoingá, a feira agropecuária do município. Em Santana do Paraíso (MG), deixou o aeroporto a caminho de Coronel Fabriciano (MG), onde participou de cerimônia de inauguração de um conjunto residencial financiado pelo Programa Casa Verde e Amarela.

Nesta sexta-feira (27), em Goiânia (GO), ele participa de uma motociata do aeroporto à 48.ª Assembleia Geral Extraordinária da Convenção Nacional das Assembleias de Deus do Ministério de Madureira (Conamad), onde participa de um culto. No sábado (28), embarca para Manaus (AM), onde participará da Marcha para Jesus. Não há a previsão de um passeio de moto com apoiadores.

Na terça-feira (31), Bolsonaro vai participar de uma motociata em Luís Eduardo Magalhães (BA), onde vai comparecer à 16.ª edição Bahia Farm Show, evento do setor agropecuário. Para junho, a previsão é de novas motociatas. O Gabinete de Segurança Institucional (GSI) já monitora e cuida dos preparativos para as viagens do presidente, afirmam interlocutores do Planalto.

Além da presença nos eventos evangélicos e agropecuário com participação em motociatas, em maio Bolsonaro também compareceu à Marcha para Jesus em Curitiba. A primeira-dama Michelle Bolsonaro e a ex-ministra da Mulher, Família e dos Direitos Humanos, Damares Alves, também ajudam a estratégia e participam da Marcha para Jesus em Campo Grande nesta sexta (27). As duas assumiram papéis-chave na pré-campanha.

A importância das agendas com evangélicos e ruralistas para Bolsonaro

A participação em motociatas e em eventos evangélicos e do setor agropecuário estão contemplados dentro de uma estratégia eleitoral para consolidar votos e demonstrar força popular. Aliados da base política no Congresso e interlocutores do governo desdenham e até descredibilizam pesquisas como a mais recente do Datafolha, que coloca Lula com 48% das intenções de voto e Bolsonaro com 27%.

O discurso entre governistas é que Bolsonaro é mais popular, tem mais votos e não é mais rejeitado que Lula por mobilizar a participação popular nas cidades por onde passa. Eles destacam que o presidente tem uma base eleitoral ampla, com capilaridade entre eleitores de todas as classes sociais.

Ao defender Bolsonaro, aliados e interlocutores do governo citam o dia 15 de maio como um exemplo do poder de mobilização entre ricos e pobres. Naquele dia, ele participou de uma "lanchaciata" (passeio de lancha) e, depois, visitou duas feiras populares de Brasília.

A fim de diversificar a participação popular, também é estudado no Planalto uma "carroceata" em alguma cidade no Nordeste, como uma estratégia para impulsionar a imagem do presidente na região.

A participação de Bolsonaro em uma motociata seguida de uma agenda com evangélicos ou ruralistas faz parte de uma estratégia de marketing eleitoral. O objetivo de Bolsonaro é consolidar o máximo de apoio entre os eleitores e mostrar popularidade. Coordenadores da pré-campanha entendem que o presidente ainda conta a maioria dos votos entre evangélicos e empresários e trabalhadores do setor rural. Porém, admitem que alguns votos foram "perdidos" ao longo da gestão e, por isso, enfatizam a necessidade de recuperar essa parte do eleitorado.

Pesquisa do Poder Data divulgada na quinta-feira (26) aponta que a aprovação de Bolsonaro entre evangélicos é de 47%. O índice se mantém estável em relação ao último levantamento, mas mostra uma desaceleração em relação a agosto do ano passado, quando o índice estava em 57%. Segundo o instituto, o presidente é desaprovado por 44%, também acima em comparação aos 36% registrados em agosto.

Interlocutores do governo não acreditam nesses números e acham o índice de aprovação de Bolsonaro entre evangélicos é maior. Mas reconhecem que o apoio está aquém do que estava início da gestão. A mesma análise é feita para o segmento do agronegócio, onde acham que o presidente pode ter perdido alguns votos para a terceira via.

Em parte, a estratégia de Bolsonaro para recuperar votos passa por polarizar e descredibilizar adversários políticos, como Lula, e desafetos, como o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O planejamento também passa por prestigiar bases políticas tradicionais, como a evangélica e a ruralista.

O que dizem aliados sobre as motociatas

O deputado federal Capitão Alberto Neto (PL-AM), vice-líder do governo na Câmara, diz que Bolsonaro não vai recuar das motociatas e, de fato, tende a intensificá-las. O parlamentar vai acompanhar Bolsonaro na viagem de Brasília a Manaus, onde participarão da Marcha para Jesus, no sábado (27), e enfatiza que os passeios de motocicleta são complementares às agendas pelo país.

"O presidente quer estar onde o povo está. E a legislação eleitoral diz que o que não pode é pedir voto de maneira expressa. Isso não está sendo feito; estamos obedecendo à legislação eleitoral. E é a característica dele [Bolsonaro], que consegue sair às ruas e levar multidões, ao contrário do ex-presidiário [Lula] que, se sai na rua, é vaiado e não junta ninguém", diz Alberto Neto ao defender as motociatas.

Sobre a presença de Bolsonaro em eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, o deputado afirma que é uma agenda que mostra o comprometimento do presidente com as bandeiras defendidas pelo governo. "A participação na Marcha para Jesus dá um recado, de que ele defende a família brasileira e é contra o aborto", diz.

O deputado federal Marco Feliciano (PL-SP), vice-líder do governo no Congresso, acredita que Bolsonaro tem no segmento evangélico sua grande força. "Em 2018 , os 10 milhões de votos que ele teve a mais que [o ex-prefeito paulistano Fernando] Haddad vieram da grande vantagem que ele teve no segmento. Estamos todos mobilizados para repetir e até mesmo ampliar a vantagem obtida", diz.

A fim de cumprir tal meta de ampliar a vantagem, Feliciano afirma que Bolsonaro cumprirá uma agenda intensa de compromissos junto aos evangélicos. "Ouso dizer que nosso segmento mais uma vez será o diferencial da vitória do presidente."

Líder e fundador da Assembleia de Deus Catedral do Avivamento, Feliciano rejeita a ideia de que a presença de Bolsonaro em eventos evangélicos seria uma forma do presidente se eximir de acusações da oposição de propaganda antecipada. "Bolsonaro é presidente da República e sua presença em nossos cultos honra nossas igrejas", destaca.

O deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), vice-líder do partido na Câmara, afirma que a presença de Bolsonaro nos eventos é genuína no intuito de prestigiar as bases políticas. O parlamentar acompanhou o presidente no evento agropecuário em Santa Rosa (RS). "Quando fazem convite, ele diz sim para todo mundo. Quer estar em todos os lugares por carinho, gosta de estar junto à população. Ele está mais para um ingênuo politicamente do que o espertalhão querendo ganhar votos. Faz isso pois ama estar com a população e prestigiar os eventos", diz.

Advogado eleitoral diz que motociatas não são propaganda antecipada ilegal

O advogado Guilherme Gonçalves, sócio da GSG Advocacia e membro fundador da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político (Abradep), defende que, à exceção de pedidos explícitos de voto (como prevê a Lei das Eleições), pré-candidatos tenham o direito à liberdade de expressão para se manifestar.

Para o especialista em direito eleitoral, há lógica nas recomendações feitas por conselheiros de Bolsonaro que propuseram uma suspensão temporária e preventiva das motociatas, embora ele não identifique tais ações como propaganda antecipada. "O medo que me parece é o de se ter abuso de poder", diz Gonçalves.

O advogado entende que há quem entenda que motociatas possam ser interpretadas como propaganda antecipada pelo abuso de poder político-econômico, por utilizar a estrutura da Polícia Militar (PM) para garantir a segurança e a liberdade de manifestação, por exemplo. Ou pela chamada "conduta vedada", um conjunto de ações proibidas por ter a capacidade de interferir na lisura e no equilíbrio das eleições.

Ainda assim, Gonçalves avalia que nem toda propaganda antecipada é abuso de poder, e vice-versa. Ele destaca, ainda, que, para um ato ser enquadrado como abuso de poder, é preciso provar que a estrutura de pré-campanha tenha financiado atos com dinheiro de pessoa jurídica. "Mas o fato de participar em si, seja de uma motociata ou de um culto, com certeza propaganda antecipada ilícita não é", diz.

Sobre a participação de pré-candidatos em eventos, como a de Bolsonaro em cultos evangélicos, desde que não financiados pela pré-campanha com recursos de empresas, Gonçalves aponta que a legislação não apenas não veda, como "recomenda". O inciso VI do artigo 36-A da Lei das Eleições prevê que não é configurado como propaganda eleitoral antecipada a realização "de reuniões de iniciativa da sociedade civil".

Metodologia das pesquisas citadas na reportagem

A pesquisa Datafolha entrevistou 2.556 eleitores entre os dias 25 e 26 de maio em 181 cidades. O levantamento foi contratado pelo jornal Folha de S. Paulo e está registrado no TSE com o protocolo BR-05166/2022. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.

A pesquisa Poder Data entrevistou 3.000 eleitores entre os dias 22 a 24 de maio em 301 cidades. O levantamento foi realizado para o site Poder 360 e está registrado no TSE com o protocolo BR-05638/2022. A margem de erro é de dois pontos percentuais para mais ou para menos, e o nível de confiança é de 95%.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Máximo de 700 caracteres [0]