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Voluntariado

A caridade como meio de transformação social

Irmã Anete Giordani desenvolve projetos para melhorar a vida de uma comunidade de Curitiba assolada pela falta de segurança

  • Angélica Favretto, especial para a Gazeta do Povo
Irmã Anete em frente à creche que ajudou a criar na Vila Sabará, na Cidade Industrial: dedicação e amor ao próximo |
Irmã Anete em frente à creche que ajudou a criar na Vila Sabará, na Cidade Industrial: dedicação e amor ao próximo
 
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Eis a sinopse: uma freira é chamada para trabalhar em um bairro violento e que sofre com o descaso público. É necessário reorganizar uma das escolas locais, fazer com que adolescentes e jovens tenham uma perspectiva de futuro e, através de ações práticas, colocar tudo nos eixos. Mas essa religiosa não é como as outras. O hábito não a intimida a jogar bola com os meninos na praça ou a colocar a mão na massa para erguer paredes e limpar terrenos.

Lembrou da personagem de Whoopy Goldberg em Mudança de Hábito, mais precisamente na sequência do filme, onde com a música ela muda a história de jovens do bairro? Pois bem, o trecho acima não é a história da Irmã Mary Clarence, mas sim do início do trabalho da Irmã Anete Giordani, 46 anos, na Vila Sabará, na Cidade Industrial de Curitiba.

Assim como a personagem do filme, a Irmã Anete revolucionou o local onde foi trabalhar. Nascida em Bento Gonçalves (RS), ela é oriunda de uma família católica bastante religiosa. Sempre teve em casa o bom testemunho dos pais. Um dia, aos 6 anos, uma freira a visitou em casa e tirou dos bolsos várias ba­­las coloridas. Os olhos da pequena Anete brilharam e ela encasquetou que esse devia ser o papel das irmãs: entregar balas e trazer alegria.

A menina cresceu. Aos 10 anos ganhou um violão e, vendo Teixerinha pela televisão, aprendeu a tocar sozinha. Na adolescência praticava vários esportes, dançava nos centros de tradição gaúcha, se formou professora e técnica em contabilidade. Mas a vocação lhe bateu à porta mais uma vez.

O mês de agosto para a Igreja Católica é o mês vocacional. Na época, irmãs da congregação Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus passaram nas escolas mostrando o trabalho das freiras. Os olhos da jovem Anete brilharam e, dessa vez, decidiu conhecer a vida religiosa mais a fundo. Passou por dois anos de noviciado e aos 20 fez seus primeiros votos. O trabalho com a juventude sempre foi o que mais gostou, porque para ela é preciso incentivar esses meninos e meninas a ter um projeto de vida.

Trajetória

Sempre ativa, no início da década de 1990 foi para a Itália estudar Ciências Religiosas e participou do processo de beatificação da Madre Clelia Merloni, fundadora das Apóstolas do Sagrado Coração de Jesus, transcrevendo diários e documentos. Quando retornou ao Brasil, em 1994, colaborou por algum tempo com o Centro Social Divina Misericórdia na Vila Sabará, mas só em 1999, quando a antiga gestora ficou doente, é que ela foi chamada para assumir o trabalho. São 25 anos dedicados a Deus, data comemorada sempre no dia 21 de janeiro.

Moradores estavam muito acomodados

Quando chegou ao Sabará, Irmã Anete percebeu que a igreja só dava o peixe aos moradores, mas não os ensinava a pescar. Todos os dias pessoas iam até o Centro de Ação Social, que ficava no bairro Santa Helena, e de lá saiam com carrinhos de mão cheios de comida e roupas. Anete, que agora era estudante de Serviço Social na Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), achou naquela situação um problema. Tudo era muito cômodo para ambas as partes. Não era possível uma pobreza tão grande que nem comida aquelas pessoas conseguiam comprar.

Quando alguém pede comida, segunda ela, é porque já não tem mais para onde correr e não era isso que ela via no Sabará. Ali tinha gente forte e bem disposta. Passou então a trocar a comida pela presença dos moradores em um círculo de conversas. “Para quem faz a caridade dessa forma pode se tornar um escravo do ‘eu’. Algo como: ah, todos precisam de mim, eu sou melhor. Para quem só recebe, se torna escravo do próprio comodismo”, explica. Ela começou a mostrar aos vizinhos que a igreja estava ali para auxiliar e não para suprir todas as necessidades deles.

Creche

Em 2000 o Centro assumiu a creche comunitária do Sabará. Além dela, até hoje, só existe mais uma creche da prefeitura. O prédio precisava de reformas urgentes, as 100 crianças mal tinham onde se sentar e a verba repassada pela Secretaria da Criança, responsável pela educação infantil na época, era de R$ 30 por aluno. “Um absurdo”, pensou ela.

Então combinou com as famílias que elas contribuiriam com mais R$ 10. Ouviu reclamações e contornou a situação mostrando que ela estava trazendo qualidade educacional e de vida para as crianças. Venceu mais essa. Com Deus em cada passo que dava, ela conseguiu amigos voluntários para reformar a creche. As roupas que antes eram doadas passaram a ser vendidas a 50 centavos, o Clube de Trocas foi criado e a rotina da vila foi mudando. Incomoda­­da com o terreno baldio ao lado da creche, lutou até conseguir o espaço junto à prefeitura. Ampliou a escolinha. Hoje, no local, são atendidas cerca de 200 crianças.

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