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Carreira

Treinadoras são joias raras em solo masculino

Mulheres se destacam como atletas, mas ainda sofrem para ganhar espaço no comando de comissões técnicas de elite

Letícia Pessoa, de 48 anos: técnica ganhou respeito de seus pupilos | Mauricio Kaye/ cbv
Letícia Pessoa, de 48 anos: técnica ganhou respeito de seus pupilos (Foto: Mauricio Kaye/ cbv)

Quinze homens estão reunidos em uma da quadras de vôlei de praia do centro de treinamento da seleção em Saquarema (RJ). É hora de ouvir os conselhos e broncas da comissão técnica. Cena corriqueira em qualquer equipe, exceto em um aspecto: o centro das atenções é uma mulher. Letícia Pessoa, 48 anos, é uma das poucas técnicas a chegar ao comando de uma seleção brasileira.

Apesar de a presença feminina ser crescente no esporte nacional – difícil encontrar a modalidade em que elas ainda não se engajaram –, os postos de estrategistas de atletas para as principais competições mundiais ainda é de domínio masculino. Raras são as exceções.

"Não existe mais o preconceito. Recebe o cargo quem tem talento. A mulher é organizada, perfeccionista, está conquistando espaço. Quando comecei, [ser técnico] era tarefa para homens, mas meus comandados me aceitam muito bem", defende Letícia.

Sua trajetória tem características comuns à de outras treinadoras que conseguiram ascensão à elite do esporte: poucas são as que não têm como pré-requisitos a carreira de atletas com posterior formação acadêmica. E, em seus discursos, ignoram as barreiras de gênero e não reconhecem terem sofrido situações de opressão. "É difícil para elas e para nós, pesquisadores, reconhecer essas estruturas opressoras atualizadas na profissão delas", afirma a mestre em Educação Física Gabriela Oliveira, que entrevistou treinadoras de equipes de alto rendimento no Rio de Janeiro, em artigo sobre o tema.

Considerar "liderança" um atributo naturalmente masculino (e muito valorizado nos comandantes esportivos), é uma dessas marcas de machismo velado. Essa visão de que o homem é o líder natural é construída historicamente, quando, na formação de uma sociedade patriarcal, cabe a eles o papel de provedores, explicam os pesquisadores Julio Cesar Fetter e Eliane Martins da Silva, em estudo que discute liderança e gênero no esporte.

A técnica da seleção brasileira de judô, Rosicléia Campos, 43 anos, destaca também que os homens se sentem desconfortáveis tendo de concorrer com uma mulher em cargos de comando. "Passei por isso quando assumi como técnica da seleção feminina sênior. Outros treinadores começaram a questionar a escolha. O Ney [Wilson, coordenador técnico da seleção] explicava que eu tinha duas pós-graduações, competi três Olimpíadas [1988, 1992 e 1996], já havia sido auxiliar em Sydney [2000], comandava as categorias de base. E, às vezes, nem todo esse currículo parecia suficiente", conta.

Foi com ela que as judocas brasileiras chegaram ao pódio olímpico, com o bronze de Ketleyn Quadros (Pequim-2008) e ao primeiro ouro feminino nos tatames, com Sarah Menezes (Londres-2012). "Me sinto rea­­lizada, vim de uma época em que o judô feminino no Brasil não era nada. Não recebíamos o mesmo investimento e tínhamos a mesma cobrança. Como técnica, sofria uma pressão muito maior. Se desse errado, é porque o comando era de uma mulher; se desse certo, era por sorte", fala.

Rosicléia conta que muitas vezes pensou em ser mãe. "As pessoas cobram: ‘e aí, vai ter filho? Acho que não vai dar tempo. Isso incomoda", lamenta. Tal escolha – esporte ou maternidade – é também fator que impede o avanço feminino na busca de cargos de liderança esportiva.

Empatia

Um estudo com jogadoras de futebol das seleções da Alemanha, Suécia, Noruega e Estados Unidos, aponta que as atletas atribuem às técnicas maior capacidade de empatia, competência comunicativa e disposição para cooperar do que técnicos homens. Já uma pesquisa entre jogadores de voleibol e basquete com idades entre 14 e 21 anos nos Estados Unidos indicou que os rapazes exibem mais atitudes negativas diante de treinadores do sexo feminino do que masculino. "Na ginástica artística, se não houvesse uma regra que obriga a ter técnicas mulheres nas competições, não teríamos mulheres nesse posto. Os rapazes não aceitam bem serem treinados por elas", diz a presidente da Federação Paranaense de Ginástica, Vicélia Florenzano.

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