
A tranquilidade com que o administrador Lubumba varre as folhas na entrada do estádio contrasta com a urgência de reformas que salta aos olhos. O gramado está alto a ponto de esconder os pés. As arquibancadas precisam de limpeza e pintura. Falta atrás dos gols uma proteção para que chutes mais potentes não mandem a bola para a rua.
Ainda assim, a mística que já fez jogadores experientes tremerem na Estradinha segue inabalada nas histórias contadas em um só fôlego. "Lembro de um jogo que perdemos para o Coxa por 4 a 1. Nunca vi o estádio tão lotado. Fiz o primeiro gol e a arquibancada temporária atrás do gol balançava", recorda Herminho, 14 estaduais pelo Leão, e hoje auxiliar técnico. "É o sonho do torcedor, é a paixão, é a casa do Rio Branco", resume Lubumba, 25 anos de Estradinha, entre jogador, integrante da comissão técnica e, nos últimos tempos, encarregado de manter o local em ordem para o esperado retorno.
A retomada do histórico Estádio Nelson Medrado Dias é a atração mais afetiva do Rio Branco em 2013. Um ano especial, em que o terceiro clube mais antigo do estádio completa seu primeiro centenário e traça metas ambiciosas para recuperação da entidade, montagem de uma equipe capaz de garantir calendário até o fim da temporada e resgatar o torcedor. A Estradinha diz respeito ao terceiro ponto.
"É o resgate da história, da mística do local, uma homenagem aos rio-branquistas que fundaram o clube", diz o presidente Fabiano Elias, advogado, 44 anos, filho de ex-presidente do Leão. "Eu era mascote do time quando fomos campeões do Sul [Zona Sul do Estadual], em 1977. Sempre torci para o clube. Nunca tive um time em São Paulo, no Rio, em Curitiba."
Desde o fim do ano o clube reforma a Estradinha. Já fez reparos nas instalações hidráulicas e elétricas, vestiários, luzes de emergência e corrimões. Ainda faltam os alambrados, o gramado, a pintura e a limpeza, exatamente os problemas mais visíveis. Pronto, o estádio poderá receber 7 mil pessoas. Deve ser usado nos jogos diurnos e em alguns dos duelos com os grandes da capital.
Casa do Rio Branco para jogos e treinos desde 2005, o Gigante do Itiberê continuará sendo usado. Maior e mais confortável, foi absolvido pela diretoria na avaliação dos motivos para o clube colecionar resultados ruins e públicos pequenos nas temporadas mais recentes.
"Time bom leva público em qualquer lugar. Em 2006 e 2007 conseguíamos lotar o Gigante do Itiberê", lembra Elias.
Para montar um "time bom", o dirigente ouviu a torcida. A partir da sugestão de torcedores na internet, foi buscar o técnico Gassen, o goleiro Filipe, o zagueiro Valdir e o meia Renan Meduna. Ainda trouxe os experientes Rodrigo Café, ex-Coritiba, Muçamba, ex-Paraná, e Massaro, artilheiro do clube nas boas campanhas de 2006 e 2007. O atacante, porém, foi embora sem estrear, após ter recusado o pedido de aumento de salário. Mais cinco jogadores devem chegar até a estreia no Estadual, dia 20, contra o Atlético.
O dinheiro para montar e manter um elenco capaz de ser campeão do interior e obter uma vaga na Série D do Brasileiro vem de patrocinadores, direitos de transmissões e ações de marketing. Desde novembro, todo dia 13 tem algum evento do centenário. Já foram lançados os novos uniformes e no próximo fim de semana começam as inscrições para a escolha da leona (a musa do Rio Branco) e de gandulas femininas para trabalhar nos jogos. Há também um plano de sócio-torcedor à venda, que dá direito a entrada gratuita no estádio e usar as sedes do Clube Literário de Paranaguá. A agenda segue até 13 de outubro, data do aniversário.
A conta a ser coberta é de pelo menos R$ 700 mil. As dívidas, em torno de R$ 550 mil, estão sendo negociadas à parte. Atingir o equilíbrio entre estes dois números será fundamental para o Leão ter um centenário para ser realmente comemorado. E o resgate da Estradinha entra como um fator determinante nesta equação.









