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Gols e negócios

Cartas na mesa

  • Leonardo Mendes Junior
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Cartas na mesa

Como em um jogo de azar, fundos de investimento se aventuram na aquisição de jogadores. Quanto maior o risco, melhores as chances de ganhar dinheiro com um promissor boleiro. “Somente o futebol te possibilita ter um rendimento de 1.500% em quatro meses”, diz o investidor, deixando outro recado: “Mas de 90% a 95% dos garotos micam”

Guilherme Miranda reage com a estranheza de quem está diante de um extraterrestre ao ser questionado se o Ceará é aquele que jogou no Coritiba em 2003. “Eu não acompanhava muito futebol antes”, explica. São duas informações sobre o lateral-direito, hoje no Cruzeiro, que realmente interessam a ele. O jogador foi seu primeiro investimento nos gramados e a venda dele do Internacional ao Paris-St. Germain, em 2007, rendeu 3 milhões de euros.

Formado em Direito e Administração, Miranda fazia pequenos investimentos em diversos setores. O futebol apareceu como apenas mais um segmento onde por dinheiro. O lucro rápido, porém, foi acima do esperado. E lhe abriu um novo mercado. A venda de Ceará marcou sua entrada no braço esportivo da DIS, sua sócia na negociação do lateral-direito.

Até então, a empresa comandada por Delcir Sonda era conhecida apenas no Rio Grande do Sul, por sua atuação no ramo de supermercados. Hoje, seis anos depois, é o mais proeminente fundo de investimentos atuando no futebol brasileiro. Guilherme Miranda é o diretor executivo da empresa, que tem no seu patrimônio o maior jogador brasileiro em atividade (Neymar) e o camisa 10 que mais remete à tradição de meias clássicos no país (Paulo Henrique Ganso).

A entrada dos fundos de investimento no jogo do futebol brasileiro foi um passo natural. A Lei Pelé criou as condições para que empresários ganhassem dinheiro com jogadores. Atuando invariavelmente sozinhos, contudo, os empresários sofriam com a falta de capital de giro. Precisavam de negociações imediatas para sustentar seu negócio.

No caso dos fundos, o respaldo financeiro garantido pelos acionistas ou pela atuação em outros setores permite esperar a hora certa de vender. Mais do que isso, cria um caixa onde os clubes podem se socorrer. Não são raros os casos em que os fundos adquirem um atleta promissor, o colocam em um clube e ficam com o retorno (positivo ou negativo) que venha depois. Seja qual for o caminho, leva a um lucro maior. Muito maior.

“Somente o futebol te possibilita ter um rendimento de 1.500% em quatro meses”, diz Miranda, referindo-se a Ganso, que o DIS comprou quanto estava a ponto de ser dispensado da base do Santos. “Mas de 90 %a 95% dos garotos micam”, ressalva Miranda, que diz dedicar 12 horas por dia ao atendimento dos cerca de 70 atletas do fundo.

O foco principal de Miranda é nas categorias de base. Coordena a rede de informantes da empresa, que o abastece com indicações. O negócio só é fechado após ele assistir ao desempenho do garoto. Embora seja figura manjada nos torneios subs de todo o país, é avesso a fotografias. Uma maneira de manter-se anônimo em um cenário de concorrência numerosa, mas não qualificada. “É um mercado de muitos empresários e poucos fundos. Que eu respeito mesmo, só o Giuliano Bertolucci e o Eduardo Uram”.

A declaração é uma cutucada indireta naquele que, por algum tempo, foi o grande concorrente da DIS. A Traffic Marketing Esportivo foi a primeira empresa brasileira a descobrir o filão do futebol para os fundos de investimento. Em meados da década passada, fechar parceria com a Traffic era o eldorado para os clubes. A empresa investiu pesado. Criou um clube próprio, o Desportivo Brasil, para registrar seus jogadores, construiu um centro de treinamento no interior de São Paulo e formou uma estrelada rede de olheiros, com nomes como os ex-jogadores Pita e Daryo Pereira e Antônio Carletto Sobrinho.

No meio do ano passado, uma crise sem precedentes atingiu a empresa. A Traffic perdeu os direitos da Copa América, dispensou boa parte dos seus olheiros, encerrou parcerias e demitiu o diretor-executivo Julio Mariz.

“Quando cheguei lá [em 2007], a Traffic tinha uns 40, 50 jogadores. Mas pelo menos 30 não valiam nada. Da mesma maneira que os empresários enganavam os clubes empurrando jogador ruim, enganaram a Traffic”, conta Carletto, que ficou pouco mais de um ano na empresa.

Miranda aponta outro pecado na derrocada do concorrente, embora admita sua relevância. “Houve, inegavelmente, um boom a partir da entrada da Traffic. Mas a empresa trabalhou demais com o ativo de terceiros, o que gera uma pressão por resultados que prejudica o negócio”, afirma.

Há dois momentos claros em que a Traffic teve dificuldade. A parceria com o Palmeiras, entre 2008 e 2009, fez a empresa ser criticada pelo enfraquecimento do time. As negociações de Henrique e Keirrison com o Barcelona, pouco menos de seis meses após eles chegarem, deixaram um lucro significativo no caixa da empresa, mas arranharam sua imagem.

A fracassada parceria para bancar parte do salário de Ronaldinho Gaúcho no Flamengo também foi trágica. A Traffic não conseguiu parcerias comerciais que cobrissem sua parte no acordo e o atraso decorrente serviu de base para que o jogador rompesse seu contrato. Sobrou um prejuízo superior a R$ 10 milhões.

“É o grande capital social que permite a um fundo fazer investimento e absorver prejuízo. Esse é o ponto do negócio. Um negócio de altíssimo rendimento, mas risco grande. Não tem fórmula quando o seu ativo é um ser humano”, diz Miranda.

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