
Há trinta anos o futebol brasileiro perdia seu mais singular e irreverente astro. Mané Garrincha, o Anjo das Pernas Tortas, a Alegria do Povo, foi derrotado pelo alcoolismo no dia 20 de janeiro de 1983. O ponta-direita que cultivava a bola como uma orquídea de luxo, como descrevia Nelson Rodrigues, faleceu vítima de cirrose hepática, único oponente que não conseguiu driblar.
Estivesse vivo hoje, Manoel Francisco dos Santos, nascido em 1933, seria quase um octogenário. O bicampeão mundial com a seleção brasileira nas Copas da Suécia (1958) e do Chile (1962) encantou o mundo com sua imprevisível previsibilidade. Ele foi o terror dos marcadores. Zombava dos zagueiros sem querer zombar. Tratava o Maracanã lotado como uma pelada em Pau Grande (RJ), sua cidade natal. Brincava de jogar bola.
"Ele era muito mais do que se podia pensar", lembra o ex-jogador Barcímio Sicupira, companheiro do camisa 7 no Botafogo entre 1964 e 1965. "Uma pessoa maravilhosa. Sujeito até meio irresponsável. Não tinha muita regra para ele. Ele mesmo fazia suas regras", conta ele, que mais tarde se tornou ídolo do Atlético.
Além das pernas tortas a direita era seis centímetros mais curta que a esquerda, ambas flexionadas para o lado esquerdo , Mané tinha algumas características que faziam dele um personagem único. Simples e brincalhão, levava para os gramados o mesmo menino que reza a lenda, apesar de exagerada entortou o já experiente Nílton Santos em um teste para ser contratado pelo Alvinegro. O clube viria a ser sua casa por treze anos.
"Ele tinha um arranque, uma velocidade curta assim, negócio louco. Se ele arrancasse com o Usain Bolt, nos 30 primeiros metros ele ganhava do cara", garante Sicupira.
A paixão e carinho que Garrincha despertava eram tamanhos que na partida de sua despedida, entre a seleção nacional e um combinado de estrangeiros, em 1973, o Maracanã recebeu 131.555 mil pagantes. "Mas deviam ter umas 150 mil pessoas lá, com certeza. E estavam 43 graus. Calor insuportável", descreve Eduardo Dreyer, zagueiro argentino que participou do amistoso.
Enquanto a medalha do Jogo da Gratidão segue guardada pelo ex-jogador do Coritiba, a renda integral daquela noite, de Cr$ 1.383.121,00 (cerca de R$ 140 mil atualizada sem correção), foi toda destinada a Mané. Dez anos antes de morrer ele já passava sérias dificuldades financeiras. E morreu pobre, sem dinheiro para pagar o próprio túmulo.
Garrincha foi assim. "A característica do brasileiro de verdade, um sujeito brincalhão, que gosta de tomar uma cachacinha e tudo mais, está muito mais identificada na figura do Garrincha do que em qualquer outro. Para o Garrincha o mundo tinha um furo nas calças", conclui o comerciante Arlindo Ventura, que tem um memorial do jogador em seu bar em Curitiba.




