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“Termino meu contrato em junho do ano que vem. Pode ser que eu volte, fique aqui, ou até vá para outro país da Ásia, pela repercussão do trabalho. Na hora certa, quero voltar para um time que me dê condições de ser campeão, já que não tenho nenhum título no Brasil” | Divulgação
“Termino meu contrato em junho do ano que vem. Pode ser que eu volte, fique aqui, ou até vá para outro país da Ásia, pela repercussão do trabalho. Na hora certa, quero voltar para um time que me dê condições de ser campeão, já que não tenho nenhum título no Brasil”| Foto: Divulgação

Depois de quase dois anos no exterior, Luiz Carlos Saroli voltou a ter seu nome comentado em seu estado natal. O cascavelense Caio Júnior, 45 anos, atual técnico do Al Gharafa, do Catar, frequentou a lista de profissionais que o Coritiba elaborou para substituir Ney Franco. As duas partes, porém, não chegaram a um acerto por causa de questões contratuais. Caio diz que nem sequer foi procurado. A especulação, no entanto, serviu para tirar o comandante do ocaso que aceitou graças aos petrodólares. O treinador conversou com a reportagem e se disse muito feliz e adaptado ao clima desértico de Doha. Lá, o ex-co­­mandante de Paraná, Palmei­­ras e Flamengo conquistou, na última temporada, os três primeiros títulos da carreira (Liga do Catar, Stars Cup do Catar e Copa do Sheik Tamim). Neste ano, levou o time às quartas de final da Liga dos Campeões da Ásia e ainda busca um inédito tetracampeonato nacional para o time amarelo e azul da capital.

Você deixou o futebol brasileiro no fim de 2008. Trocou o Fla­­mengo pelo futebol japonês. Seis meses depois, foi para o Al Gharafa. O que o levou a essa es­­colha?

Quando sai [do Brasil], realizei um sonho de carreira, que era de trabalhar no Ja­­pão. Tinha um contrato de três anos. Minha equipe [Vissel Kobe] era intermediária, não disputava títulos. Quan­­do fui, sabia disso, mas na prática a gente sente mais. Estava muito contente lá, pela qualidade de vida, cultura fora de série. Aí, no meio da temporada, veio a proposta do Gha­­rafa, que me­­xeu comigo. Comecei a buscar informações sobre o time, e to­­das elas indicavam a trocar de clube.

Teve que rompter contrato?

Romper o contrato foi a decisão mais difícil da minha carreira. Teve uma multa significante. Mas, depois que vim para cá, vi como foi importante essa decisão. Mudei para melhor. Estou em um clube de excelentes condições, uma equipe vencedora, com grupo forte. Dei sequência a um trabalho e estou administrando bem. Sofri uma pressão grande quando cheguei, já que não era conhecido, jovem, e ainda por cima pegando uma equipe bi­­campeã para dirigir.Venci três títulos, fui até as quartas de final na Copa da Ásia. O time nunca tinha nem passado da primeira fase.

Como é o nível técnico do futebol do Catar?

O campeonato é difícil. O nível técnico do meu time é alto, tanto que fomos até as quartas da Champions League Asiática jogando contra times fortes de todo o continente. Minha equipe disputaria a Pri­­meira Divisão brasileira. Temos o Araújo [ex-Goiás e Cruzeiro], o Juninho [Per­­nambucano], o capitão da seleção iraquiana, a defesa inteira é da seleção do Catar, além de vários africanos naturalizados. Não posso dizer o mesmo de outros times. A maioria é bem mais fraca.

Quais diferenças você aponta entre os países em que você já trabalhou?

No Brasil a vida de técnico é bem estressante, você não tem vida familiar, nem vida social normal. Isso gera problemas familiares no dia a dia e você tem que se adaptar. No Japão a vida é voltada ao trabalho. São muito rigorosos, mas não tem pressão de torcida. Tem co­­brança de planejamento, de organização. O comprometimento ao trabalho é fantástico e me identifiquei com isso. Em termos de vida familiar também é bom. No Catar é completamente diferente. A vida é mais tranquila, sem estresse. O clima influencia nisso. A cultura e o alto padrão de vida deixam as coisas mais sossegadas. No futebol também. O nível de treino é muito tranquilo, só uma vez ao dia, no fim da tarde. Isso abre tempo para ficar com a família, ter outra atividade durante o dia. Enfim, uma vida mais sadia. Mas aqui também tem pressão por resultado, com vários técnicos caindo durante o campeonato.

Você acha que o Catar tem es­­tru­­tura para organizar a Copa do Mundo de 2022? A escolha acontece no dia 2 de dezembro.

Não tenho dúvida de que vai ser [escolhido]. Acho que já está até meio definido. Pela estrutura, estádios fantásticos. Vai ter tempo para se preparar e dinheiro não falta aqui. Isso não é problema e, se eles querem, vão fazer. Por tudo isso não tem como a Fifa não escolher.

Você tem acompanhado o Pa­­raná?

Estou sempre acompanhando. Vejo o seguinte: o Paraná tem dificuldades financeiras por não ser do Clube dos 13. Vivi muito isso lá. É uma luta inglória, como dar soco em ponta de faca. Tem que ter a sorte de revelar jogadores e uma série de coisas tem que dar certo para subir, porque o dinheiro pesa muito. Estou sempre torcendo, tenho história no Paraná como treinador e jogador. Mas a queda para a Segunda Divisão foi decisiva para esse momento. De longe é difícil falar. Aquele mo­­mento histórico da Liber­­ta­­dores foi uma oportunidade de crescimento perdida. Nota da Redação: Em 2006, Caio Júnior comandou o Tricolor na melhor campanha da história do clube em Campeonatos Brasileiros e classificou o time à Copa Liber­­ta­­dores.

E Coritiba e Atlético?

O Coritiba para mim não é surpresa. O Ney [Franco] é um dos melhores treinadores do Brasil e infelizmente vão perdê-lo. O Mano [Me­­nezes] o escolheu a dedo [para o cargo de treinador do time sub-20 brasileiro e depois para auxiliar]. O Atlético contratou bem no meio do ano e isso foi decisivo para a boa campanha. Não é fácil [chegar à classificação], mas é preciso lutar até o fim.

E quais são os seus planos para o fu­­turo?

Termino meu contrato em junho do ano que vem. Nesse momento não sei o que vai acontecer. Pode ser que eu volte, fique aqui, ou até vá para outro país da Ásia, pela repercussão do trabalho. Nesse momento a experiência está sendo boa, então vou deixar as coisas acontecerem naturalmente e depois ver o que é melhor. Na hora certa, quero voltar para um time que me dê condições de ser campeão, já que não tenho nenhum título no Brasil.

Você tem vontade de trabalhar na Europa?

Sonho em trabalhar na Europa. Seria fantástico para mim. É me­­lhor, mais organizado. Diria que aqui existe dinheiro, mas não a projeção internacional e o nível de jogo que há nas ligas europeias.

O que mudou em você desde que se aventurou fora do Brasil?

Mudei em relação a não criar expectativas dentro do futebol. Não planejar a longo e médio prazo. Não existe isso.

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