Arte: Daniel Nardes / Gazeta do Povo
Arte: Daniel Nardes / Gazeta do Povo| Foto:

A retenção natural do consumo das famílias é, até aqui, um dos impactos mais evidentes da crise trazida pela pandemia do coronavírus no setor industrial do país. Dados recentes da Confederação Nacional da Indústria (CNI) revelam que 70% das indústrias brasileiras tiveram diminuição de faturamento e 53% afirmam que enfrentaram queda de produção no período mais crítico da crise.

A indústria do Paraná também registrou perdas significativas a partir do segundo trimestre do ano. De janeiro a março, a produção industrial do estado acumulava um crescimento de 2,5% da sua capacidade produtiva, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). “No entanto, a pandemia do coronavírus inverteu essa curva de crescimento”, afirma o economista Evanio Felippe, da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).

De abril a junho, a produção industrial do estado encolheu cerca de -5% segundo o economista. Outros impactos da pandemia, atrelados à retenção de consumo como a diminuição da renda, desemprego e a paralisação de atividades econômicas como medida de isolamento social, também afetaram a produção industrial no primeiro semestre do ano. Curiosamente, o segmento que mais alavancou o crescimento da indústria no ano passado foi o que teve perdas mais significativas com a crise.

“O setor automotivo – e toda a cadeia produtiva atrelada a ele de indústrias menores – foi o que mais sofreu os impactos da retenção de consumo neste período, principalmente em maio. Tempos de crise tendem a deixar o consumidor mais receoso, principalmente se o valor do bem é alto”, afirma Felippe.

O baixo desempenho do segmento foi um dos fatores que mais contribuíram para que o estado registrasse, no primeiro semestre, uma perda de -8,6% em comparação ao mesmo período do ano passado. Além da indústria automotiva, os demais segmentos paranaenses mais afetados pela crise foram o de bens de capital (máquinas e equipamentos); madeira; e bebidas, com perdas gradativas de abriu a junho.

Em paralelo, os ramos de petróleo; alimentação; papel e celulose; e metais (exceto máquinas e equipamentos) contribuíram para que o Paraná obtivesse um aumento de 5,2% na produção no mês de junho, em comparação a maio, de acordo com os últimos dados do IBGE. Embora modesto, o crescimento aponta para uma contenção ou estabilização da queda, segundo o economista.

“Das atividades acompanhas pelo IBGE, quatro atividades industriais estão crescendo e nove estão apresentando queda na produção acumulada no ano. Dessas nove atividades, oito apresentaram uma reversão da queda em junho. A produção industrial ainda está caindo, porém num percentual menor do que no mês anterior. O pico da retração parece ter ficado em maio, o que nos leva a crer numa possível estabilização da queda, algo que só poderemos confirmar no futuro, depois de avaliar como a pandemia vai se comportar daqui pra frente”, avalia Felippe.

Capacidade de inovar durante a crise

O engenheiro mecânico José Henrique Riffel foi um dos muitos empresários industriais do Paraná que sentiram na pele os impactos da pandemia a partir de março. À frente da Tecnind, empresa que, há 12 anos, desenvolve soluções de automação e máquinas especiais para indústria e comércio, ele viu seu negócio recuar no segundo trimestre. “A procura pelos nossos serviços foi diminuindo gradativamente. Contabilizamos uma redução de cerca de 60% de negócios nesses últimos meses”, afirma

No entanto, se a queda da produção afetou o caixa da empresa, ela também deu tempo para o engenheiro pesquisar novas soluções para o momento de crise. E foi aí que o empresário viu a oportunidade de desenvolver uma máquina para a produção de máscaras cirúrgicas em grande escala na tentativa de suprir uma demanda de mercado que não possui grandes fornecedores no Brasil.

“O escopo da nossa empresa sempre foi buscar soluções para as demandas específicas de nossos clientes, mas a pandemia abriu espaço para que pudéssemos desenvolver algo novo para preencher uma lacuna do mercado. Poucas empresas fornecem equipamentos para uma produção eficiente de máscaras em escala, com baixo custo e compatível com a realidade do mercado brasileiro”, diz Riffel.

Amparado por um programa de mentoria do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o empresário deu início à produção do equipamento no fim de abril deste ano e está concluindo, agora, a primeira fase do projeto. A expectativa é lançar o produto, depois de todos os testes, no fim deste ano.

Máquina para a produção em escala de máscaras desenvolvida pela Tecnind. Foto: Divulgação.
Máquina para a produção em escala de máscaras desenvolvida pela Tecnind. Foto: Divulgação.

Inovação exige investimento, conhecimento e agilidade

Uma das dificuldades encontradas por Riffel para desenvolver a máquina de produção de máscaras estava na tecnologia que seria empregada no produto. “Os maiores fornecedores deste tipo de equipamento são os chineses, que desenvolveram soluções possíveis para o objetivo que pretendemos alcançar, mas encontramos duas barreiras que inviabilizaram o negócio. O primeiro, o prazo de entrega muito longo e, o segundo, o alto valor da tecnologia empregada por eles”, revela.

A solução foi desenvolver formas compatíveis, com resultados semelhantes, mas com um custo mais condizente com o projeto, num curto espaço de tempo, para dar início à fabricação. “Tivemos de investir, além dos recursos financeiros próprios, tempo de estudo e pesquisa. Precisávamos aprender tudo o mais rapidamente possível para poder dar início à produção logo. O equipamento vai possibilitar a produção de máscaras com baixo custo, sem depender de terceiros, barateando o produto final”, afirma Riffel.

Caminhos da inovação

Investimento calculado, capacidade de perceber oportunidades e agilidade para se adaptar a novos contextos são alguns dos caminhos para a inovação, segundo Fabrício Lopes, gerente executivo de Tecnologia e Inovação do Sistema Fiep. “A inovação vem de uma necessidade muito forte, que faz as instituições trabalharem mais rápido para atingir seus objetivos de forma eficiente. Para isso, é preciso investimento, seja em pesquisa, seja em capital humano ou tecnológico”, afirma.

A busca por parcerias ou mentorias é outro fator importante para driblar momentos difíceis e se reinventar no mercado. “O atual cenário evidencia a importância da inovação. O empreendedor precisa entender que se ele não se inovar, seu negócio corre risco de seguir adiante. Para isso, além de investimento, é preciso buscar ajuda de entidades que entendam de inovação, criar formas de cooperação, desenvolver parcerias ou incrementar o capital humano das empresas”, pontua Lopes.

Importância da cooperação e parcerias

De acordo com Luiz André Ortiz, diretor geral da Renner Coatings, divisão do grupo Renner Herrmann S.A., especializada em tintas e revestimentos de alta performance para indústria, a inovação é a chave para seguir sempre avançando no mercado. “Sobreviver em um ambiente competitivo demanda desenvolver, adaptar ou combinar tecnologias para criar ou aprimorar produtos que permitam à empresa estar sempre à frente no mercado. Por isso, buscar soluções junto a parceiros é fundamental para criar inovações”, diz.

É por meio da cooperação com stratups e com o Instituto Senai de Inovação em Eletroquímica (ISI), de Curitiba, que a Renner Coatings está produzindo uma tinta especial com propriedades antivirais que poderá ajudar a combater a transmissão do coronavírus. A ideia surgiu depois do início da pandemia, adaptando soluções tecnológicas desenvolvidas para a indústria em um produto já existente, a tinta Higiene Total, com propriedades antibacterianas.

A base do novo produto, que está em fase de testes e tem a previsão de ser lançada no mercado brasileiro até o fim do ano, são nanopartículas de cobre e prata com o potencial de agir contra a disseminação do vírus. “Já lidávamos com esta tecnologia para outros fins dentro da nossa linha de pesquisa. Com a pandemia, direcionamos este conhecimento para um projeto que pode vir a beneficiar vários segmentos, de hospitais ao transporte público, por exemplo”, conta Ortiz.

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