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Inteligência artificial está sendo usada para aprimorar a prevenção, diagnóstico e o tratamento ao novo coronavírus.
Inteligência artificial está sendo usada para aprimorar a prevenção, diagnóstico e o tratamento ao novo coronavírus.| Foto: AFP

Foi tudo muito rápido. Nos primeiros dias de 2020, a China anunciou que uma pneumonia desconhecida havia vitimado várias pessoas na cidade de Wuhan. Logo, disseram se tratar de uma nova formação do coronavírus, que se alastrava rapidamente e poderia levar à morte. Passados quatro meses, o número de infectados no mundo todo se aproxima de 1,5 milhão e as mortes passam de 30 mil. Não há vacina e, por enquanto, a medida mais eficaz de prevenção, segundo as autoridades de saúde, é a higiene e o distanciamento social.

O pronunciamento oficial da Organização Mundial de Saúde (OMS), alertando para a descoberta da nova doença, ocorreu no dia 7 de janeiro. Uma semana antes, porém, no dia 31 de dezembro, o algoritmo de uma empresa canadense de tecnologia para saúde, a BlueDot, enviou um comunicado a organizações de saúde e companhias aéreas, alertando para que evitassem a região de Wuhan, que depois se confirmou como o centro da epidemia. Mais tarde, o sistema ainda conseguiu prever o caminho que seria seguido pelo vírus, indicando cidades como Tóquio, Seul e Bangkok como focos seguintes da doença.

Esse é um exemplo de ação para enfrentamento daquela que é a pior pandemia do século 21 a partir de uma nova e importante aliada: a inteligência artificial. Em vários países, empresas, pesquisadores e instituições têm se dedicado a buscar soluções a partir da tecnologia, seja para reforçar a prevenção, agilizar o diagnóstico, otimizar o atendimento aos pacientes, desacelerar o contágio e incrementar o tratamento.

Sediada em Curitiba, a startup Laura trabalha desde 2016 com inteligência artificial e tecnologia cognitiva na área de saúde, com soluções para identificação precoce dos riscos de deterioração clínica. Na segunda-feira (30) a empresa lançou a plataforma Laura PA Digital, voltada à triagem de pacientes com suspeita de coronavírus. A ferramenta consiste em uma triagem inicial online, na qual o usuário responde a uma série de perguntas, que vão orientar se ele deve ou não buscar atendimento médico. Caso o atendimento seja necessário, a plataforma indica o hospital, que, por sua vez, é notificado de que um caso suspeito está a caminho.

Médico infectologista e diretor médico da Laura, Hugo Morales explica que o objetivo da Laura é evitar uma das maiores preocupações com a pandemia, a sobrecarga do sistema de saúde. “A triagem online faz com que muita gente que não precisa de atendimento urgente fique em casa, evitando assim o risco de ser contaminado. Na outra ponta, a partir do momento que o hospital sabe que um paciente está a caminho, consegue fazer uma previsão da demanda e organizar melhor o atendimento”, explica.

De acordo com ele, a plataforma começou a ser planejada no início do ano, quando as notícias vindas da China alertavam para o forte risco da Covid-19 se espalhar rapidamente para outros países. “Tenho dez anos de experiência e passei pela pandemia do H1N1, em 2009. Entendendo o que aconteceu na China, depois na Itália, já era possível prever que o problema logo chegaria até nós. Assim que percebemos isso, mudamos o rumo do nosso leme para projetar de que maneira iríamos contribuir”, diz Morales. O primeiro hospital a implantar o PA Digital foi o A.C. Camargo, em São Paulo. A empresa negocia com pelo menos dez outros hospitais para que também utilizem a plataforma.

Análise e previsão

Uma das principais referências no Brasil em estudos relacionados à inteligência artificial é o Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação (ICMC) da Universidade de São Paulo (USP), em São Carlos. Em 2014, pesquisadores da instituição desenvolveram uma ferramenta chamada Websensors, que usa inteligência artificial para analisar eventos extraídos de textos de notícias, como informações sobre o que aconteceu, como, quando, onde e quem está envolvido. Agora, ela está sendo utilizada para coletar eventos relacionados ao coronavírus.

O objetivo é usar essas informações como conhecimento complementar para ser incorporado em modelos de previsão já existentes, como, por exemplo, a curva de contaminação da pandemia. “Quando olhamos para a evolução futura da curva de contaminação de uma doença e levamos em conta apenas dados sobre contágios que aconteceram no passado, temos uma visão limitada do problema. Se for possível enriquecer essa visão, adicionando à previsão informações extraídas de fontes confiáveis, acreditamos que poderemos incrementar nosso olhar e, quem sabe, construir modelos preditivos mais próximos da realidade”, explica Solange Rezende, uma das coordenadoras do projeto, ao lado do professor Ricardo Marcacini.

O conhecimento adicional obtido através do Websensors também é visto como importante no sentido de ajudar na identificação futura de iniciativas bem sucedidas e mal sucedidas no combate ao vírus, o que terá grande utilidade nas próximas epidemias a serem enfrentadas. “Isso acontece porque os computadores conseguem processar uma grande quantidade de informações e encontrar padrões no que aconteceu no passado e que poderá se repetir no futuro”, observa Marcacini.

Falta de dados é empecilho

Para o CEO da startup Laura, Cristian Rocha, são muitos os aspectos nos quais a inteligência artificial pode contribuir nesse momento de pandemia. Entre eles estão ajudar os governos a tomar decisões com base em simulações, que indicam as possibilidades de os números de casos aumentarem ou caírem, bem como municiar os centros de saúde com mais informações, otimizando assim a triagem, como faz a Laura PA Digital. “Ela pode ser usada também no descobrimento de novas drogas e de possíveis vacinas, simulando combinações que resultariam nesses produtos”, acrescenta.

Cristian vê avanços no uso da inteligência artificial no campo da saúde no Brasil, porém, aponta como empecilho a falta de dados mais completos. “A inteligência artificial trabalha em cima de dados, se não tivermos dados, não conseguimos trabalhar. Em muitos hospitais e no sistema de saúde, em geral, esses dados não são muito organizados. Hoje ainda se gasta muito tempo para buscar e organizar as informações. Estamos ainda na primeira onda, a da digitalização dos dados. Depois disso, será possível ter ações de mais impacto com a inteligência artificial.”

Conheça algumas iniciativas pelo mundo que estão usando a inteligência artificial para combater o coronavírus:

  • Sinais precoces

Desenvolvida por pesquisadores do Boston Children’s Hospital, a ferramenta HealthMap integra dados de pesquisas do Google, mídias sociais, postagens de blogs e salas de bate-papo para identificar sinais precoces de um surto e avaliar a reação da população.

  • Análise de tomografias

A startup chinesa Infervision treinou seu software para detectar problemas pulmonares nas tomografias computadorizadas, o que ajuda a identificar o coronavírus. Hospitais chineses usaram a tecnologia para analisar 32 mil casos suspeitos.

  • Varreduras rápidas

A DAMO Academy, braço de pesquisa da chinesa Alibaba, desenvolveu um sistema capaz de avaliar as varreduras de 300 a 400 tomografias necessárias para diagnosticar o coronavírus em 20 a 30 segundos, com até 96% de precisão.

  • Kits de testes

Modelo no combate ao coronavírus, a Coreia do Sul conseguiu distribuir rapidamente kits de testes com base na composição genética do vírus. Graças à inteligência artificial, a produção desses kits, que levariam até três meses, foi feita em algumas semanas.

  • Estudos para vacina

Na busca por vacinas e medicamentos contra a Covid-19, a DeepMind, subsidiária do Google, compartilhou previsões das estruturas de proteínas do vírus, geradas através de um sistema de IA. A chinesa Baidu também disponibilizou seu algoritmo com a mesma finalidade.

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