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cidades mais equitativas
Gil Peñalosa é fundador e presidente da organização canadense sem fins lucrativos 8 80 Cities.| Foto: Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

Antes da aplicação da tecnologia em cidades inteligentes, é preciso mudar o comportamento e o mindset dos cidadãos. Para Gil Peñalosa, fundador e presidente da organização canadense sem fins lucrativos 8 80 Cities e um dos principais palestrantes da 3ª edição do Smart City Expo Curitiba, as cidades precisam ser mais equitativas e sustentáveis, mas essa transformação só acontecerá quando os habitantes mudarem suas rotinas e repensarem seus modos de vida.

Em sua apresentação no evento, Peñalosa destacou como a pandemia de covid-19 “tornou visível o invisível”, evidenciando ainda mais as desigualdades e problemas sociais, mas também sinalizou mudanças positivas, como o ar mais limpo quando havia menos carros devido às restrições do isolamento. Ao mesmo tempo, a pandemia acelerou a transformação em cidades que não investiam em mudanças, alegando falta de verba, de informação ou de cultura.

“Temos que encarar a realidade: a imensa maioria das cidades não é sustentável, para não dizer que são medíocres. Precisamos criar cidades radicalmente diferentes. Hoje, vivemos a oportunidade trazida pela pandemia, forçando um cenário de mudanças que levaríamos décadas para implantar.”, diz Peñalosa.

Segundo Peñalosa, vivemos um momento de urgência, mas também de muitas oportunidades, no desenvolvimento de cidades mais inteligentes. A pandemia mudou a percepção que temos sobre qualidade de vida, meio ambiente e sustentabilidade, enquanto buscamos por um modelo de vida mais feliz e saudável. Durante o evento, o especialista conversou com o GazzConecta sobre os desafios e necessidades de transformação das cidades com soluções mais inteligentes, equitativas e sustentáveis.

Qual é o conceito de uma cidade equitativa?

Uma cidade equitativa é aquela em que todos os seus moradores têm os elementos necessários para poder ter sucesso no que desejam. Como há tanta desigualdade nas cidades latino-americanas, é necessário alcançar a equidade antes de pensar em igualdade.

Quando você sobrevoa a maioria das cidades, sabemos onde moram os ricos e onde moram os pobres, porque há muitas árvores e parques onde os ricos moram. E, naturalmente, todas as pessoas precisam de mais parques e árvores. Isso é sobre equidade: todos os cidadãos, incluindo pessoas com deficiência, minorias raciais ou étnicas, devem ter acesso a melhores condições de vida.

Em uma cidade equitativa, a tecnologia é acessível a todos os cidadãos. São cidades inteligentes onde a tecnologia é uma função das pessoas, e não o contrário, onde as pessoas precisam ajustar suas vidas à tecnologia. As pessoas são a espinha dorsal de tudo o que é feito.

Qual foi o impacto da covid-19 nas cidades? 

A pandemia da covid-19 tem sido terrível, mas serviu para tornar visível o invisível. Por exemplo, vimos moradores de rua dormindo nas ruas, parques, quando os hotéis estavam vazios e as cidades poderiam ter contratado muitos a baixo custo, um problema patrimonial que existia antes, mas se tornou mais visível. Quando os carros não podiam ser usados, em quase todas as cidades do mundo podíamos ver prédios, árvores, montanhas, etc., que antes estavam cobertos pela poluição. Vimos claramente o que devemos fazer se queremos que mais de 600 mil crianças não morram a cada ano por respirar ar poluído, e milhões mais não desenvolvam infecções pulmonares ao longo da vida.

Vimos também que o que eles diziam era impossível, tornou-se possível. As ciclovias, que em muitas cidades levaram 10, 20 anos para serem construídas por “falta de orçamento”, foram construídas em uma ou duas semanas. Faixas exclusivas para ônibus foram criadas em dias. Em algumas cidades como São Francisco, em 24 horas, campos de golfe públicos usados ​​por no máximo 20 pessoas por dia foram convertidas em parques públicos para milhares e milhares de pessoas.

No cenário mundial, as cidades estão preparadas para atender as pessoas de todas as idades?

Infelizmente, a maioria das cidades que foram construídas nos últimos 70 anos foram construídas pensando mais na mobilidade dos carros do que na felicidade das pessoas. Existem grupos de pessoas muito afetadas, como crianças de 0 a 4 anos, e todas as pessoas com deficiência física e/ou mental. Devemos parar de construir cidades como se todos os habitantes tivessem 30 anos e atletas, e fazer cidades para todos.

Precisamos de comunidades saudáveis dos 8 aos 80 anos. O nome 8 80 Cities traz justamente essa necessidade de inclusão de pessoas de todas as faixas etárias. É preciso praças e parques para vivermos em comunidade, com qualidade de vida, interação social e prática de esportes. E em todos os bairros da cidade, não apenas para os mais abastados. Pessoas vulneráveis não vivem em suas casas, que costumam ser muito reduzidas. Elas apenas dormem lá. Toda nossa vida é feita durante o dia, pela cidade.

De que forma o investimento em políticas públicas para atender aos cidadãos de todas as faixas etárias reflete na qualidade de vida da população em geral?

Devemos criar comunidades de 15 minutos, ou seja, ter todos os serviços básicos num raio de 2 quilômetros, que é a distância a pé que uma pessoa com bebê pode percorrer. Não é um adulto caminhando a 5 km/h ou pedalando a 20 km/h. São parques, bancos, calçadas de qualidade, travessias seguras, árvores, escolas, acesso ao transporte público, etc.

A mobilidade sustentável deve ser uma prioridade, segura; caminhar, andar de bicicleta, usar transporte público. Por exemplo, você deve ter árvores, com cobertura de pelo menos 30% em todos os bairros. As plataformas e calçadas devem ser planas, sem obstáculos, com bancos, árvores; nestes se constrói a igualdade, é o local de encontro, onde desenvolvemos o sentimento de pertença. Todo o espaço público deve ser de alta qualidade, escolas, bibliotecas, parques, etc, principalmente em bairros de baixa renda.

“Cidades devem ser pensadas para todos, não apenas para quem tem 30 anos.”

Gil Peñalosa, fundador e presidente da 8 80 Cities

Além disso, precisamos fomentar ainda mais as políticas de ciclovias, com redução da velocidade nas vias de automóveis. Bicicletas não segregam, não importa qual modelo você tem, diferente dos automóveis – é mais democrático e reduz o número de carros. Hoje, 1,3 milhão de pessoas morrem em acidentes de trânsito todos os anos. As smart cities devem resolver problemas como esse. Precisamos de ações e exemplos que inspirem outras cidades.

No Brasil, é possível elencar prioridades de trabalho nas cidades brasileiras para se atingir esse objetivo?

Parece-me que todos os investimentos devem ser feitos com base em seu benefício para a saúde pública, equidade e sustentabilidade. Por exemplo, é óbvio que o carro particular não é a solução para a mobilidade, não foi em nenhuma cidade do mundo e todos já o experimentaram. As cidades podem aprender umas com as outras, compartilhar soluções e formar parcerias. Mas é preciso comparar cidades com tamanho e renda similares e que compartilham dificuldades semelhantes.

Além disso, é preciso se certificar da usabilidade da tecnologia a ser implementada. O foco não pode ser em soluções que são interessantes, mas sim naquelas que são úteis. Além disso, no Brasil, assim como em todos os lugares do mundo, a prioridade deve ser dada aos cidadãos mais vulneráveis: crianças de 0 a 4 anos, todos os pobres, deficientes, pessoas de raças minoritárias e,  em alguns casos, mulheres. Mas primeiro temos que mudar a mentalidade da civilização; caso contrário, nada acontece.

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