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O futuro do mercado pet
O Brasil é hoje o segundo principal mercado de produtos pet no mundo.| Foto: Lum3n/Pexels

Que a pandemia impactou diretamente a maneira como as pessoas se relacionam e interagem entre si já é realidade conhecida. A mudança, porém, parece também afetar a maneira como as pessoas têm se relacionado com os próprios animais de estimação, o que, consequentemente, tornou o mercado pet brasileiro um universo repleto de oportunidades.

Segundo o Instituto Pet Brasil, os últimos anos foram cruciais para o desenvolvimento desse setor. Entre 2006 e 2019, o faturamento da indústria de produtos para animais de estimação saltou de R$ 3,3 bilhões para R$ 22,3 bilhões. Com a pandemia, o cenário é ainda mais próspero: o Brasil é hoje o segundo principal mercado de produtos pet no mundo, com 6,4% de participação global em vendas. Esse resultado representa um salto de duas posições frente àquele visto em 2019, quando o país ocupava a quarta posição. O setor também passa distante das perdas impostas pela pandemia a outras indústrias, e registrou ganhos no último ano. A projeção do Instituto é de um crescimento de 13,5% em relação a 2019, com faturamento próximo dos R$ 40 bilhões.

Márcio Waldman, proprietário da PetLove.
Márcio Waldman, proprietário da Petlove, que hoje é o principal petshop online do Brasil.| Divulgação

Nesse cenário, se sobressaem as empresas que aproveitam o bom momento do segmento pet para olhar também para os tutores. Um exemplo é a Petlove, criada em 1999 pelo médico veterinário Márcio Waldman, hoje o principal petshop online do Brasil. No portfólio estão mais de 13 mil produtos entre rações, remédios e brinquedos. Em 2011, a empresa recebeu o primeiro aporte para uma companhia do setor, capitaneada pelos fundos Tiger Global, Kaszek e do brasileiro Monashees. De lá para cá, a empresa cresceu mais de 200 vezes, de R$ 4 milhões faturados em 2011 para R$ 800 milhões projetados para 2021. Segundo o fundador, o segredo está na “visão multinível” e com foco em inovação. “Sempre tive a visão de que esse é um grande negócio, a percepção de que é um ecossistema”, conta Waldman.

O pioneirismo se manteve nos anos seguintes. Em 2013, a Petlove se tornou também o primeiro serviço de assinatura do mercado pet do país, no qual consumidores passaram a poder comprar rações, remédios e outros produtos de forma recorrente por um valor fixo. Esse foi, segundo Waldman, o ponto de virada para que a Petlove abandonasse a postura de e-commerce para uma plataforma on demand. “Percebi que, sem tecnologia, dificilmente meu negócio sobreviveria ao lado de gigantes como Petz e Cobasi”, conta.

A preocupação era pertinente. Com a consolidação do mercado pet, as gigantes, de fato, ainda mantêm o controle quase total do segmento. A Cobasi, por exemplo, sai na liderança com uma receita superior a R$ 1 bilhão em 2020. Mas, com a pandemia, a surpresa para a empresa também foi o aumento na representação das vendas online nesse total: mais de 20% de todo o faturamento veio dos canais digitais. Nesse sentido, é possível dizer que a tendência lançada pela Petlove há alguns anos se tornou a prática padrão, e algo a ser copiado até mesmo por redes estabelecidas do varejo nacional que antes focavam principalmente nas vendas físicas e na presença massiva de lojas em todo o país.

Novo momento

Com a pandemia, um novo marco se estabeleceu: o maior tempo em casa também fez disparar a compra de itens de bem-estar animal, tendo em vista o contexto de isolamento social e a proximidade com os animais de estimação. A tendência de considerar os animais como parte da família é muito clara, no Brasil e no mundo, e está baseada em fatores culturais, segundo Eduardo Yamashita, diretor de operações da Gouvêa Ecosystem, empresa de consultoria voltada ao varejo. “Detalhes como esses fazem com que o setor cresça e o tíquete-médio para gastos acompanhe a mesma curva”, disse.

Fora o desejo de digitalizar cada vez mais seus modelos de negócio, a Cobasi — que aqui representa os grandes players do setor — e a Petlove têm em comum a inclinação pelo mercado de fusões e aquisições. Em 2019, a Petlove comprou a VetSmart, de cuidados veterinários e, um ano depois, anunciou a aquisição da Vetus, uma plataforma de gestão para petshops, clínicas e hospitais veterinários. Já a Cobasi anunciou recentemente a compra da Pet Anjo, plataforma de cuidados animais.

As sinergias não param por aí. Além das aquisições, a combinação de operações passou a ser uma tendência indiscutível no segmento pet. Mais uma vez, Petlove exemplifica isso por meio da fusão com a DogHero, em 2020. Com isso, o e-commerce passou a incorporar os serviços de passeio, hospedagem e tutores de animais na plataforma.

Quem também decidiu aproveitar o bom momento do segmento foi a Porto Seguro, que comprou 13,5% de participação acionária na Petlove, criando assim a Porto.Pet, com seguros e planos de saúde veterinária. A compra está sob aprovação do Conselho Administrativo de Defesa Econômica.

Desempenho financeiro

Do lado do desempenho financeiro, as empresas pet também estão cada vez mais capitalizadas. Em 2020, a Petz abriu a primeira oferta pública de ações para uma empresa do setor, e a Petlove recebeu um aporte de R$ 250 milhões dos fundos SoftBank e L. Catterton. Já neste ano, a Cobasi recebeu um aporte de R$ 300 milhões da Kinea Private Equity, um dos principais fundos de capital privado do país.

Para Waldman, todas as recentes movimentações, incluindo a aposta da Petlove em adquirir empresas que oferecem serviços além da venda de produtos, servem como validação de que o mercado de fato se tornará um ecossistema em um futuro próximo. “Estamos no caminho certo, e tendo colaboração com diversos stakeholders ao invés de brigas e competição, mostramos isso”, diz.

Para onde vai o mercado pet?

Entre as principais oportunidades de mercado, Yamashita destaca a sofisticação na oferta de serviços, como cuidados veterinários, higiene, beleza e venda de acessórios, por exemplo. “O mercado continuará crescendo, mas a diversificação será uma realidade cada vez mais importante”, explica. “É muito claro que isso já está acontecendo, e vemos isso nos países desenvolvidos”, diz. A ausência de outras grandes empresas no setor também gera uma nova oportunidade: a criação de sistemas operacionais, plataformas e softwares que auxiliem os pequenos lojistas e pequenos centros veterinários — hoje grandes responsáveis pela movimentação do setor.

Esses sistemas podem ajudar na gestão financeira e de estoque e digitalização dos negócios, aumentando a produtividade e lucratividade de pequenos empreendimentos. Por outro lado, esses mesmos desenvolvedores podem oferecer suas tecnologias às gigantes que querem se modernizar a cada dia. A Petlove, por exemplo, é provedora de tecnologia para cerca de 5 mil veterinários, ONGs, petshops e hospitais no Brasil. Na prática, isso significa que esses parceiros podem criar, a partir da tecnologia da startup, seus próprios e-commerces em questão de minutos.

A maturação do mercado pet ainda tem um longo caminho a percorrer, segundo Yamashita. “Há muito espaço para a consolidação do setor”, diz. Parte dessa consolidação será possível graças aos três pilares estabelecidos nos últimos anos: diversificação, parcerias estratégicas e, é claro, o amor pelos animais.

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