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Open banking: saiba quais são os principais desafios
Open banking: saiba quais são os principais desafios| Foto: Bigstock

A chegada do open banking, que consiste na livre troca de informações financeiras entre diferentes instituições, pretende revolucionar o sistema financeiro do país. Mas ainda é cedo para dizer que os brasileiros estão totalmente prontos para tal disrupção. Uma pesquisa realizada pela fintech de open banking Quanto, em parceria com a gestora de investimentos Constellation, mostra que muitos usuários ainda têm certo medo de perder seus históricos financeiros com a chegada do novo sistema, e por isso, mantêm contas em diversos bancos ao mesmo tempo.

A pesquisa, que ouviu 2 mil pessoas em todo o país, mostra que 75% dos consumidores possuem contas em mais de um banco, e 70% já têm contas em ao menos uma fintech. O ponto de atenção, contudo, está no fato de que metade dos entrevistados afirmam nunca terem fechado uma conta em um banco tradicional, não por preferência, mas sim por insegurança.

Na lista de motivações para isso está o medo de perder o histórico financeiro, razão apontada por 62% dos entrevistados. Outras motivações são: não depender de um único banco (82%), o desejo de manter a conta tradicional (apesar de preferir as fintechs) para garantir locais para saques (70%) e assegurar que podem ir à uma agência se necessário (58%).

Medo de perder dados

O temor pela perda de dados é algo a ser superado com a chegada do open banking, que se baseia justamente na troca de informações financeiras entre bancos. Ainda assim, o medo se justifica pelo fato de que, hoje, as instituições financeiras não têm obrigação de compartilhar históricos de clientes com outras empresas caso o consumidor encerre sua conta, explica Ricardo Taveira, CEO da Quanto. “É compreensível que muitos brasileiros tenham resistência de encerrar sua conta para não perder seu histórico bancário – e esse ponto só reforça a importância do open banking”, diz.

O objetivo da Quanto é facilitar a transição de instituições financeiras para o novo contexto aberto, auxiliando na troca de dados bancários com segurança – a partir do momento em que o sistema estiver totalmente implementado. Parte da missão da fintech é também ajudar na democratização de informações e na superação de tal medo por parte dos consumidores. “O desafio, no momento, é explicar o que é o open banking em si para toda a população, esclarecer que os dados só serão compartilhados com consentimento e de uma forma segura’’, diz. “Uma vez ficando claro que o consumidor será dono dos próprios dados e poderá ter acesso a mais e melhores produtos financeiros, será mais fácil a adoção.”

Beabá do Open Banking

Aprovado em 2020 pelo Banco Central, o open banking tem sido implementado em quatro diferentes etapas, com previsão de conclusão até outubro deste ano. A primeira delas passou a operar no início de fevereiro. Já a segunda fase, na qual instituições financeiras poderão de fato começar a compartilhar informações pessoais de clientes entre si, está prevista para o dia 15 de julho.

Na prática, o open banking é um sistema que permite a troca de informações e que integra um compilado de dados em um único sistema, facilitando essas permutas entre diferentes instituições financeiras, sejam elas bancos, fintechs ou empresas de pagamentos. Tudo isso é feito a partir de uma única interface de programação (API), tecnologia que agora será compartilhada.

Na primeira fase, apenas grandes bancos se viram obrigados a aderir ao novo sistema e deixar públicas as informações sobre seus próprios produtos e taxas aos pares do setor. Na lista estão os bancos Bradesco, Itaú, Banco do Brasil, Santander, entre outros. A partir da adesão à segunda fase do sistema, essas instituições são obrigadas a compartilhar também os dados financeiros de clientes. O compartilhamento, vale dizer, será feito apenas se houver consentimento do consumidor.

Ricardo Taveira, CEO da empresa Quanto.
Ricardo Taveira, CEO da empresa Quanto.| Divulgação

"O desafio, no momento, é explicar o que é o open banking em si para toda a população"

RICARDO TAVEIRA, CEO da Quanto

Apesar de terem a opção de não aderir ao sistema de imediato, segundo Taveira, as fintechs e empresas de pagamento têm tanto a ganhar com isso quanto os grandes bancos. A prova está no exemplo da própria Quanto que, às vistas do avanço na implementação do novo sistema, atraiu investimentos do Itaú e Bradesco, os dois maiores bancos privados do país. As instituições deixaram as diferenças de lado para participar de uma rodada de captação de US$ 15 milhões na startup, junto dos fundos Kaszek Ventures e Coatu.

O que muda para o consumidor?

Uma das premissas do open banking é aumentar a autonomia do cliente em relação aos seus dados bancários. Isso significa que um consumidor terá liberdade para escolher com quantas e quais instituições financeiras e empresas deseja compartilhar suas informações. A proposta básica é aumentar não apenas a liberdade em relação aos dados, mas fazer crescer a eficiência do mercado financeiro de maneira geral. Afinal, com um maior poder de escolha, as instituições terão de ofertar melhores produtos para clientes – que agora têm acesso a um novo método para análise do que de fato é mais vantajoso para si.

“Com uma comparação simultânea de itens de diversos bancos, o que veremos nos próximos meses é uma melhoria, principalmente na oferta de produtos e serviços relacionados a crédito e financiamentos”, diz Bruno Samora, gerente de produtos, banking e fintech da Matera, empresa de tecnologia que oferece soluções de core banking, meios de pagamentos e gestão de riscos.

Com o novo sistema, uma pessoa poderá ter empréstimos de um banco, cartão de outro, investimentos em outro e assim por diante. O processo de autorização para o fornecimento de dados será muito similar ao feito com a chegada do meio de pagamento instantâneo PIX: não haverá um novo aplicativo a ser baixado, mas o usuário poderá autorizar e habilitar o novo sistema dentro dos aplicativos bancários que já possui, garantindo a praticidade.

Agenda das gigantes

As principais instituições financeiras do país já integram a primeira fase do open banking desde meados deste ano. No entanto, ainda é cedo para avaliar a competitividade entre elas. Já é possível afirmar, porém, que haverá um esforço adicional em desenvolvimento de produtos com maior personalização, especialmente entre os bancos tradicionais.

A pesquisa da Quanto mostra que 46% das pessoas que já fecharam contas em grandes bancos afirmam ter feito isso por conta das altas tarifas. “É hora de repensar a competitividade, nos melhores serviços e produtos no novo contexto de arquitetura aberta”, diz Samora, da Matera.

Se de um lado os grandes bancos tradicionais irão priorizar a melhoria na experiência do cliente – o que inclui abaixar as famosas taxas –, as fintechs devem escalar a qualidade do serviço para além dos menores custos ou isenção de taxas. “As fintechs vão precisar melhorar o leque de serviços e produtos. O desafio será fazer com que elas [fintechs] consigam chegar a todos aqueles que precisam acessá-las e ainda não o fazem. Mas, quando conseguirem, será uma grande disrupção”, afirma.

gazetadopovo

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