Tecnologia na saúde - Robô Laura
Empresa curitibana de tecnologia desenvolve inteligência artificial para a área da saúde.| Foto: Divulgação

Unir tecnologia à missão de salvar vidas é uma tarefa complicada, principalmente em um país com dimensões continentais e realidades socioeconômicas tão distintas como o Brasil. Mas foi com essa premissa que a startup Laura deu o primeiro passo ao digitalizar – e facilitar – o cuidado de pacientes em hospitais na região Sul do país.

Tudo começou em 2010, quando o empreendedor Jacson Fressatto perdeu a sua filha recém-nascida diagnosticada com sepse – termo clínico para infecções generalizadas potencialmente perigosas. A ausência de informações tornou impossível um diagnóstico antecipado. E foi nesse cenário que o empreendedor decidiu agir.

Em 2016, ele fundou a Laura, empresa curitibana de tecnologia que desenvolve inteligência artificial para a área da saúde. A empresa criou uma plataforma que auxilia médicos nos cuidados com pacientes em internação. O foco inicial da ajudante tecnológica, também carinhosamente apelidada de “Laura”, era indicar à equipe médica sobre possíveis casos de sepse dentro dos hospitais.

Jac Fressatto - Robô Laura
O empreendedor Jacson Fressatto desenvolveu a robô após perder sua filha recém- nascida diagnosticada com sepse.| Divulgação

Como um vírus do bem, a Laura se conecta aos prontuários eletrônicos e monitora os relatórios de saúde e informações clínicas de cada paciente e, ao identificar qualquer piora ou anormalidade, gera um alerta para a equipe médica. Nessa lógica de “machine learning”, ou aprendizado de máquina, a robô analisa mais de 90 variáveis.

Desde então, a Laura soma resultados positivos: entre outubro de 2016 e maio de 2020, foram 8,6 milhões de pessoas atendidas e 24 mil pessoas salvas — o equivalente a 18 vidas por dia que a robô ajudou a salvar.

Para os hospitais, o benefício da inteligência artificial também se resume em números: com a ajuda das métricas da Laura, a taxa de mortalidade é 25% menor, enquanto o tempo de internação de um paciente cai de 103 para 96 horas, segundo a empresa. “Desde o início, pensávamos em como democratizar o acesso à saúde por meio da tecnologia para mais pessoas, mantendo a mesma excelência do cuidado, mas olhando para a otimização dos custos”, diz Cristian Rocha, CEO da Startup Laura.

CEO da startup Laura.
Cristian Rocha, CEO da startup Laura. | Divulgação

Adaptação recorde

A pandemia também foi uma oportunidade para a empresa, que desenvolveu uma tecnologia especialmente voltada aos pacientes infectados pelo coronavírus, chamada de PA Digital. O serviço funciona como uma espécie de atendimento digital, no qual é possível informar à robô sobre o seu atual estado de saúde. A partir da primeira análise do quadro clínico, a tecnologia aconselha ou não o paciente a procurar atendimento médico.

O processo de triagem foi desenvolvido pela startup em apenas um mês e ajudou a salvar milhares de vidas ao evitar aglomerações e idas desnecessárias ao hospital, segundo Rocha. “O que fizemos foi encontrar uma maneira de usar a tecnologia da Laura para cuidar dos pacientes que também estão fora dos hospitais”, disse. Os procedimentos seguem parâmetros estabelecidos pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e Ministério da Saúde.

A tecnologia está em funcionamento em 25 instituições, entre prefeituras e hospitais, e atendeu mais de 111 mil pessoas nos últimos oito meses.  Sem o trabalho do PA Digital, o sistema de saúde teria de absorver cerca de 3 mil atendimentos diários a mais.

Tecnologia na saúde - Robô Laura
Entre outubro de 2016 e maio de 2020, a robô ajudou a salvar 18 vidas por dia.| Divulgação

Além disso, o novo braço da Laura ajudou a startup a expandir sua atuação para além do ambiente hospitalar – um adendo importante para reforçar a missão da empresa em democratizar o atendimento de qualidade. “O PA Digital reforça um conceito importante para nós, que é o do acompanhamento contínuo, ao monitorar aquele paciente por 14 dias de forma constante’’, explica o executivo.

A ideia é que, em um cenário pós- -covid, o PA digital possa ser usado por qualquer operadora de saúde ou clínica que trabalhe com atenção primária que deseje ter um recurso a mais ao usar algoritmos para facilitar o dia a dia da triagem.

O futuro da Laura também depende dos constantes investimentos em pesquisa. De acordo com Rocha, um dos grandes diferenciais da startup está na preocupação com a inserção de novas tecnologias e os testes, em tempo real, de novas métricas. O esforço científico incluiu a startup entre as cinco empresas do mundo com os melhores projetos de IA para a área da saúde. A premiação aconteceu durante uma conferência internacional organizada por instituições renomadas como Harvard e John Hopkins, em outubro do ano passado.

O próximo alvo é a expansão nacional, afirma Rocha. “Queremos ser reconhecidos não apenas como a melhor tecnologia de inteligência artificial para a saúde no Sul, mas sim em todo o Brasil”, disse. Alguns dos planos da Laura para o futuro só serão possíveis com uma injeção financeira. Segundo o CEO, essa realidade não está muito distante. “Já temos uma rodada de investimento em negociação com investidores que valorizam a jornada e a missão da Laura, e um aporte acontecerá em breve, e naturalmente”, conta.

Ao que tudo indica, a Laura não terá problemas com a entrada de capital. Com a transformação digital proporcionada pela pandemia, as startups focadas em soluções de inteligência artificial tiveram volume recorde aportado em 2020, com um total de US$ 365 milhões no ano, segundo levantamento da empresa de inovação aberta Distrito.

1 COMENTÁRIOSDeixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]