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Biomimética: por que o estudo da natureza é o futuro da construção civil
| Foto: Casey Horner/Unsplash.

Um revestimento antibacteriano inspirado na pele de tubarões. Ou um shopping no Zimbábue, que adotou para o seu sistema de circulação de ar o mesmo método aplicado na construção dos cupinzeiros. E que tal um futuro hotel na Bahia que, para solucionar o mesmo problema, resolveu observar como os castores montavam suas tocas?

Usar a natureza como inspiração para solucionar problemas é considerado uma das tendências mais fortes na área de construções inteligentes. O método tem nome e um mercado potencial dentro e fora do Brasil. É o que garante a especialista em biomimética Giane Brocco, uma das pioneiras a utilizar esta linha de raciocínio aplicada não só ao desenvolvimento de produtos e projetos, como também no aprimoramento de gestão, cultura e liderança empresarial.

Giane, que é fundadora do Instituto Brasileiro de Biomimética e da Amazu, uma consultoria na área de inovação consciente, foi a convidada de agosto na série de lives patrocinadas pelo Sebrae Paraná dentro do GazzConecta. Os vídeos que estão sendo transmitidos pelo Instagram @gazzconecta abordam as principais tendências em inovação nos mercados imobiliário e de construção civil.

Nesta sexta-feira (28), a CEO da Amazu citou alguns exemplos internacionais e nacionais na área, como é o caso do projeto (ainda não construído) do Votu Hotel na Bahia, criado pelo escritório GCP Arquitetura & Urbanismo com base em tocas de castores. Outro exemplo dado pela profissional foi o edifício EastGate, no Zimbábue, que dispensou o uso de ar condicionado projetando saídas de ar em chaminés, no mesmo estilo dos cupinzeiros.

“O laboratório de pesquisa e desenvolvimento da natureza é fantástico, gratuito e tem mais de 3,8 bilhões de anos de experiência em soluções que funcionam. Então por que não estamos fazendo perguntas sobre como a natureza resolveria problemas estruturais? Precisamos nos reconectar a esta sabedoria”, resume a especialista.

Trabalhando nos últimos dez anos com projetos de inovação consciente, Giane explica que existem hoje menos de 15 profissionais certificados em biomimética no Brasil, diploma que atualmente é concedido apenas pelo Instituto Biomimicry 3.8, nos Estados Unidos. “O primeiro passo para quem quer trabalhar com isso é se perguntar como a natureza solucionaria determinada questão. Por exemplo, que organismos armazenam água com máxima eficiência. O método é então traduzir essas estratégias biológicas para uma linguagem industrial. O apoio de um profissional da área pode entrar nesta fase, junto com uma metodologia ágil”, resume.

“Em alguns projetos de consultoria chegamos a levantar mais de 300 organismos naturais que podem responder a determinado problema e o mais interessante é saber que a maioria dessas soluções acabam resolvendo não aquele único obstáculo, mas uma série de problemas no mesmo projeto”, exemplifica.

Demanda social

Para além das grandes construções, edifícios públicos e conexões com cidades inteligentes, Giane pontua que é possível atender projetos menores, como residenciais, utilizando a mesma metodologia.

Neste caso, a biomimética passa pela escolha de materiais e revestimentos sustentáveis, bem como a associação com a bioarquitetura — um conceito que leva elementos naturais para dentro das casas e ambientes de convívio. “Durante este período de isolamento social, ficou claro que o que as pessoas mais estavam sentindo falta era do contato com a natureza. Colocar os pés na grama e areia. Então tornar esses ambientes mais biofílicos, mais amigos da vida, é sinônimo de pensar em construções inteligentes, aumentando não só o bem-estar das pessoas como a criatividade e a produtividade.

Para a empresária, o futuro das construções e das empresas está diretamente ligado ao exemplo que a natureza pode dar em relação a nova economia, já que o ambiente natural nos ensina conceitos como a colaboração, regeneração e sistemas circulares.

Para Giane, o próprio público consumidor já está exigindo das empresas responsabilidade social, financeira e ambiental nos projetos. “Desenvolver projetos usando o pensamento biomimético é uma forma de você agregar valor ao trabalho, porque você está usando a natureza como benchmark [termo em inglês para designar a busca dos melhores exemplos em gestão e processos]. O que sinto no mercado em geral é que as empresas gostam de falar de inovação, mas ainda possuem um pouco de medo de inovar", diz. "Então meu convite é para que as empresas se permitam ser pioneiras e ousadas em pensar algo realmente diferente. O Brasil tem tudo para ser referência nisso. Nós temos a Amazônia, quer lugar mais potente de aprendizado do que este? Precisamos nos apropriar positivamente desta inteligência”, finaliza.

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