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Cidades felizes? Smart City Session discute como elas contribuem para vida do cidadão
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“Sem pessoas não há cidade. A cidade é palco das relações humanas”. Foi com essa frase que Jonny Stica, assessor de mercado da Fomento Paraná, deu o pontapé inicial para o talk “Happy Cities: o papel das smart cities na felicidade e bem-estar dos cidadãos”.

A programação integrou o segundo dia do Smart City Session — evento 100% online que antecede o Smart City Expo Curitiba, edição brasileira do maior congresso de cidades inteligentes do mundo, adiado para 2021 por conta do coronavírus. Realizado nesta terça (8) e quarta-feira (9), o encontro reuniu dezenas de especialistas para debater temas relacionados a esta reflexão. O GazzConecta, media partner do evento, destaca abaixo os melhores momentos deste segundo e último dia de programação. Confira aqui os destaques do primeiro dia.

“A pandemia deu ainda mais importância para o tema felicidade e quando falamos em cidades felizes falamos de ações de macro e micro influência. Pode ser desde investimentos em capital social ou simplesmente reparos de uma praça em um pequeno bairro”, complementou Stica.

Cidades felizes são construídas coletivamente

A opinião dele também é compartilhada pela arquiteta e urbanista Ariadne dos Santos Daher. Segundo ela, a cidade onde vivemos é peça fundamental nesta busca pelo bem-estar. “A cidade é um cenário de encontro e para que ela nos faça feliz é preciso um esforço coletivo das instituições e das pessoas. É um somatório de necessidades”, explicou.

“São fatores fisiológicos, estruturais, de confiança nas instituições, de bem-estar social, de autoestima e também de realizações pessoais que fazem da cidade uma cidade feliz”, detalhou a arquiteta.

“A pandemia  do coronavírus trouxe uma grande dificuldade, já que para ser feliz por completo é preciso aglomerar. Então, de que forma podemos fazer a manutenção dos laços sociais? A tecnologia pode contribuir. Uma cidade mais inteligente é também mais feliz”, complementou Ariadne.

Gustavo Arns, idealizador do Congresso Internacional da Felicidade, complementou: “A felicidade é estudada multidisciplinarmente. Não é uma receita, mas uma somatória de fatores. Culturalmente, no Brasil, temos uma ideia americana da felicidade, ligada à diversão. A visão europeia diz mais sobre a qualidade vida. Já a visão oriental fala sobre a união do individual e coletivo”, salientou.

Já Guilherme Takeda, arquiteto e urbanista e organizador do Congresso da Arquitetura da Felicidade, falou como a arquitetura pode contribuir para essa plenitude. “O conceito de arquitetura humana é um dos caminhos para a felicidade, porque sem empatia ninguém é feliz. É preciso construir para as pessoas, espaços e cidades”, finalizou.

166 startups de cidades inteligentes, e mobilidade domina

Também neste segundo dia de Smart City Session a empresa de inovação aberta Distrito apresentou insights do seu primeiro estudo sobre startups de cidades inteligentes, que será divulgado na sexta-feira (11). O Smart City Distrito Report 2020, que tem apoio do GazzConecta, mapeou 166 startups ativas ligadas a essa área, separando-as em oito categorias que detalham o panorama deste nicho no Brasil.

A pesquisa aponta que a principal categoria, representando quase um terço do total, é a de mobilidade (32,5%) — que integra startups como 99 e tembici. Em seguida, seguem-se as categorias de infraestrutura urbana (12%) e soluções ecológicas (10,8%).

Além do cenário atual das startups no Brasil - que destrincha dados como perfil dos sócios, investimentos captados e cases de sucesso, o estudo também foca no futuro, apresentando quais as principais tendências tecnológicas do setor. Entre elas estão 5G, gestão de dados e sustentabilidade.

“O 5G é o grande viabilizador das tecnologias de cidades inteligentes porque vai aumentar sua capacidade de acesso e conteúdo. Para isso, elas precisam se antecipar, preparar a cidade e a legislação independente da disputa polarizada e política atual. As tecnologias de cidades inteligentes vão ser exponencializadas pelo 5G e a gente precisa estar preparado para isso”, pontua Luiz Gustavo Comeli, líder de corporate success na Distrito, que apresentou o report durante o evento.

Objetivos estratégicos para cidades inteligentes

Aprofundando o lançamento da Carta Brasileira de Cidades Inteligentes realizada na abertura do Smart City Sessions, o segundo dia do evento começou com uma mesa-redonda na qual um grupo de especialistas em smart cities debateu o legado do documento e como os oito objetivos estratégicos definidos na carta poderão servir como guia para os novos gestores municipais.

Entre as recomendações técnicas estão a criação de uma agenda pública de transformação digital sustentável; construção de respostas para problemas locais; promoção de educação e inclusão social; e estímulo de protagonismo comunitário. A carta, que é resultado do esforço conjunto de um grupo multidisciplinar de especialistas de todo o Brasil, estabelece também a colaboração entre governos e empresas privadas no fomento à novas tecnologias para cidades.

“A carta conseguiu abarcar em um único movimento as diferenças estruturais e culturais de cada cidade. Uma coisa é falarmos de Curitiba, outra de Joinville e outra de Maceió. São realidades diferentes e que precisam ser respeitadas. Então não adianta querer replicar um modelo de São Paulo, Londres ou Singapura em Curitiba, porque o DNA de cada cidade é diferente e este olhar criterioso e amoroso do que faz a diferença em cada município é o maior legado da carta”, pontuou a presidente da Agência Curitiba de Desenvolvimento, Cris Alessi. “Mais do que uma recomendação técnica, a carta é uma visão cuidadosa, humana e otimista do que é possível fazer em gestão pública”.

O papel da sociedade civil na construção dos objetivos estratégicos para cidades inteligentes também foi lembrado por Sarah Habersack, assessora técnica do projeto de cooperação técnica Brasil-Alemanha. “Quem pode implementar a carta? Estamos falando também de comunidades, ONGs e empresas privadas. Tentamos indicar dentro dos oito objetivos o papel de cada ator da sociedade, incluindo a cooperação em nível federativo. A implementação deve ser distribuída e descentralizada”, comentou a assessora. "É importante entender que isso tudo não precisa ser feito de uma única vez. Nosso convite é para que seja escolhida uma recomendação por vez, mas que ela seja trabalhada já olhando para os outros objetivos e como eles podem dialogar no futuro”.

Também participaram da mesa-redonda Roberto Marcelino, Osni Augusto Souza da Silva, Amanda Melchert e Laís Andrade Barbosa de Araújo.

O futuro é planejado

Quais as grandes dificuldades dos municípios para se tornarem inteligentes? “Mais do que tecnologia, que já é por si só um entrave, há a necessidade de recursos e estruturas. E por onde começar?”, indagou Daniella Abreu, secretária executiva de assuntos internacionais de Santa Catarina, no painel “Um cenário de reconstrução para o Brasil”.

A resposta, para Giancarlo Rocco, da agência de investimentos Invest Paraná, é um planejamento a longo prazo. “A ambição do bem comum depende disso. Vivemos uma certa miopia em relação ao coletivo, mas só com um planejamento orquestrado é que conseguimos tirar as ideias do papel”, declarou.

Como ações que refletem esse ponto de vista, Rocco citou ferramentas — como instrumentos normativos e políticas públicas — que vêm sendo adotadas e têm como objetivo principal a desburocratização de processos na busca do desenvolvimento. No âmbito regional, segundo ele, um exemplo é Programa Descomplica Rural, que busca trazer agilidade nos processos de licenciamento ambiental no campo; e o Descomplica Energia, que quer dar celeridade à abertura e adequação de empreendimentos no setor de energias renováveis.

Tiago Faierstein, da Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI), exemplificou o caminho para cidades inteligentes com o projeto Living Lab Usina de Itaipu. “É um laboratório em expansão onde são testados projetos inteligentes. Um ambiente 100% monitorado que mostra aos gestores como funcionam os projetos, em diversas áreas, e como eles podem dar certo”, disse. Funciona como uma vitrine para gestores. Já saíram da incubadora cases como o projeto de segurança da Ponte da Amizade, com o uso de câmeras com reconhecimento facial na fronteira entre Brasil e Paraguai; e o Bairro Vila A, primeiro bairro inteligente do país, em Foz do Iguaçu.

Vila A Inteligente, living lab em Foz do Iguaçu.
Vila A Inteligente, living lab em Foz do Iguaçu. | Caio Coronel

“Quando falamos de cidades inteligentes pensamos em três pilares essenciais: o primeiro deles é a difusão e o desenvolvimento de novas tecnologias, mas não só isso. É preciso política pública e engajamento da população para que tudo aconteça”, salientou.

Thiago Gonçalves Ledo, do departamento de gestão pública do BNDES, destacou programas nos quais a instituição vem apostando para fomentar a agenda de cidades inteligentes. Um deles é a Cartilha de Cidades, um guia para gestores municipais. “A resposta da pergunta 'por onde começar?' pode estar ali". O guia traz um passo a passo do que um gestor público pode fazer para estruturar com sucesso soluções de IoT (Internet das coisas).

Desastres naturais e resiliência

Mudanças climáticas, desastres naturais, concentração populacional em grandes centros urbanos e um alto crescimento da demanda por serviços públicos, como saneamento, transporte e saúde. Estes são só alguns dos desafios que as cidades precisarão enfrentar nas próximas décadas. Para preparar-se para este futuro próximo, especialistas em prevenção e gestão de crises apresentaram formas de tornar as cidades mais resilientes.

O chefe executivo de resiliência e operações do Centro de Operações Rio, Alexandre Goldfeld Cardeman, apresentou ferramentas utilizadas no centro de operações do Rio de Janeiro e frisou a importância da criação de equipes que possam agir de forma integrada na gestão urbana. “Quando você pensa em resiliência não pode ser focado apenas no clima ou na segurança ou nas questões de mobilidade. É preciso ter um centro multifuncional e um pensamento global. A chuva e os deslizamentos também impactam no trânsito, por exemplo. Então é preciso ter respostas rápidas para gerenciar estas crises e uma comunicação muito forte com a população, através de aplicativos georeferenciados”, explica.

Para o profissional, as próximas três décadas irão exigir das cidades brasileiras programas que atendam o crescimento da demanda por saneamento e uma queda na arrecadação municipal devido ao desemprego e redução generalizada das receitas. “Isto trará um grande desequilíbrio para os sistemas que tenderá ao caos, com um serviço público que estará esgotado e uma demanda crescente pelo atendimento público e a contenção dos efeitos das mudanças climáticas”, pontuou.

Também fizeram considerações dentro deste tema a pesquisadora do Instituto de Estudos Avançados do Programa Cidades Globais, Debora Sotto e o assessor técnico do Colegiado de Coordenadores de Proteção e Defesa Civil da Associação dos Municípios da Região da Foz do Rio Itajaí, José Luiz Ferreira de Abreu. Para os especialistas, está claro que para que as cidades tornem-se resilientes e inteligentes será preciso uma estratégia que passe pela criação de mais espaços verdes urbanos, o incentivo da economia circular e de emissão de baixo carbono, a promoção de coesão social e o envolvimento da comunidade nas gestões locais, bem como a promoção de serviços básicos de alta qualidade.

A transformação dos ciclos de energia nos ambientes urbanos

Biogás, energia solar e geração distribuída são recursos para baratear os custos e reduzir o impacto da geração de energia no meio ambiente. Janaina Pasqual, consultora da Organização das Nações Unidas para o Desenvolvimento Industrial (UNIDO), explica que o Brasil tem um enorme potencial na geração de energias alternativas como biogás, aquele gerado através da decomposição de matéria orgânica, que pode até ser utilizados como combustível para veículos.

“É possível substituir cerca de 75% da demanda de diesel com o gás natural e os projetos não são absurdamente caros. É uma fonte mais viável pois pode ser estocada e está disponível em qualquer ambiente”, explica Janaína.

A geração distribuída também pode ser uma alternativa para promover a sustentabilidade. Marlo Pscheidt, gerente comercial do Sistechne Intertechne Sistemas, mostra que métodos de geração de energia tradicionais — tais como hidrelétricas — ficam cada vez mais caros.

Para o especialista, a saída está na geração distribuída, com pequenas estações na casa dos cidadãos. “As energias fotovoltaicas se destacam pois têm custo de operação e manutenção baixo. Hoje no Brasil há 330 mil conexões ligadas à geração distribuída, mas este valor representa apenas 0,2% de todas as conexões no Brasil”, mostra Marlo.

O paradigma da mobilidade

As cidades começaram a crescer em torno da indústria. Rotina, deslocamento, organização das casas dos trabalhadores passaram a ser construídas a partir dos locais de trabalho. Segundo Daniela Swiatek, consultora do Índice de Mobilidade Corporativa, o mundo do trabalho influencia atividades urbanas, e por isso, as empresas têm responsabilidade sobre congestionamentos e superlotações nos transportes públicos das cidades.

Para a especialista, o único investimento público contundente em mobilidade foi a construção de espaços para a circulação de carros, os quais levam a um inchaço do sistema de transportes nos grandes centros. A pandemia mudou algumas perspectivas sobre a locomoção nas cidades, mas na visão de Daniela há muito além do teletrabalho que deve ser repensado.

“O Mundo do trabalho mudou em muitos sentidos principalmente em relação a produção, mas a forma de trabalhar está muito atrasada. O galpão industrial virou um prédio moderno, mas as pessoas continuam saindo da sua casa para o trabalho”, diz.

Esta visão é compartilhada por Douglas Tokuno, head da Waze Carpool para a América Latina. Com a queda na utilização das caronas que a plataforma oferece, a Waze redefiniu seu propósito de acordo com as mudanças na mobilidade impostas pela pandemia. "As pessoas que trabalham em bancos, indústrias, centros de saúde e shoppings estão circulando mais no Brasil. Estima-se que essa população corresponde a 35% de quem utiliza o transporte público. Nosso projeto agora é a operação com o Carpool para pessoas que precisam ir para o trabalho todos os dias”. A ideia da plataforma é oferecer mais viagens através de caronas em carros particulares nos horários em que mais os trabalhadores circulam como uma alternativa, ainda que compartilhada, ao transporte público.

O transporte coletivo se mostrou, até a pandemia, um grande aliado para evitar o caos nas vias das cidades. Roberto Cardoso, CEO da Scipopulis, apresenta dados que demonstram a eficiência do modal, tomando como exemplo São Paulo. Há 14 mil ônibus na capital paulista que transportam a metade da população, contra uma frota de 9 milhões de veículos. Segundo Roberto, uma frota de 150 mil ônibus comportaria confortavelmente todos os moradores da cidade.

Para promover um transporte coletivo confortável e eficiente o Citybus 2.0, spin-off do Grupo HP Transportes, desenvolveu um sistema de transporte coletivo sob demanda, através de um aplicativo com tarifas a partir de R$ 2,50. O sistema atua na região de Goiânia, conforme explica Laércio Galvão, diretor de negócios e inovação no Grupo HP.

“Quem vende deslocamento está enfrentando uma grande dificuldade, os sistemas do Brasil estão 70% em retração de utilização e o Citybus 2.0 cresceu. Buscamos uma mudança de paradigma do cenário de transporte público coletivo. Nós vimos que se não criássemos uma nova saída não iríamos sobreviver neste cenário”, relembra Laércio.

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