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Primeiro dia do Smart City Sessions contou com palestras de Ricky Ribeiro e Renato de Castro, apontando mudanças na mobilidade e no conceito de cidades inteligentes pós-pandemia.
Primeiro dia do Smart City Sessions contou com palestras de Ricky Ribeiro e Renato de Castro, apontando mudanças na mobilidade e no conceito de cidades inteligentes pós-pandemia.| Foto: Ryoji Iwata/Unsplash

O Smart City Session nasceu da pandemia. A edição brasileira do maior congresso de cidades inteligentes do mundo, o Smart City Expo Curitiba, que aconteceria em março deste ano, foi adiada para 2021 por conta do novo coronavírus. E, no calor de um ano tão conturbado, era impossível ignorar as mudanças que as cidades inteligentes passaram, pondo à prova sua resiliência e capacidade criativa para sobreviver às diversas crises que marcaram este ano. Foi desse contexto que a empresa organizadora do evento, o iCities, deu partida a uma edição extra e online do evento que falasse justamente sobre isso: as pequenas revoluções das smart cities em 2020.

Realizado nesta terça (8) e quarta-feira (9), o encontro reuniu neste primeiro dia dezenas de especialistas para debater temas relacionados a esta reflexão. O GazzConecta, media partner do evento, destaca abaixo os melhores momentos do dia.

A palestra do expert em cidades inteligentes Renato de Castro provou como é possível melhorar a qualidade de vida dos cidadãos aplicando o conceito de cidades inteligentes mesmo em comunidades pequenas. Foi o caso da cidade italiana em que mora, Rovolon, que tem apenas cinco mil habitantes. Ele liderou a criação de três diferentes iniciativas que auxiliaram a população a se adaptar à pandemia.

“O primeiro deles foi lançar vídeos ensinando receitas práticas como a produção de pão caseiro, e receitas étnicas. A segunda fase foi a alfabetização digital da população, já que boa parte dos cidadãos ainda faziam suas atividades de forma analógica. Lançamos tutoriais com passo a passo de uso no Facebook, feitos por um youtuber italiano que vive em Londres e também estava em lockdown. O alcance acabou sendo geograficamente maior do que esperávamos, o que revela o caráter mundial de algumas iniciativas locais”, relatou Castro.

O especialista elencou, ainda, três grandes legados para a cidades inteligentes com base na experiência vivida durante a pandemia: cidades-estado, hipertecnologia e localismo.

A primeira é a ideia de que os municípios, mesmo os médios e pequenos, passaram por um processo de empoderamento, tornando-se mais autossustentáveis. Esse maior protagonismo resulta em mais influência direta na qualidade de vida da sua população.

A segunda tendência, por sua vez, é um processo contínuo de adoção de tecnologia cada vez mais de ponta ligada ao cidadão, diretamente relacionadas ao seu dia a dia. É o caso, por exemplo, da catalisação da adoção dos e-commerces por lojas físicas, e todo o processo de transformação digital pelo qual o varejo passou ao longo do ano.

Por fim, o localismo é relativo ao foco cada vez maior em políticas locais. “O conceito das ‘cidades compactas’ ou ‘cidades de 15 minutos’, do pesquisador Carlos Moreno, da Universidade Paris 1 Panthéon Sorbonne, são aquelas que oferecem todos os serviços necessários para o dia a dia do cidadão a uma distância de 15 minutos a pé ou de bicicleta. A ideia é aplicar um planejamento policêntrico ao invés de um único centro da cidade, com mercados, restaurantes, parques, hospitais, escolas, espaços de trabalho e lazer", relata.

Movido pela mente

Outro destaque do dia foi a palestra de Ricky Ribeiro, fundador do portal Mobilize Brasil, da Associação Abaporu, e autor do livro “Movido Pela Mente”. Ricky, que foi diagnosticado aos 28 anos com esclerose lateral amiotrófica, perdeu gradativamente sua mobilidade. Hoje o especialista em cidades inteligente se comunica através de um computador que traduz seus movimentos óticos. Desde então, ele se dedica a pensar a promoção da mobilidade e sustentabilidade nas cidades.

Ribeiro iniciou com a reflexão sobre sobre como utilizamos a cidade e o cenário que a sociedade vivia antes da pandemia. “Muita gente morando junto (nos centros urbanos) acarreta problemas como congestionamento, saúde precária, falta de segurança. Parte desses problemas vem da mobilidade urbana que causa poluição, acidentes e doenças. Hoje falam em novo normal, mas o que tínhamos antes da pandemia não era normal”, questiona.

O palestrante relembra que os transportes contribuem para 80% das emissões de gases poluentes e que nas grandes cidades a poluição atmosférica é 90% maior, provocada em grande parte por veículos particulares. Esta poluição causa milhares de mortes todos os anos. Para Ricky, a saída para promover a sustentabilidade e reduzir impactos humanos no meio ambiente é promover soluções inteligentes nas cidades.

Entre as alternativas, está a utilização de sensores para otimizar e dar mais segurança para o trânsito, além de programar drones para realizar o monitoramento de vias públicas e promover a segurança com câmeras e painéis interativos. Outra ferramenta importante é a utilização de sensores de contagem e circulação de pessoas, que permite uma melhor tomada de decisões pelos gestores públicos, baseados na ciência de dados.

“Quem sabe para daqui 20 ou 30 anos sejam adotadas uma série de medidas inteligentes que melhoram a qualidade de vida da população. Podemos imaginar as margens do Rio Tietê e Pinheiros em São Paulo, convertidos em grandes passeios públicos e restaurantes, parques, praças, com deques de acesso às águas despoluídas, que por sua vez transportam barcos de passageiros e cargas. Com dezenas de pessoas de origens diversas circulando e convivendo com qualidade de vida”, prevê o especialista.

Carta Brasileira de Cidades Inteligentes

O dia contou também com a assinatura da Carta Brasileira de Cidades Inteligentes. O documento tem como base a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU), com objetivo de promover padrões de desenvolvimento urbano sustentável, baseado nos conceitos de cidades inteligentes.

A carta elenca oito objetivos estratégicos, entre eles uma agenda pública de transformação digital sustentável; construção de respostas para problemas locais; promoção de educação e inclusão social; e estímulo de protagonismo comunitário. A carta estabelece também a colaboração entre governos e empresas privadas no fomento à novas tecnologias para as cidades.

A carta foi lançada como um norte para que cidades de todo o Brasil possam realizar melhoramentos tecnológicos em serviços públicos. Construído a muitas mãos, segundo Beto Marcelino, sócio-diretor do ICities, a carta é um divisor de águas para o que se espera do futuro das cidades.

“Esse documento tão grandioso que envolveu especialistas de diversas áreas, doutores, gestores públicos e acadêmicos, é um grande marco e vai construir o futuro sobre tudo que esperamos das cidades brasileiras”, destaca. 

Ricard Zapatero, CEO da Fira Barcelona Internacional, concorda com a importância do documento e de Curitiba, para o ecossistema de cidades inteligentes. “Estamos apresentando o que vai ser um grande evento, que vai seguir mostrando como o Brasil e Curitiba se sensibilizam pelos projetos que melhoram a vida das pessoas. Especialmente a capital paranaense, que é um ponto chave para demonstrar ao mundo o bem que se pode fazer através da tecnologia”, afirma.

O ministro de Ciência e Tecnologia, Marcos Pontes, destacou que um país com cidades inteligentes pensa em serviços públicos que podem ser realizados de forma eficiente com a promoção da qualidade de vida aos cidadãos. Estes melhoramentos envolvem tecnologias de Internet das Coisas (IoT), sustentabilidade, segurança pública, gerenciamento de cidade e promoção de energias renováveis. “Meu sonho é que tenhamos todo país com características de cidades inteligentes, com segurança, rapidez de mobilidade e acesso rápido aos serviços”, completa.

Para o embaixador da Alemanha no Brasil, Heiko Thoms, a pandemia mostrou a importância do acesso digital e as possibilidades da comunicação para o trabalho que fortalece ainda mais a assinatura de um documento com tais diretrizes de digitalização. “A carta brasileira oferece uma visão ampla, inspiradora e responsável sobre como entendemos cidades inteligentes no Brasil. É um documento para que os municípios saibam como promover uma vida mais sustentável”, diz.

O lançamento também teve a presença do ministro do Desenvolvimento Regional, Rogério Marinho, enfatizando que as cidades precisam se apropriar de novas tecnologias.

Cidades mais humanas

Para além das tecnologias disruptivas, os especialistas que palestraram neste primeiro dia de evento ressaltaram que o atendimento das necessidades básicas humanas e a conexão entre as pessoas serão o futuro das cidades.

“Quando falávamos em smart cities, o que vinha na cabeça era o protagonismo de tecnologias como machine learning, inteligência artificial ou impressão 3D - o que parecia saído de um filme de ficção científica, apesar de já serem realidade em alguns lugares. Mas a pandemia forçou um equilíbrio nesta ideia, apontando que as necessidades básicas da nossa rotina também precisam ser abordadas pelas cidades inteligentes”, comentou a diretora do Diploma em Cidades Inteligentes da Escola de Governo, Política e Relações Internacionais da Universidade Austral, na Argentina, Lucía Bellocchio.

Para a especialista, a Covid-19 impactará na forma como usufruímos dos espaços públicos e no desenvolvimento das cidades. “A história nos mostra que todas as pandemias deixaram suas marcas nas cidades e eu acho que esta não será diferente em todas as áreas como mobilidade, qualidade de vida, governança, economia, meio ambiente e pessoas. Cabe a nós assimilarmos estes aprendizados para transformar nossas cidades em cidades realmente inteligentes”.

Bellochio dividiu um dos principais painéis da manhã com Paulo Mancio, vice-presidente da Accor América do Sul. Dando exemplos de como a rede hoteleira adaptou seu modelo de negócios para oferecer conexão, lazer e segurança para os hóspedes durante os últimos meses, Mancio reforçou o caráter de humanização dos negócios e das políticas públicas nos próximos anos.

“Dentro do conceito de smart cities uma série de coisas e tecnologias serão aprimoradas ao longo dos anos, mas uma coisa nunca vamos conseguir substituir que é o olhar para o ser humano. Eu acredito que as cidades inteligentes serão muito mais humanas, à medida que respeitarem a pluralidade, a equidade de gêneros e forem inclusivas e democráticas em suas soluções”.

Fechando o trio de especialistas em inovação e cidades inteligentes, a a head da PinÓ, núcleo de novos negócios da Gazeta do Povo do qual faz parte o GazzConecta, Andrea Sorgenfrei lembrou do papel da comunicação na construção de cidades mais humanas.

"Já estávamos vivendo esse grande desafio de ampliar nossas conexões e durante a pandemia isto avançou muito. As plataformas online nos ajudaram a ampliar esse processo de troca grande de conhecimento. Então, se é que podemos falar em um legado ou algum aspecto favorável de toda esta situação, é a conexão. Esta é para mim a palavra-chave do momento que vivemos. Seguramente vivemos um avanço de dez anos em dez meses nesta área", comentou.

Dados subterrâneos

E nem só de teoria vivem cidades inteligentes. O uso prático de tecnologias como ferramentas responsivas nas cidades também foi tema de um dos painéis da programação. um dos destaques foram as pesquisas realizadas no Senseable City Lab do MIT, referência mundial no design de novas tecnologias para cidades. O pesquisador Fábio Duarte, que integra a equipe, apresentou dois projetos realizados pelo grupo durante a pandemia de forma a exemplificar como usar dados de uma maneira responsiva nas cidades.

O primeiro comparou a diferença entre sons captados em parques localizados em diferentes metrópoles ao redor do globo. O estudo contrapôs captações do período já pandêmico, com menor circulação de pessoas, com vídeos de períodos pré-coronavírus, e comprovou que o silêncio nas grandes cidades aumentou. Menos barulho humano e mais sons da natureza foram identificados como uma nova paisagem sonora das cidades.

Outro estudo do grupo, batizado de Underworlds, criou robôs que adentram esgotos para captar dados que possam contribuir para uma melhor compreensão da saúde pública nas cidades. Isso acontece, por exemplo, através da detecção de bactérias e vírus presentes nesses espaços - tal como o novo coronavírus.

“Os dados só fazem sentido se tivermos uma pergunta interessante para fazer para eles, descobrindo aspectos inesperados de um problema”, pontua Duarte.

Smart City Session

O Smart City Session também acontece nesta quarta-feira, com outros destaques na programação. O evento tem opção de ingressos gratuitos e pagos, com acesso a salas de discussão com os palestrantes, através do site. Acesse a programação completa aqui.

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