Como você se sentiu com essa matéria?

  • Carregando...
A neuroengenheira Michele de Souza é fundadora e CEO da Cycor Cibernética.
A neuroengenheira Michele de Souza é fundadora e CEO da Cycor Cibernética.| Foto: Marcelo Andrade/Arquivo Gazeta do Povo

A neuroengenheira Michele de Souza tem um currículo pouco usual. Apesar de fazer parte de uma extensa parcela de empreendedores que investem em negócios próprios a partir de dores pessoais, Michele contabiliza formações e especializações em tecnologia, robótica e neuroengenharia pelas Universidades de São Paulo (USP), Fundação Getulio Vargas (FGV) e outras instituições renomadas como Harvard, Stanford e MIT.

Depois de uma carreira ligada à criação de tecnologias, Michele decidiu iniciar sua jornada como empreendedora ao criar a Cycor Cibernética, startup curitibana que desenvolve tecnologias acessíveis para pessoas com deficiência – e que fazem isso ao se integrar ao corpo humano. Michele é hoje CEO e diretora de pesquisa e desenvolvimento na empresa.

Entrar para o mundo dos negócios não foi tarefa fácil. Aos 13 anos, Michele foi diagnosticada com autismo leve. “De lá para cá tive de aprender, durante um longo processo, a dialogar e interagir de forma assertiva com diferentes públicos”, diz. A ideia para a criação da Cycor veio após o enfrentamento de um câncer ósseo por sua então esposa. Em meio a idas e vindas a hospitais, centros clínicos e outras partes indispensáveis da rotina para pessoas em tratamentos oncológicos, Michele viu ali uma oportunidade de desenvolver uma tecnologia capaz de melhorar a qualidade de vida de pessoas que passam pela mesma situação. “Vivenciamos de perto a história de quem convive com a doença, fizemos amizades no hospital. Isso abriu nossos olhos para o impacto profundo que a tecnologia poderia ter e entendi que meu conhecimento poderia fazer. Desde então, quis fazer parte da mudança”, contou Michele, em entrevista ao GazzConecta.

Na imagen, próteses eletrônicas.
Mão eletrônica e exoesqueleto criados pela Cycor.| Lucilia Guimarães/SMCS

Pouco tempo depois da morte da companheira, a empreendedora decidiu que a tecnologia ali criada também poderia impactar a vida de milhares de portadores de doenças crônicas ou graves. Em 2013, a Cycor, startup que viria a tirar essa intenção do papel, foi fundada. A proposta é criar tecnologias acessíveis para o tratamento de doenças e para uso em reabilitação. Na lista estão comorbidades como pneumonia e pessoas com limitações físicas, como cadeirantes, por exemplo.

À época, tudo indicava para uma grande oportunidade de mercado. Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que existem mais de 7 milhões de cadeirantes no Brasil, e cerca de 57,4 milhões de pessoas com doenças crônicas. O foco inicial foi para a área de saúde. Contudo, a Cycor acabou ganhando novas ramificações, e hoje, anos depois, passou a mirar na criação de tecnologias acessíveis em outros segmentos, como o controle de máquinas à distância, ao estilo dos filmes de ficção científica.

Tecnologia acessível

Na foto, a cientista com o exoesqueleto, a tecnologia auxilia pessoas com pouca mobilidade.
ExON, o exoesqueleto desenvolvido pela Cycor.| Iara Maggioni/Arquivo Gazeta do Povo

O carro-chefe da empresa hoje é o ExOn, um exoesqueleto que auxilia pessoas com mobilidade reduzida a realizar ações como levantar, andar e sentar. “O propósito é a busca pela autonomia, algo muito desejado e pouco possível para pessoas com deficiência”, afirma. O ExOn custa em torno de R$ 30 mil, enquanto o preço médio da tecnologia, obtida com uma análise de concorrência, é de R$ 800 mil. Outra estrela do portfólio é a MyoHand, uma mão biônica implantável capaz de auxiliar pessoas amputadas a recuperarem sua capacidade motora, vendida a R$ 4,9 mil – sete vezes mais barato do que o equipamento de uma empresa concorrente.

Segundo Michele, a justificativa para os produtos da Cycor serem até 80% mais baratos do que a média do mercado está na sede: capital intelectual e desenvolvimento totalmente nacionais. Parte dessa equação também está no chamado “crédito acessibilidade”, recurso disponibilizado pelo Governo Federal que permite a tomada de crédito em instituições financeiras para a compra de equipamentos que auxiliem o dia a dia de pessoas com deficiência de qualquer tipo. “Hoje, a minha predileção é pelo impacto. Pelas tecnologias para a população de baixa renda, proporcionando o acesso a uma qualidade de vida melhor”, afirma a empreendedora.

Na imagem, mão mecânica, tecnologia criada para ajudar pessoas que perderam o membro.
Mão robótica fabricada pela Cycor, licenciada para o IBEG (Instituto de Bioengenharia do Erasto Gaertner).| Facebook/Reprodução

Além dos produtos mecânicos, a Cycor tem também o Zeus, uma solução que identifica a frequência das ondas eletrônicas de certas doenças, sejam elas causadas por vírus, bactérias ou células cancerígenas. Na prática, a tecnologia funciona como um aparelho celular, explica Michele. “Toda bactéria ou vírus possui uma série de componentes que os fazem ‘funcionar’. A função do Zeus é encontrar o elemento causador da doença e ‘desligá-lo’”. Atualmente o Zeus está em fase de testes e deve estar acessível à população em breve, segundo a CEO. O foco inicial do produto serão pessoas com câncer pulmonar, pneumonia e tuberculose.

Hoje a Cycor vende produtos tanto para empresas quato para o consumidor final. Um exemplo está nas clínicas de fisioterapia, que podem comprar o esqueleto robótico da startup para o tratamento de pacientes, ou também para a comercialização. Um exemplo interessante, segundo Michele, está na busca de órgãos estaduais e municipais pelo exoesqueleto, que hoje domina as vendas da startup. “Já fomos procurados pela prefeitura de Patos de Minas, em Minas Gerais, para que nosso esqueleto fosse incorporado ao sistema público de saúde da cidade”, conta Michele.

A venda dos produtos para pessoas físicas, empresas e instituições governamentais não é a única premissa da Cycor, que também gera e comercializa dados para indústrias que desejam criar tecnologias, seja para uso industrial ou com foco no consumidor – o que faz da Cycor um laboratório experimental de inovações. Em outra ponta, a startup também licencia essas tecnologias.

Da incubação ao Tanque dos Tubarões

A Cycor estava em período de incubação na Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep) quando Michele levou o pitch da empresa ao programa televisivo Shark Tank Brasil. A proposta do programa é unir empreendedores e suas ideias de negócio a investidores qualificados, em troca de um investimento-anjo capaz de pivotar a ideia para o mercado. Em uma ação inédita, a Cycor reuniu todos os cinco “tubarões” em um investimento na startup que totalizou R$ 300 mil.

A ideia, a partir de agora, é mirar a internacionalização e a redução ainda maior dos preços dos equipamentos. “Com uma produção em larga escala, em breve os R$ 30 mil do ExOn vão ficar no passado”, diz. “Estamos às vésperas de reduzir esse preço em até R$ 5 mil”. Já são 62 clientes em processo de negociação, e que devem ter seu produto em mãos em um futuro próximo. Nos planos de Michele também está o início das operações do Instituto Cycor, braço filantrópico da startup que vem para facilitar a distribuição gratuita dos equipamentos. Todos esses planos já teriam saído do papel, não fosse a pandemia. “Agora estamos em um arranque de vendas e em um momento em que os investidores estão sendo bem ativos na empresa”, diz.

Se de um lado a pandemia atrasou algumas ações na startup, ela também serviu de alavanca para acelerar coisas que estavam previstas para o futuro, como a emissão de contratos com securitizadoras e até mesmo a definição de um modelo de atuação digital. “Estamos muito mais preparados agora, com essa velocidade que tomamos”, conclui a cientista.

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]