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Hidrelétricas modernas conciliam geração de energia e preservação ambiental

Pequenas centrais hidrelétricas avançam em tecnologia, recuperação ambiental e segurança energética no Brasil

A PCH Paranatinga, em Mato Grosso, é a terceira pequena central hidrelétrica do Brasil a atender aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU.
A PCH Paranatinga, em Mato Grosso, é a terceira pequena central hidrelétrica do Brasil a atender aos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU. (Foto: Divulgação)

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Durante décadas, parte do debate público sobre energia hidrelétrica no Brasil ficou associada à imagem de grandes reservatórios, extensas áreas alagadas e impactos ambientais de larga escala. Mas a evolução tecnológica do setor e o crescimento das Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) e Centrais Geradoras Hidrelétricas (CGHs) vêm mudando esse cenário.

Hoje, as hidrelétricas modernas operam com estruturas mais compactas, reservatórios reduzidos e sistemas mais eficientes, conciliando geração renovável, estabilidade do sistema elétrico e preservação ambiental.

Ao mesmo tempo em que o país amplia o debate sobre transição energética, cresce também a discussão sobre segurança do fornecimento, confiabilidade da matriz elétrica e sustentabilidade de longo prazo das diferentes fontes de geração.

Nesse contexto, as PCHs e CGHs passaram a ocupar papel estratégico no sistema energético brasileiro.

Usinas a fio d’água reduzem impactos ambientais

Um dos principais avanços tecnológicos das pequenas hidrelétricas está no modelo conhecido como “fio d’água”, no qual a geração ocorre com reservatórios significativamente menores em comparação às grandes usinas tradicionais.

Esse formato reduz áreas alagadas, minimiza alterações ambientais e diminui impactos sobre ecossistemas e comunidades do entorno.

Nas PCHs e CGHs, essa configuração tornou-se predominante nos projetos desenvolvidos nas últimas décadas. Como a geração acompanha mais diretamente a vazão natural dos rios, os empreendimentos demandam menor área de inundação e tendem a provocar intervenções mais localizadas na paisagem.

Além da redução da área ocupada pelos reservatórios, os projetos atuais incorporam soluções de engenharia e exigências ambientais que buscam compatibilizar a produção de energia com a conservação dos recursos hídricos. O resultado é um modelo de geração renovável que mantém a capacidade de contribuir para a segurança energética do país ao mesmo tempo em que responde às exigências ambientais cada vez mais rigorosas do processo de licenciamento.

Para Gleyse Gulin, diretora de Assuntos Ambientais da Associação Brasileira de Pequenas Centrais Hidrelétricas e Centrais Geradoras Hidrelétricas (ABRAPCH), muitas percepções negativas ainda estão associadas a modelos antigos de grandes empreendimentos hidrelétricos construídos no século passado, realidade bastante diferente das atuais PCHs e CGHs.

De acordo com a regulamentação da Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL), as PCHs possuem potência entre 5 MW e 30 MW e reservatórios inferiores a 13 km², reduzindo significativamente os impactos ambientais quando comparadas aos grandes empreendimentos hidrelétricos.

Reservatórios menores ampliam a viabilidade ambiental

A adoção de reservatórios menores e modelos operacionais mais eficientes tornou-se uma das principais características das pequenas hidrelétricas brasileiras.

Esse formato reduz áreas inundadas, simplifica processos de implantação e contribui para minimizar interferências sobre os ecossistemas locais.

Segundo especialistas do setor, o modelo representa uma alternativa capaz de conciliar expansão da geração renovável com menores impactos ambientais, especialmente em um cenário de crescente necessidade de diversificação da matriz energética nacional.

Reservatórios de pequeno porte e monitoramento ambiental permanente integram o modelo adotado pelas atuais PCHs e CGHs.Reservatórios de pequeno porte e monitoramento ambiental permanente integram o modelo adotado pelas atuais PCHs e CGHs. (Foto: Divulgação)

Ao mesmo tempo, o licenciamento ambiental passou a incorporar mecanismos cada vez mais robustos de monitoramento da qualidade da água, recuperação vegetal, proteção da fauna e acompanhamento das áreas de preservação permanente.

Everton Souza, secretário de Estado do Desenvolvimento Sustentável do Paraná — pasta responsável pelas políticas ambientais e de recursos hídricos do estado —, ressalta que a implantação de PCHs e CGHs exige análises detalhadas sobre comportamento hídrico, biodiversidade e preservação das áreas ambientalmente sensíveis.

“O aproveitamento do potencial hidrelétrico precisa ocorrer mediante projetos sustentáveis. São empreendimentos complexos, que exigem preocupação ambiental desde a supressão vegetal até o monitoramento da fauna e da flora.”

Everton Souza, secretário de Estado do Desenvolvimento Sustentável do Paraná.

Vida útil longa amplia sustentabilidade técnica

Outro ponto que ganhou relevância no debate energético é a análise do ciclo completo das fontes de geração.

Enquanto parte da discussão costuma se concentrar apenas nas emissões durante a operação das usinas, especialistas defendem que fatores como vida útil, necessidade de backup energético, descarte de equipamentos e estabilidade operacional também precisam ser considerados.

Na avaliação de Gleyse Gulin, o debate sobre sustentabilidade energética ainda analisa algumas fontes de forma desigual, sem considerar impactos ao longo de todo o ciclo de implantação e operação.

“As pequenas hidrelétricas se destacam pela longa vida útil operacional e pela capacidade de fornecer energia firme e previsível ao sistema elétrico nacional.”

Gleyse Gulin, diretora de Assuntos Ambientais da ABRAPCH.

Segundo a ABRAPCH, o Brasil possui atualmente cerca de 430 PCHs e CGHs em operação, responsáveis por mais de 6 mil MW de potência instalada.

Além da estabilidade energética, a entidade destaca que as pequenas hidrelétricas possuem baixa intensidade de carbono, estimada em 4 gCO₂eq/kWh, índice inferior ao de outras fontes renováveis analisadas em estudos internacionais.

Recuperação ambiental passou a integrar os projetos

Além da geração de energia, pequenas hidrelétricas passaram a incorporar iniciativas permanentes de recuperação ambiental e preservação de áreas no entorno dos empreendimentos.

Segundo Gleyse Gulin, mais de 70% do perímetro médio das áreas de PCHs e CGHs é formado por Áreas de Preservação Permanente (APPs), muitas vezes recuperadas pelos próprios empreendedores.

No Paraná, estudos do Instituto Água e Terra (IAT/PR) apontam que as pequenas hidrelétricas plantaram quatro vezes mais florestas do que a área necessária para implantação dos empreendimentos.

O secretário Everton Souza reforça que a compensação ambiental se tornou parte central do processo de licenciamento dos empreendimentos hidrelétricos.

“Hoje podemos afirmar que o percentual de compensação decorrente das supressões vegetais nesses empreendimentos é praticamente de um para quatro. Ou seja, para cada hectare suprimido, pelo menos quatro hectares passam por recuperação ambiental”, destaca.

Segundo ele, além do plantio compensatório, os empreendedores precisam acompanhar continuamente a recomposição florestal e executar medidas permanentes de conservação e monitoramento ambiental.

“Todas as supressões decorrentes dos empreendimentos de geração hidrelétrica são acompanhadas por áreas de compensação. A recuperação dessas áreas exige acompanhamento técnico e manejo adequado para garantir a efetividade dos resultados ambientais”, afirma.

Além disso, as estruturas dessas usinas também auxiliam na proteção das margens dos rios contra erosão e permitem usos complementares da água, como irrigação, piscicultura, abastecimento e lazer.

Segurança energética exige equilíbrio entre as fontes

O avanço de fontes renováveis intermitentes, como solar e eólica, ampliou o debate sobre previsibilidade e estabilidade do sistema elétrico brasileiro.

A ABRAPCH avalia que a transição energética sustentável depende não apenas da expansão de fontes renováveis, mas também da capacidade de manter equilíbrio operacional e segurança energética.

Isso porque fontes intermitentes dependem de suporte do sistema em momentos de baixa geração — cenário em que as hidrelétricas exercem papel estratégico ao oferecer resposta rápida, previsibilidade e estabilidade operacional.

Para Everton Souza, o avanço das hidrelétricas modernas exige justamente esse equilíbrio entre desenvolvimento energético e responsabilidade ambiental.

“A desburocratização do licenciamento não pode reduzir o rigor técnico. O desafio é garantir segurança ambiental ao mesmo tempo em que aproveita o potencial energético de forma sustentável”, afirma.

Na avaliação da ABRAPCH, o futuro da matriz elétrica brasileira passa pela combinação entre diferentes fontes renováveis, associando expansão energética, confiabilidade do sistema e sustentabilidade ambiental.

Com evolução tecnológica, reservatórios menores e recuperação ambiental incorporada aos projetos, as pequenas hidrelétricas vêm consolidando espaço como parte importante da matriz energética brasileira, conciliando geração renovável, sustentabilidade técnica e segurança do sistema elétrico nacional.

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