Carolina foi influenciada pelas filhas, Bruna e Camila, a adotar um novo estilo de alimentação.
Carolina foi influenciada pelas filhas, Bruna e Camila, a adotar um novo estilo de alimentação.| Foto: Arquivo pessoal

No Brasil, 14% da população se declara vegetariana, de acordo com uma pesquisa do IBOPE Inteligência realizada em 2018. Em algumas regiões metropolitanas, como é o caso de Curitiba, São Paulo, Rio de Janeiro e Recife, esse porcentual aumenta para 16%. Ou seja, só na capital paranaense são cerca de 320 mil pessoas que não consomem carne, praticamente uma cidade do tamanho de Ponta Grossa, que tem aproximadamente 360 mil habitantes.

Na casa da curitibana Carolina de Paula Soares Paiva Ferreti, 54 anos, a proporção é bem maior, chega a 75%. Lá, das quatro pessoas da família, só sobrou um carnívoro: o marido André Rocha Ferreti, de 50 anos. Não há, no Brasil, pesquisa específica sobre o número de veganos.

A mudança nos hábitos alimentares da família começou em 2017, quando uma grande operação deflagrada pela Polícia Federal desmantelou um esquema envolvendo frigoríficos de todo o país e chamou a atenção para o modelo de produção da carne. Na época, Carolina foi em busca de mais informações e acabou tendo acesso a conteúdos audiovisuais que mudaram o destino da família.

Ao ver as produções que mostravam os impactos dos frigoríficos e experimentos em animais, Bruna Paiva Ferreti, hoje com 17 anos, foi a primeira das filhas a decidir que não iria mais ingerir carne animal. Adepta do vegetarianismo, ela fez da rotina da mãe um grande desafio para continuar se desenvolvendo de forma saudável e sem perder nutrientes importantes para a fase da vida, já que estava em plena adolescência.

“Eu a levei em vários pediatras e não teve jeito. Ela se negava a comer carne. Então, eu entendi e fui atrás das melhores opções. Claro que ela teve que experimentar e se adaptar aos novos tipos de alimentos. Exatamente um ano depois, acabou decidindo que iria ser vegana. Fui relutante no início, por ela fazer ballet, ter vida de atleta. Mas, não teve jeito”, relatou Carolina.

Ainda não existem pesquisas específicas sobre o número de veganos no Brasil, eles são contabilizados entre os vegetarianos. Porém, diferente do vegetarianismo, o veganismo é considerado uma forma mais restrita de consumo, chegando a ser considerado um estilo de vida.

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As diversas tribos que presenteiam Curitiba em seus 329 anos.

Segundo a Sociedade Vegetariana Brasileira, o vegano “busca excluir, na medida do possível e praticável, todas as formas de exploração e crueldade contra os animais – seja na alimentação, no vestuário ou em outras esferas do consumo”. Ou seja, nem mesmo leite, ovos, mel e queijos – ingredientes previstos na dieta vegetariana – se encaixam no estilo de vida vegano.

Em 2019, foi a vez da filha mais nova, Camila Paiva Ferreti, 14 anos, assumir esse novo estilo de vida. Com isso, Carolina mergulhou ainda mais nesse mundo e se integrou aos vegetarianos. Mas, para sorte delas, Curitiba é uma cidade que, além de abraçar esse conceito, vem ganhando novos restaurantes e empreendimentos para atender a esse público.

“Existem várias possibilidades. Tem pizzaria, hamburgueria e até hot dog. Além disso, os restaurantes têm se preocupado em incluir no cardápio opções para quem não come carne e derivados”, explica a mãe das meninas.

ESTILO DE VIDA

O professor de Nutrição do UniCuritiba Jhonathan Raphael Andrade, explica que essa mudança de hábitos entre a população não é notada apenas em Curitiba, mas tem caráter global e está relacionado ao modo de vida no planeta. “A opção pelo veganismo, por exemplo, é uma decisão muito individual. Pode ter caráter religioso, ambiental ou mesmo sobre a exploração do animal”, explica Andrade, que é mestre em Alimentação e Nutrição.

Segundo ele, na questão do veganismo, a mudança de hábitos transcende a alimentação e se estende para todo o modo de vida da pessoa, como vestuário, maquiagem e qualquer outro produto de origem animal. “A ideia é não ter nenhuma forma de exploração animal”, comenta.

No aspecto nutricional, Andrade destaca que “a proteína de origem vegetal é tão suficiente quanto a animal. Mas quando a pessoa é vegetariana ou vegana estrita desde criança, é necessário fazer uma suplementação vitamínica e avaliar o consumo dos micronutrientes”, reforça.

Foi identificando essa necessidade crescente que o chef de cozinha, Alex Manzoni, criou a sua própria empresa de marmitas veganas e vegetarianas. Para ele, o conceito e o estilo de vida de veganos e vegetarianos têm aumentado cada vez mais na capital paranaense. “Eu ouvia muito meus amigos e conhecidos pedindo por opções assim. E o curioso é que cerca de 70% da clientela é composta por gente que come carne, mas que prefere uma alimentação mais nutritiva e ‘limpa’ durante a semana”, observa.

Na sua cartela de clientes, estão centenas de pessoas que recebem mais de 20 combinações de pratos veganos ou vegetarianos durante o mês. O consumo tem aumentado, segundo ele, à medida que as pessoas enxergam que o prato não é mais um “macarrão com tomate” e que realmente é possível compor refeições com todos os nutrientes necessários para uma boa alimentação, mas sem produtos de origem animal.

SOBREMESA

O Guanaco Mercado Saudável tem seis opções de ovos chocolates veganos para a Páscoa.
O Guanaco Mercado Saudável tem seis opções de ovos chocolates veganos para a Páscoa.| Divulgação

E quem pensa que a alimentação vegetariana ou vegana está associada a uma dieta sem graça, precisa atualizar seus conceitos com urgência. Além de uma infinidade de cardápios diferenciados adaptados a esse público – que vai da gastronomia italiana à tailandesa – há também diversas opções para quem não abre mão da sobremesa.

Tortas, bolos, cafés e, claro, os chocolates veganos que não podem faltar no período de Páscoa e todos os anos ganham mais adeptos na cesta do coelho. Este ano, Lílian Lago e Ricardo Tonsig, do Guanaco Mercado Saudável, estão oferecendo seis tipos de opções de ovos de chocolates para os consumidores interessados nesses produtos, entre brancos e pretos 50% e 70% cacau.

Segundo eles, esse mercado está em franca expansão e o perfil do consumidor não é formado exclusivamente por quem tem restrições alimentares. Entre os clientes da loja, inaugurada no final do ano passado no bairro Ahú, além dos veganos e vegetarianos, estão pessoas diabéticas e com algum tipo de intolerância alimentar a produtos de origem animal. Ao todo, entre alimentos a granel, produtos de empório, suplementos e vitaminas são 1.155 opções.