
La Violetera completa 98 anos: a trajetória de empreendedorismo e tradição familiar que começou em Curitiba
Fundada por um imigrante libanês em 1928, empresa paranaense atravessou gerações, ampliou sua presença no mercado nacional e mostra como preservar um legado pode caminhar junto com a inovação
15/10/2026 às 08:24

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A longevidade de uma empresa não se explica apenas pelo tempo em que permanece no mercado. Ao longo de décadas, mudanças econômicas, transformações no comportamento dos consumidores e a chegada de novas gerações exigem que os negócios encontrem formas de se adaptar sem perder aquilo que os tornou relevantes.
Para empresas familiares, esse desafio envolve ainda outra dimensão: preservar os valores que orientaram os fundadores e, ao mesmo tempo, construir condições para que o empreendimento continue crescendo sob novas lideranças.
É nesse encontro entre tradição e transformação que se insere a trajetória da La Violetera. Fundada em Curitiba, em 1928, pelo imigrante libanês Hassan Mohamed Raad, a empresa completa 98 anos em 15 de outubro de 2026. Uma história que começou no comércio de frutas, ganhou dimensão nacional e se tornou parte da memória de diferentes gerações de consumidores brasileiros. Ao longo de quase um século, a companhia atravessou mudanças de nome, ampliou seu portfólio, modernizou operações e acompanhou a evolução dos hábitos alimentares. Por trás dessa trajetória está uma história de empreendedorismo construída pela família Raad, que passou do fundador para seu filho, Faissal Raad, e chegou às gerações seguintes.
Para Isabel Raad Carneiro, neta do fundador e filha de Faissal, a continuidade desse legado exige mais do que preservar as conquistas do passado.
"Levar a história da La Violetera adiante não é apenas dar continuidade, mas sim honrar o passado tendo coragem de transformar o presente para garantir um futuro promissor", afirma.
Da imigração ao empreendedorismo: as origens de uma empresa paranaense
A história da La Violetera começou antes mesmo de sua fundação oficial. Em 1914, Hassan Mohamed Raad deixou o Líbano em direção ao Brasil. Sem recursos financeiros e sem conhecer a língua portuguesa, trabalhou no navio para custear a travessia do oceano. Ao desembarcar no porto de Santos, seguiu para Curitiba, onde encontrou apoio para iniciar uma nova vida. Seus primeiros passos no comércio foram dados nas ruas da capital paranaense, vendendo alimentos como bananas e palmitos trazidos da região de Antonina, no litoral do estado.
A experiência como comerciante abriu caminho para um empreendimento de maior porte. Em 1928, Hassan fundou a Imperatriz das Frutas, dedicada à importação de frutas frescas, especialmente maçãs argentinas, que ele próprio transportava de caminhão até Curitiba. Em um período no qual as operações comerciais dependiam de grandes esforços individuais e de uma infraestrutura logística muito diferente da atual, a disposição para buscar fornecedores além das fronteiras brasileiras ajudou a estabelecer as bases do negócio.

Na avaliação de Isabel, é justamente essa atitude empreendedora que representa a principal herança deixada pelo avô.
"Meu avô deixou a coragem como legado", resume.
Mais do que uma característica individual, a coragem de Hassan se tornou um elemento importante da identidade familiar. Ela esteve presente na decisão de emigrar, na disposição para empreender e na capacidade de encontrar oportunidades em um ambiente desconhecido.
Com o crescimento das operações, a empresa deixou sua pequena loja na Rua Riachuelo e passou a atuar na região do Mercado Municipal de Curitiba. Na década de 1960, adotou o nome Importadora de Frutas Filomena e ampliou as atividades de importação. O movimento marcou uma nova etapa: o pequeno negócio iniciado nas ruas da cidade começava a assumir características de uma operação comercial mais estruturada.
A segunda geração e a construção de uma marca nacional
A continuidade do empreendimento teve em Faissal Raad, filho do fundador, uma de suas figuras centrais. Se Hassan estabeleceu as bases do negócio, Faissal teve papel importante na consolidação e expansão da empresa, em um período no qual o mercado brasileiro de alimentos passava por mudanças na distribuição, na variedade de produtos e na relação das marcas com os consumidores.
Uma das transformações mais emblemáticas ocorreu na década de 1970, quando o empreendimento passou a adotar o nome La Violetera.
A inspiração veio do filme espanhol homônimo, lançado em 1958 e estrelado pela atriz e cantora Sara Montiel. A referência também deu origem à personagem Sarita, cuja imagem passou a integrar a identidade visual da marca e se tornou familiar aos consumidores.
A mudança representou mais do que uma nova denominação comercial. Ao estabelecer uma identidade própria, a empresa deu um passo importante para construir reconhecimento em um mercado que se tornaria progressivamente mais competitivo. Nos anos seguintes, a La Violetera ampliou sua atuação para além das frutas frescas. A partir da década de 1980, incorporou azeites e azeitonas ao portfólio, diversificando as categorias de produtos.
Inicialmente, o fracionamento e o envase das azeitonas eram realizados em uma pequena estrutura próxima ao Mercado Municipal. Com a expansão das atividades, surgiu a necessidade de instalações maiores.Em 1989, a fábrica foi instalada na Cidade Industrial de Curitiba, onde permanece até hoje. A ampliação industrial acompanhou o crescimento de uma empresa que havia deixado de atuar apenas no comércio de frutas para desenvolver uma operação de alimentos com distribuição nacional.

Na memória da família, porém, o legado de Faissal não se resume às decisões empresariais. Isabel destaca a valorização do trabalho, o cuidado com os recursos financeiros e, especialmente, a confiança nas pessoas como alguns dos ensinamentos deixados pelo pai. Segundo ela, Faissal reunia carisma, entusiasmo pela vida e disposição para realizar. São valores que continuam presentes na maneira como a família compreende a continuidade do negócio.
Tradição e diversificação: como a empresa acompanhou o mercado
Uma das características da trajetória da La Violetera foi a capacidade de ampliar suas atividades sem abandonar sua ligação original com o setor de alimentos. A empresa que nasceu importando frutas passou a trabalhar com diferentes categorias, incluindo azeitonas, azeites, conservas, frutas secas, condimentos, massas, molhos e outros produtos.
A diversificação também se refletiu no desenvolvimento de marcas voltadas a diferentes perfis de consumo, como La Preferida, com foco na relação entre custo e benefício, e Mastroiani, associada à culinária italiana e ao segmento de produtos premium. Essa ampliação permitiu atender necessidades distintas, preservando a relação histórica da companhia com a seleção e comercialização de alimentos.

Ao longo dos anos, a transformação alcançou também os processos internos. A linha do tempo institucional registra a implantação de sistemas de gestão, a modernização da estrutura industrial e reformulações na identidade visual da marca. Em 2017, por exemplo, a planta industrial passou por um processo de renovação e modernização, acompanhado por mudanças na apresentação da La Violetera e no desenho das embalagens.
A personagem Sarita, que atravessou décadas como elemento de identificação da marca, também ganhou novas versões.
Para empresas com longa presença no mercado, essas mudanças envolvem uma questão estratégica: como atualizar produtos e a comunicação sem romper o vínculo de confiança estabelecido com consumidores de diferentes gerações? Na avaliação de Isabel, a resposta está em compreender que a identidade de uma marca não depende exclusivamente de elementos visuais ou de produtos específicos.
O desafio de inovar sem perder a essência
A evolução do consumo exige das empresas uma capacidade permanente de interpretação de novos hábitos. Preferências alimentares, praticidade, variedade e formas de comunicação com o público são alguns dos aspectos que influenciam as decisões de quem atua no setor.
Para a La Violetera, preservar o legado de quase um século não significa manter o mesmo portfólio ou as mesmas embalagens que marcaram sua história. A tradicional latinha de azeite e a personagem Sarita, por exemplo, continuam representando capítulos importantes da memória da marca. Entretanto, a empresa entende que a conexão com o consumidor precisa ser renovada.
Essa perspectiva aparece nas decisões de diversificação e inovação ao longo dos anos. Em 2022, a companhia lançou uma versão de azeitonas com 65% menos sódio, um exemplo de adaptação de uma categoria tradicional às novas demandas alimentares. O desafio é fazer com que esse processo de atualização preserve os atributos associados à trajetória da empresa, como qualidade, confiança e respeito às pessoas.
Para Isabel, a história deve funcionar como uma referência para as decisões do presente, e não como uma limitação para o futuro. A preocupação é manter a La Violetera conectada às transformações do mercado, com liberdade para experimentar, desenvolver produtos e identificar novas oportunidades de atuação.
Nesse contexto, inovação não representa necessariamente uma ruptura com o passado, mas uma forma de dar continuidade ao empreendimento construído pelas gerações anteriores.
Sucessão familiar e o compromisso com as próximas gerações
A transmissão de uma empresa entre gerações envolve mais do que a continuidade de suas atividades comerciais. Também exige compartilhar valores, preservar relações e estabelecer uma visão de futuro.
No caso da La Violetera, a trajetória de Hassan e Faissal Raad constitui uma referência para as gerações que dão sequência à história familiar. O fundador deixou o exemplo da coragem diante do desconhecido. A geração seguinte contribuiu para desenvolver e expandir o negócio, consolidando a presença da marca no mercado brasileiro.

Agora, o desafio é manter a empresa relevante em um ambiente de mudanças constantes, no qual tradição e capacidade de adaptação precisam caminhar juntas. A conexão com os consumidores permanece no centro dessa perspectiva. Afinal, a alimentação ocupa um espaço singular na vida das pessoas. Produtos consumidos em família, receitas transmitidas entre gerações e celebrações em torno da mesa criam lembranças que ultrapassam a relação comercial entre marcas e consumidores.
Ao longo de 98 anos, a La Violetera passou a participar dessas experiências em diferentes momentos da vida dos brasileiros. Para Isabel, a expectativa é que as próximas gerações continuem associando a marca à confiança, à qualidade e aos momentos compartilhados, mas encontrem também novos motivos para escolhê-la.
O objetivo é preservar a relação construída com consumidores antigos e, ao mesmo tempo, conquistar espaço entre públicos que possuem hábitos, expectativas e necessidades diferentes.
Um legado de 98 anos voltado para o futuro
Ao se aproximar do centenário, a La Violetera reúne elementos que ajudam a explicar a longevidade de um empreendimento familiar: uma origem marcada pela iniciativa de um imigrante, a continuidade entre gerações, a expansão das atividades e a disposição para acompanhar as transformações do mercado.
A empresa que começou com frutas comercializadas nas ruas de Curitiba passou por diferentes etapas de desenvolvimento e ampliou sua presença para além do Paraná. Sua trajetória também reflete a contribuição do empreendedorismo de imigrantes para a formação econômica da capital paranaense, especialmente por meio de negócios familiares que encontraram no comércio um caminho para crescer.

Hoje, a perspectiva é continuar desenvolvendo produtos, modernizando processos e fortalecendo a relação com os consumidores, sem abandonar os valores que orientaram sua história.
Mais do que celebrar o tempo transcorrido desde 1928, os 98 anos representam um momento de reflexão sobre o que tornou possível chegar até aqui e sobre o que será necessário para continuar.
A história iniciada por Hassan Mohamed Raad mostra que o futuro de uma empresa pode nascer de um gesto de coragem. Quase um século depois, é a capacidade de transformar essa herança em novas possibilidades que orienta os próximos capítulos da La Violetera.
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