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O endividamento dos profissionais brasileiros deixou de ser um tema restrito à vida privada e passou a aparecer com mais força dentro das empresas. A pressão financeira que nasce no orçamento doméstico chega ao ambiente corporativo em forma de ansiedade, perda de concentração, queda de produtividade e, inclusive, em decisões de carreira tomadas sob pressão financeira. O tema, que já tem impactos reais nos resultados de diversas organizações, ganha força com a atualização da NR-1, norma regulamentadora de saúde ocupacional que incluiu como obrigatoriedade das empresas o gerenciamento de riscos psicossociais e suas consequências na saúde mental.
Observando este contexto, o evento Epidemia Invisível - Como o endividamento dos colaboradores afeta as empresas, a produtividade e a saúde emocional, promovido pela Gazeta do Povo e pelo Conta Cheia em Curitiba, trouxe panelistas de renome para discutir causas, consequências e possíveis soluções para o desafio das dívidas que comprometem a renda de quem trabalha e acendem um alerta vermelho sobre quem emprega. Afinal, como apoiar colaboradores financeiramente pressionados sem invadir a vida privada, mas sem permitir também que a empresa vire tutora da vida pessoal do empregado?
Para Pâmela Testa, gerente nacional de Negócios Digitais da Gazeta do Povo, é preciso coragem para olhar para o problema e assumi-lo como real se o objetivo é provocar transformações. “Empresas fortes são construídas por pessoas fortes e cuidar das pessoas também é responsabilidade de lideranças conscientes. Isso está muito conectado com as convicções da Gazeta do Povo.”
No debate, Thomas Pedroso, sócio e gestor de Customer Experience do Grupo Servopa; Diego Godoy, headhunter e fundador da Muuda.work; e Luís Humberto de Quental, vice-presidente financeiro e de mercado da ABRH-PR e founder da Wiipo Benefícios conectaram três perspectivas complementares: a visão prática da empresa, o comportamento dos profissionais no mercado de trabalho e o papel estratégico do RH diante de um cenário de maior vulnerabilidade financeira e emocional - agora fomentado com a normativa.
A discussão parte de um cenário com o qual os brasileiros parecem já estar familiarizados, mas que não perde a gravidade em virtude do hábito. O país vive um patamar recorde de endividamento familiar. Levantamento recente da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) aponta que mais de 80% das famílias brasileiras têm algum tipo de dívida, porcentagem que vem crescendo em todas as faixas de renda. Ainda, dados de abril do relatório de Estatísticas Monetárias e de Crédito do Banco Central mostram que a taxa média de inadimplência nas operações de crédito do sistema financeiro brasileiro alcança patamar histórico de 4,4%, com parcela expressiva da renda mensal comprometida com pagamento de dívidas.
O motivo de tantos passivos envolve consumo mal planejado, custo de vida elevado, imprevistos, saúde, perda de renda, crédito caro e uso recorrente do cartão para dar conta das despesas do mês. Mas, para além do micro, o cenário macroeconômico agrava a dinâmica. Em um país marcado por dívida pública elevada (R$ 8,8 trilhões, segundo dados divulgados nesta quarta, 27, pelo Tesouro Nacional), juros altos (com
Selic variando entre 14,5% e 15%), crédito fomentado por políticas públicas com o discurso de ferramenta de inclusão e aquecimento econômico e uma cultura forte de parcelamento, o endividamento do profissional brasileiro parece expressar uma lógica econômica mais ampla: a antecipação da renda futura para resolver a despesa do presente.
O resultado é uma cultura governamental de conviver com sucessivos ciclos de endividamento e rolagem de dívidas que se reproduz na população. A diferença é que, enquanto o Estado tem meios de refinanciamento como emissão de títulos ou aumento de impostos, o trabalhador sente o peso de uma dívida de forma imediata no salário e na perda do poder de compra.
No meio do caminho, estão as empresas, onde a consequência é direta: o colaborador endividado pode até não falar sobre o problema, mas trabalha sob efeito dele. E é aí que o desafio se instaura.
Quando a dívida entra na empresa
Segundo os especialistas convidados, o problema financeiro costuma chegar às empresas de forma silenciosa. Nem sempre aparece como “endividamento”. Pode surgir como queda de desempenho, dificuldade de concentração, irritabilidade, perda de energia, aumento de faltas, pedidos de adiantamento ou até de forma mais drástica.
Na visão de Thomas Pedroso, o auge do problema é quando o colaborador passa a enxergar a demissão como saída financeira. “Eu diria que em 99% dos casos, quando o problema vem à tona, já é tarde demais e a pessoa está procurando alguma forma de resolvê-lo. E a forma mais comum acaba sendo pedir demissão, tentando achar algum acordo para se livrar da dívida, que acaba sendo impagável eventualmente”, relata.
A situação evidencia que o endividamento pode gerar uma forma indireta de turnover. A empresa perde profissionais não necessariamente por falta de vínculo com a cultura ou por uma proposta melhor de mercado, mas porque a pressão financeira empurra o trabalhador para decisões extremas. “A gente vê muito isso, é comum e tem muitas substituições de cargo motivadas por stress. E eu não tenho dúvida que grande parte delas é causada por problemas financeiros em casa”, complementa o headhunter Diego Godoy.
Mesmo quando não chega a tanto, o problema começa a afetar a produtividade – e por consequência os resultados da empresa. “Vivemos um cenário em que apenas 16% dos colaboradores terminam com um real (na conta) até o próximo salário. O grande problema da relação junto à empresa é que isso começa a impactar muito no resultado, porque o funcionário endividado não está feliz. E a gente sabe que pessoas felizes produzem muito mais, enquanto pessoas que estão recebendo ligação (para cobrar dívidas) não conseguem ter produtividade”, analisa Luís Humberto de Quental.
Como lidar com o endividamento?

A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão e a ansiedade resultam na perda de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, totalizando um custo de US$ 1 trilhão em produtividade perdida anualmente. Para lidar com isso, as empresas precisam equilibrar os pratos: atuar para ajudar os colaboradores e evitar perdas, mas sem exercer uma posição paternalista, assumindo uma responsabilidade individual.
O ponto de equilíbrio, segundo a discussão, está em reconhecer o problema como uma variável organizacional e atuar de forma estratégica. E é nesse contexto que as áreas de recursos humanos entram: o papel do RH, para os especialistas, deve estar mais ligado à criação de políticas, canais e alternativas seguras do que à gestão individual de dívidas - o que envolve diagnóstico, educação e acesso responsável a crédito como benefício.
Thomas Pedroso destaca que treinar líderes é o primeiro passo para entender o cenário. “O que o nosso RH vem propondo fortemente é o treinamento das lideranças, para estar mais presente com seus colaboradores e entender as dificuldades deles. Esse é o caminho para a gente identificar de forma mais precoce que algo está acontecendo”, avalia.
Além disso, também é possível fazer diagnósticos mais abrangentes. “De todos os meus colaboradores, quantos estão realmente endividados? Essa pergunta pode ser feita por meio de uma pesquisa anônima, por exemplo, entendendo a saúde financeira de cada um e, para quem tem empréstimos, saber como são eles. A partir daí também é possível estender para a educação financeira, fazendo uma trilha de desenvolvimento”, exemplifica Quental.
No caso dos consignados, a visualização por parte dos RHs fica mais direta. “E aí faz muito sentido trocar uma dívida cara por uma mais barata. A empresa pode entrar com um programa de benefícios que contemple crédito acessível”, acrescenta.
Crédito como solução disruptiva
Quem está de olho na inovação para o mercado de crédito viu nessa questão um ponto nevrálgico e uma oportunidade de negócio em ascensão. Gabriel Nasser, cofundador do Conta Cheia, explica que a inteligência artificial foi o motor que permitiu à startup responder rapidamente ao mercado de R$ 100 bilhões aberto pela nova legislação do consignado privado - a lei 15.179/25 permite que trabalhadores com vínculo formal façam empréstimos em plataformas digitais, seja por canais bancários ou pelo aplicativo da carteira de trabalho.
O diferencial da plataforma está no modelo de convênio direto com as empresas, o que reduz riscos de fraude e permite oferecer taxas menores que as praticadas por instituições tradicionais. "A gente viu os bancos fazendo taxas abusivas e malucas e pensou que, em um ambiente de bons negócios, conseguiríamos atuar de maneira mais rápida e justa", conta Nasser.
Giovani Girotto, sócio do Conta Cheia, diz que a ideia não é colocar mais um crédito na mão do trabalhador, mas oferecer a troca de uma ou mais dívidas caras por uma mais barata, com o objetivo de reorganização financeira. E acrescenta que além de taxas menores, a empresa oferece também suporte humanizado, que inclui acompanhamento psicológico gratuito duas vezes por mês e trilha de educação financeira via WhatsApp e IA - enfrentando o desafio de engajar um público que, por constrangimento, raramente busca esse conhecimento de forma espontânea. “E isso sem custo para as empresas e sem contrato de exclusividade”, comenta.
Conformidade com a NR-1
Para os gestores, a solução atua diretamente na conformidade com a NR-01 e no combate ao superendividamento sem gerar custos ou burocracia adicional para o RH. A norma regulamentadora, aliás, entrou na pauta das empresas com vigor nas últimas semanas. Há dois anos, ela passou a englobar o gerenciamento de riscos
psicossociais como uma obrigatoriedade corporativa. No entanto, só no último dia 26 de maio o Ministério do Trabalho passou a prever multa pelo não cumprimento.
Com isso, as empresas tiveram que correr atrás para implantar ações que olhassem com critério para fatores que afetam o equilíbrio emocional dos colaboradores. E como os efeitos do endividamento englobam ansiedade, estresse, insônia, exaustão e queda de concentração, o tema acaba refletindo nos indicadores de gestão.
Por isso, Diego Godoy defende que a saúde financeira precisa ser tratada seguindo uma hierarquia de prioridades e que sua classificação primária deve ser, de fato, como um risco psicossocial. Produtividade e benefícios vêm na sequência. “Uma coisa leva à outra. No final das contas, se estou saudável, eu tenho um risco mapeado; se estou saudável, eu tenho produtividade. Aí sim posso ter acesso a crédito como benefício de maneira tranquila”, enfatiza.
Luis Humberto de Quental lamenta que o tema tenha que ter virado lei para alertar as empresas sobre a necessidade de ação, mas confirma que os RHs estão passando por uma transição importante para reclassificar assuntos antes invisíveis como pautas estratégicas. Entre as ações que viabilizam isso está people analytics, que consiste em usar dados e tecnologia para entender o comportamento das pessoas e o que impacta o ambiente de trabalho.
“Uma área que era simplesmente operacional passa a ter um papel cada vez mais estratégico e entender o contexto dos colaboradores. Mas é um caminho, é uma adaptação que requer bons ajustes ainda”, menciona. "As empresas são de negócio, têm que trazer resultado, não é filantropia. Agora, quem traz resultado são as pessoas. Então, se nós de fato não olharmos para elas com o cuidado devido, não fecharemos a conta”, conclui.
