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A Organização Mundial de Saúde (OMS) considera a saúde sexual um dos pilares da qualidade de vida. No entanto, os estudos sobre sexualidade feminina na medicina começaram a ser aprofundados há apenas 20 anos, mostrando que o entendimento sobre sexualidade da mulher, na essência do termo, ainda é algo recente.
Este é um contraponto que levanta a necessidade de esclarecimento e mais atenção das mulheres e profissionais de saúde para algo que vai muito além do que o senso comum conhece sobre o tema. Enquanto a educação sexual ainda está muito pautada na saúde sexual propriamente dita, como métodos contraceptivos e prevenção de doenças, o que a sexologia vem fazer enquanto ciência neste momento é resgatar os pilares fundamentais da sexualidade, como o prazer, o consentimento e o bem-estar sexual.
É o que explica a médica ginecologista e especialista em medicina sexual Marina Beduschi. A sexualidade, segundo ela, é um conceito biopsicossocial que transcende o contato físico. "Sexualidade feminina não é apenas o ato sexual. Ela envolve corpo, emoções, identidade, autoestima, saúde mental e hormônios", define. Tem a ver, portanto, com um relacionamento íntimo entre uma mulher e sua própria mente.
O assunto tem ganhado tamanha evidência que se tornou pauta de um evento promovido pela Gazeta do Povo e pela Recco, marca de lingeries e moda íntima paranaense com mais de 40 anos que, hoje, se destaca como uma das mais importantes no cenário nacional no segmento, competindo com grifes internacionais.
Dessa vez com uma pegada mais intimista, a conversa reuniu um número seleto de convidadas como uma segunda rodada do Entre Elas, evento exclusivo para mulheres que estreou em março deste ano no portfólio da Gazeta do Povo.
Um grupo com idades e realidades profissionais variadas teve a oportunidade de assistir a uma palestra com a médica numa das lojas da marca, em Curitiba. O intuito, mais do que levar conhecimento, era abrir espaço para refletir sobre as múltiplas funções da mulher moderna e o quanto isso afeta a saúde, o bem-estar e o olhar sobre a própria identidade.
“Conforme a gente vai equilibrando tantos papéis na vida, como mulheres, como profissionais, como mães, fica cada vez mais difícil ou a gente acaba tendo menos tempo de parar, se olhar e refletir sobre coisas que são importantes", acredita Pamela Testa, gerente nacional de Negócios Digitais da Gazeta do Povo.
Da receptividade ao prazer

Quanto mais os estudos sobre sexualidade avançam, mais se percebe a abrangência do assunto e o paradoxal desconhecimento de mulheres – e homens – sobre o que ela significa e o quanto define a vida feminina.
Quase sempre, o que leva mulheres ao consultório de Marina é uma motivação externa, pautada no outro. "A mulher busca ajuda para 'salvar o casamento', mas o foco deveria ser o seu próprio prazer e descoberta", atesta. Deslocar o objetivo de um lugar de alteridade para um benefício individual é um processo que envolve desde conhecimento anatômico e hormonal até o funcionamento da mente feminina e sua relação com o erotismo e o prazer.
Isso inclui compreender que o funcionamento da resposta sexual de homens e mulheres é diferente, especialmente em relacionamentos longos, em que a mulher entra no que chamamos de neutralidade sexual - o que não significa falta de amor ou desinteresse pelo parceiro, mas sim uma ausência de resposta imediata ao estímulo. “É como uma escala de 0 a 10, em que 0 a mulher está totalmente neutra e em 10, no ápice do prazer”, explica.
No meio desse caminho passam a disponibilidade mental, a receptividade ao encontro, os estímulos eróticos, as fantasias e a consequente resposta do corpo ao que está sendo construído. É que diferentemente do desejo masculino, que muitas vezes é espontâneo, o feminino é predominantemente responsivo.
"O desejo sexual da mulher, essa coisa de espontaneidade, é um mito. Não é biológico, é como estão acontecendo as relações e o dia a dia. O que eu preciso é dizer ‘sim’ e trabalhar estímulos sexuais individuais ou do casal. O desejo vai aparecer", pontua a sexóloga.
Maternidade, envelhecimento e saúde
A palestra também abordou como as construções sociais impactam a vida sexual em diferentes fases, como a maternidade e a menopausa. Nesse contexto, o estereótipo da "mãe imaculada", que afasta a mulher de sua identidade sexual após o nascimento dos filhos, pode ser um grande entrave. "A sociedade criou a imagem da mãe como um ser sagrado, e o sexo como algo profano. São estereótipos e precisamos separá-los muito bem da realidade para que a mulher continue se desenvolvendo sexualmente", acredita.
Sobre o envelhecimento e condições de saúde, como o tratamento oncológico, a médica destaca que a maturidade e as limitações podem – pela perspectiva do copo meio cheio – até ampliar o repertório sexual. Embora alterações hormonais possam causar desconfortos físicos, a conexão entre mente e corpo torna-se mais poderosa.
“É a mulher reconhecer que daquele jeito não consegue mais (ter resposta sexual), mas consegue de outro. Ela tem poder de variar muito mais do que aquela mulher que nunca passou por nada. E a forma como a mulher madura ou que passou por alguma doença ou limitação trabalha o beijo, o toque, pode ser muito mais rica do que aquela que não precisa disso, porque o corpo dela responde automaticamente.”
Derrubada dos mitos e tabus

O evento proporcionou ainda um espaço de troca para que as participantes compartilhassem suas próprias vivências com os temas abordados. O sentimento comum era a necessidade de derrubar mitos e priorizar o autocuidado e a compreensão de si, dando espaço para a fluidez da sexualidade.
Para a designer de interiores Daniele Ducate a palestra foi um convite à retrospectiva pessoal. “Essa palavra, ‘sexualidade’, não remete a casal necessariamente; ela remete a você como pessoa, a você como mulher, a você olhar para si mesma.” Além disso, para ela, os aprendizados ao longo dos anos mudam a dimensão do tema. “Foi uma oportunidade de olhar para trás e lembrar de várias fases da minha vida: como eu agia, o que eu pensava, no que eu acreditava, o que eu sabia sobre sexualidade e como a maturidade muda tudo isso, nossos conceitos, nossa visão. A verdade é que a gente está sempre aprendendo sobre nós, nunca sabemos tudo.”
Outra participante, a psicóloga Juliana Alves da Silva destacou o impacto do debate para a saúde integral da mulher. Para ela, o simples ato de verbalizar o assunto já é um avanço. "O próprio fato de a gente estar falando sobre isso, e não só pensando, é um aprendizado. Acho que popularmente essa informação ainda não é tão comum por conta dos tabus", observou. “Muita coisa já mudou, mas a gente pode fazer muito mais ainda em prol da saúde mental e física da mulher.”
No cotidiano do varejo especializado, a busca pela redescoberta do feminino é uma constante. É o que apontou Juliana Oliveira, gerente da loja Recco do Park Shopping Barigui, que compartilhou como as discussões da palestra refletem o que ela observa no atendimento.
"A gente que trabalha com o feminino diariamente sente muito isso nas nossas clientes. Elas vêm buscando um diferencial, um sentir-se melhor e a melhora da autoestima", diz. Para ela, os conhecimentos compartilhados durante o bate-papo reforçam a importância de cada mulher se descobrir e se redescobrir com o tempo. "É sobre a gente se encontrar naquilo que faz sentido para nós", finaliza.
