
Por que Curitiba está substituindo o asfalto por concreto nas grandes obras viárias?
Mudança adotada pela prefeitura em corredores de ônibus e vias de tráfego intenso busca ampliar a durabilidade da infraestrutura, reduzir intervenções de manutenção e preparar a cidade para a nova geração do transporte coletivo
15/07/2026 às 09:41

Ouça este conteúdo
As obras viárias em andamento em Curitiba têm alterado a rotina de quem circula pela cidade. Intervenções em importantes corredores provocam desvios, mudanças temporárias no tráfego e períodos de lentidão. Em meio ao desconforto, uma característica dos novos projetos tem chamado a atenção: em diversos trechos, o asfalto está dando lugar ao concreto.
A mudança integra uma estratégia da Prefeitura de Curitiba para ampliar o uso do chamado pavimento rígido, especialmente em corredores de ônibus, canaletas exclusivas, vias de tráfego intenso e obras vinculadas ao programa Novo Inter 2.
A iniciativa acompanha uma tendência já adotada em rodovias, áreas industriais, portos e aeroportos brasileiros, onde o concreto é empregado em locais submetidos a cargas elevadas e uso contínuo.
Na capital paranaense, essa solução está presente em diferentes frentes de obras, entre elas os eixos do Novo Inter 2, as intervenções nas avenidas Arthur Bernardes e Brasília, as obras do Complexo Tarumã, as canaletas do Ligeirão Leste/Oeste, as requalificações na região do Xaxim e a reestruturação da Avenida Victor Ferreira do Amaral, em conjunto com as intervenções ligadas ao Viaduto Curitiba-Pinhais.

Em muitos desses trechos, o concreto vem sendo aplicado justamente onde o desgaste é maior, devido às frenagens frequentes e à circulação contínua de ônibus e outros veículos pesados.
O que explica a escolha pelo concreto
O asfalto continua sendo o pavimento predominante nas cidades brasileiras por reunir características como rapidez de aplicação e facilidade de manutenção. Em ruas residenciais e vias de menor circulação, permanece como a solução mais utilizada.
Nos corredores de transporte coletivo, porém, as condições são diferentes. A combinação entre ônibus articulados, caminhões, frenagens constantes, acelerações e repetição contínua do mesmo trajeto provoca desgaste mais intenso do pavimento. Nessas situações, o asfalto tende a apresentar deformações como trilhas de roda, afundamentos, ondulações e buracos com maior rapidez.
É justamente para suportar esse tipo de esforço contínuo que o concreto vem sendo adotado em parte das obras estruturais da cidade.
Por apresentar maior rigidez, o material distribui melhor as cargas e sofre menos deformações ao longo do tempo. Em obras executadas conforme as especificações técnicas, sua vida útil pode ultrapassar duas décadas.
Segundo especialistas da área de pavimentação, trata-se de uma lógica de investimento de longo prazo: embora o custo inicial seja mais elevado, a expectativa é reduzir gastos futuros com recapeamentos, operações tapa-buracos e outras intervenções de manutenção.

A eletrificação da frota altera os critérios de pavimentação
A ampliação do uso do concreto também está relacionada à modernização do transporte coletivo de Curitiba.
Com a incorporação gradual de ônibus elétricos, a infraestrutura passou a considerar um novo perfil de frota. Esses veículos costumam ser mais pesados que os modelos convencionais em razão dos conjuntos de baterias, aumentando a carga exercida sobre o pavimento, especialmente nas canaletas exclusivas e nos pontos de parada.
A prefeitura utiliza esse argumento para justificar a adoção do concreto nas obras do Novo Inter 2 e em outros corredores estruturais. Em vídeos institucionais divulgados recentemente, o município afirma que o material oferece maior durabilidade, exige menos manutenção e apresenta melhor desempenho diante do peso dos novos veículos.
A proposta é adequar a infraestrutura às necessidades atuais e preparar a cidade para a expansão da eletrificação do sistema de transporte coletivo.
Menos intervenções ao longo da vida útil das vias
Outro dos principais argumentos apresentados pela administração municipal é a redução da frequência de manutenção.
Em corredores de ônibus, reparos recorrentes costumam provocar novos bloqueios de trânsito, afetar a operação do transporte coletivo e elevar os custos de conservação da malha viária. Ao optar por um pavimento mais resistente, a prefeitura busca ampliar o período de funcionamento dessas vias sem necessidade de grandes intervenções.
A Secretaria Municipal de Obras Públicas (SMOP) tem defendido o emprego desse tipo de solução nos principais eixos estruturais da cidade.
Aspectos ambientais também entram na discussão
Embora o principal argumento para a adoção do concreto seja estrutural, a prefeitura também aponta possíveis benefícios ambientais.
Por apresentar coloração mais clara que o asfalto, o material reflete uma parcela maior da radiação solar e absorve menos calor. Em tese, essa característica pode contribuir para reduzir parcialmente o efeito das ilhas de calor urbanas.
Outra vantagem apontada é a maior refletância da iluminação pública, que pode favorecer a visibilidade noturna em determinados projetos viários.
Obras mais longas, infraestrutura preparada para o futuro
A adoção do concreto também ajuda a explicar por que algumas intervenções exigem prazos maiores de execução.
Diferentemente do asfalto, o concreto necessita de um período de cura antes da liberação completa ao tráfego. Além disso, grande parte dessas obras envolve melhorias na drenagem, readequação de canaletas, alterações geométricas e modernização do sistema viário.

Segundo a prefeitura, os investimentos buscam reduzir a frequência de futuras intervenções, aumentar a eficiência dos corredores de transporte coletivo e preparar a infraestrutura urbana para atender às demandas das próximas décadas.
Uma escolha voltada ao longo prazo
A substituição do asfalto pelo concreto em parte das grandes obras viárias de Curitiba reflete uma estratégia de planejamento da infraestrutura urbana diante das novas exigências da mobilidade.
Segundo a prefeitura, a opção busca oferecer maior resistência ao desgaste provocado pelo tráfego intenso, adaptar a malha viária à expansão da frota de ônibus elétricos e reduzir a necessidade de intervenções ao longo do tempo.
Os transtornos provocados pelas obras seguem fazendo parte da rotina dos curitibanos. A expectativa da administração municipal é que o investimento realizado agora resulte, nos próximos anos, em corredores estruturais mais preparados para suportar o uso intenso e demandar menos intervenções de manutenção.
