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Liderança, cultura e princípios: os ativos que não aparecem no balanço
Produtos mudam, tecnologias envelhecem, mercados viram do avesso. O que atravessa gerações é aquilo que a empresa decide não mudar.
Por CARLOS FREITAS*
21/08/2026 às 08:54

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Quando os resultados aparecem, todos olham para os números: faturamento, lucro, participação de mercado, expansão. São indicadores importantes, mas não explicam por que algumas empresas desaparecem logo depois de um pico de sucesso, enquanto outras permanecem relevantes por décadas – ou por séculos.
As organizações mais longevas do mundo enfrentaram guerras, crises e revoluções tecnológicas. Muitas mudaram de produto, reinventaram o negócio e trocaram de estratégia mais de uma vez. Mas preservaram algo que não entra no balanço patrimonial: a identidade.
O patrimônio invisível
Toda empresa tem ativos tangíveis – fábricas, caixa, tecnologia. Eles são essenciais, porém, não são os mais importantes nos momentos de incerteza. O que sustenta a longevidade são os ativos invisíveis: cultura, confiança, liderança e princípios. É possível comprar tecnologia nova e abrir mercados, mas sem uma cultura que alinhe as pessoas a um propósito, esse crescimento não se sustenta.
Não se trata de intuição de consultor. Em "Feitas para Durar", James Collins e Jerry Porras compararam empresas visionárias com concorrentes diretas ao longo de décadas e chegaram a uma conclusão que resume o argumento: as companhias que perduram preservam uma ideologia central quase imutável enquanto mudam praticamente todo o resto – produtos, estratégias, estruturas.
Cultura, afinal, não é frase na parede. Ela aparece na decisão difícil, na forma de resolver conflitos, no jeito de formar pessoas. É o comportamento da empresa quando ninguém está olhando.
O que as empresas centenárias fazem diferente
O Japão tem um nome para os negócios com mais de cem anos: shinise. São milhares deles — e o mais antigo, a construtora Kongō Gumi, foi fundado no ano 578, há quase um milênio e meio. Não é coincidência que existam tantas empresas centenárias, e algumas quadricentenárias, seguindo o mesmo padrão.
A italiana Beretta, fundada em 1526, é conduzida há quinze gerações pela mesma família. Sobreviveu a guerras, repúblicas e revoluções. O produto evoluiu; o princípio de qualidade e precisão, não.
A japonesa Kikkoman produz molho de soja desde a década de 1630, atravessou duas guerras mundiais e a globalização, e o que se manteve foi a cultura de ofício e o cuidado com o processo.
A alemã Faber-Castell, de 1761, começou fabricando lápis e hoje disputa também o mercado de artigos de luxo. Trocou tecnologias, fábricas e mercados, mas preservou a promessa de fazer produtos que duram gerações.
Nenhuma delas prosperou por ter a tecnologia mais avançada de sua época. Todas permaneceram porque souberam distinguir o que era princípio permanente do que era prática temporária.
Liderança e princípios em tempos de crise
Liderar hoje não é apenas distribuir tarefas. É construir confiança, desenvolver talentos e manter a equipe alinhada ao propósito, mesmo sob pressão por resultado imediato. É justamente nos períodos de transformação que os princípios saem do papel: quando não existe resposta pronta, eles viram bússola.
Princípios consistentes preservam a identidade enquanto a estratégia muda. Culturas fortes não travam a mudança – dão segurança para inovar sem perder o senso de pertencimento. As empresas duradouras fazem, portanto, duas coisas ao mesmo tempo: preservam o que é essencial e transformam o que precisa evoluir. Saber distinguir uma coisa da outra talvez seja a maior vantagem competitiva que existe.
O que não pode ser copiado
Nenhuma empresa permanece relevante apenas por ter um bom produto – isso a concorrência copia. O que não se copia é uma cultura construída com consistência, uma liderança que forma outras lideranças e um conjunto de princípios que orienta decisões por gerações.
Os ativos mais valiosos de uma empresa, muitas vezes, são justamente os que não aparecem no balanço. São eles que sustentam a reputação, fortalecem a confiança e permitem criar valor muito depois do primeiro lucro.
Empresas não deixam legado apenas pelo que produzem: permanecem pelo que acreditam, pela forma como lideram e pelos princípios que escolhem preservar.

