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Bem-estar na era digital: como autoimagem e organização influenciam a saúde mental

O bem-estar na era digital depende cada vez mais da maneira como lidamos com estímulos, comparações e cobranças que fazem parte da rotina conectada. Redes sociais, filtros, tendências de beleza e um fluxo praticamente interminável de informações podem influenciar tanto a percepção que temos do próprio corpo quanto a forma como usamos nosso tempo.

Nesse cenário, cuidar da saúde mental não significa necessariamente abandonar a tecnologia. O desafio está em estabelecer uma relação mais consciente com ela, entendendo quando o ambiente digital informa, aproxima e facilita a rotina e quando começa a alimentar ansiedade, distração ou insatisfação.

Da flexibilidade da imagem corporal à organização analógica, algumas estratégias podem contribuir para um bem-estar na era digital mais sustentável, ajudando a direcionar a atenção para aquilo que realmente importa.

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Bem-estar na era digital e a busca pela imagem ideal

A exposição frequente a corpos editados, filtros e padrões estéticos pode aumentar a pressão sobre a aparência. Para algumas pessoas, a insatisfação ultrapassa uma preocupação pontual e passa a interferir na rotina, nos relacionamentos e na autoestima.

Uma meta-análise publicada em 2025 no Journal of Cosmetic Dermatology analisou estudos sobre o transtorno dismórfico corporal e encontrou prevalência de cerca de 24% entre pacientes de cirurgia plástica.

O transtorno dismórfico corporal é caracterizado por uma preocupação intensa com uma ou mais características da própria aparência, muitas vezes pouco perceptíveis ou mesmo imperceptíveis para outras pessoas.

A cirurgiã plástica Carine Barreto destaca a importância de identificar sinais do transtorno antes de qualquer intervenção. Ela explica que existe uma diferença fundamental entre o desejo de modificar algo que incomoda e a crença de que essa mudança resolverá todos os problemas da vida. Quando as expectativas em relação a um procedimento deixam de ser realistas, é crucial investigar as motivações subjacentes. Comportamentos como insatisfação desproporcional, busca repetida por procedimentos, expectativa de transformação completa e frustração persistente servem como sinais de alerta. Barreto enfatiza que uma cirurgia pode alterar uma característica física, mas não substitui o tratamento de uma condição de saúde mental.

O cirurgião plástico Alexandre Kataoka, em entrevista à CNN Brasil, complementa que a dismorfia corporal se manifesta como um transtorno mental onde há um foco obsessivo em um suposto defeito na própria aparência. Uma das consequências observadas é a realização de múltiplos procedimentos estéticos em busca de um corpo ideal, além da prática excessiva de exercícios físicos. A psicóloga Fabiane Gonçalves, especialista em saúde mental, aponta que a causa do transtorno pode ter origem genética e neuroquímica, mas fatores como o ambiente familiar, aspectos psicológicos e sociais também contribuem. Sintomas comuns incluem baixa autoestima, preocupação exagerada com defeitos (muitas vezes imaginários), o hábito repetitivo de se olhar no espelho, autocrítica e isolamento, tudo motivado por uma percepção de não se encaixar em “padrões”.

Autoimagem também faz parte do bem-estar na era digital

Em um cenário de “canetas para emagrecer”, filtros digitais e um fluxo constante de corpos retocados nas redes sociais, sentir-se bem com a própria aparência tornou-se um desafio. Contudo, existe um caminho que não depende de amar tudo o que se vê no espelho, mas sim de mudar a maneira como a mente reage a esse incômodo. A psicóloga norte-americana Diana Hill, especialista em terapia de aceitação e compromisso (ACT, na sigla em inglês), propõe o conceito de “flexibilidade da imagem corporal”. Trata-se da capacidade de conviver com pensamentos desconfortáveis sobre o próprio corpo sem permitir que eles dominem a vida.

A ideia central não é alcançar a neutralidade total ou amar cada parte do corpo, mas sim questionar o que se faz quando um pensamento negativo surge. Hill sugere alguns exercícios práticos:

O impacto do digital no bem-estar mental

A rotina acelerada e o excesso de estímulos digitais criaram um ambiente onde o sofrimento é frequentemente mascarado. A campanha Setembro Amarelo, que visa romper o silêncio em torno do suicídio, destaca a importância da escuta ativa e da responsabilidade coletiva. O Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio, em 10/09, reforça que falar sobre o tema não aumenta o risco; o silêncio, sim.

Em um contexto mais amplo, a influência digital também afeta a capacidade de viver no presente. A reflexão do filósofo oriental Lao-Tse, “Se você está deprimido, vive no passado. Se está ansioso, vive no futuro. Se está em paz, está vivendo no presente”, resume a importância de direcionar a atenção para o agora. A mente só pode estar em um lugar por vez, e a escolha de onde focar determina o estado de bem-estar. A paz verdadeira surge ao se desapegar do passado e evitar a preocupação excessiva com o futuro.

A vida digital, com seus feeds infinitos e notificações constantes, muitas vezes nos afasta do presente, preenchendo brechas de tempo com distrações que não proporcionam um lazer genuíno, mas sim uma sensação de vazio.

Estratégias para uma vida mais presente e organizada

Para combater as distrações digitais e cultivar uma vida mais intencional, a organização analógica surge como uma aliada. Ferramentas como agendas físicas, planners e bullet journals podem ajudar a recuperar a atenção e focar no que realmente importa. A doutora em Semiótica e pesquisadora em redes sociais Mariana Coutinho, em sua newsletter Tempo de Sobra, explica que o bullet journal é um “diário em tópicos” personalizável, que pode ser usado para organizar tarefas, eventos e anotações, dividindo grandes projetos em pequenos objetivos diários.

O método, desenvolvido pelo designer austríaco Ryder Carroll, que o criou para lidar com seu transtorno de déficit de atenção (TDAH), vai além da simples organização. Ele busca eliminar distrações e direcionar o tempo para atividades com propósito. O espaço offline de um caderno ajuda a conter a onda de estímulos digitais, permitindo processar informações, refletir e concentrar-se. A ideia é centralizar as ideias e agir de forma mais proativa, em vez de reativa, especialmente em relação à vida pessoal e ao lazer.

Coutinho propõe um exercício para estabelecer prioridades: listar em três colunas todas as atividades às quais se dedica, às quais deveria se dedicar e às quais gostaria de se dedicar. Isso permite identificar o que consome tempo e energia sem agregar valor, ou seja, as distrações. Carroll sugere que, se um item não for importante para si ou para alguém querido, ou vital para o sustento, ele deve ser deixado de lado.

Planejar o lazer com antecedência, como se planeja compromissos de trabalho, é essencial. Usar o tempo de deslocamento ou pequenas pausas para pesquisar programações culturais, comprar ingressos ou chamar amigos para atividades, pode transformar o lazer em algo concreto e prazeroso. Para planos maiores, como viagens, a sugestão é dividi-los em pequenas tarefas diárias, que gradualmente constroem o objetivo final.

A combinação do meio digital e analógico pode ser a chave: usar a internet para coletar informações e fazer compras, mas manter um registro consolidado de tarefas e informações offline para preservar o foco. Escrever à mão também auxilia no registro e exame dos pensamentos, contribuindo para um inventário mental que alinha ações com objetivos pessoais.

Em um mundo que exige constante atenção e bombardeia com comparações, o caminho para o bem-estar passa pelo autoconhecimento, pela flexibilidade mental em relação à autoimagem e pela organização consciente do tempo, permitindo que a mente se concentre no presente e nas atividades que realmente trazem propósito e satisfação.

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