Longevidade em foco: a soneca de uma centenária e a importância da escuta na velhice
Por Gabriela Antunes
Por Spineria
04/11/2026 às 09:06

A longevidade pode estar em hábitos simples, cultivados ao longo de décadas. Mas o que significa, de fato, envelhecer bem? Para alguns, a resposta está na rotina. Para outros, a velhice se apresenta como um desafio complexo, que envolve manter a voz e a autonomia em um mundo que, por vezes, tende a silenciar a experiência dos mais velhos. Este texto explora essas diferentes facetas da longevidade, combinando histórias inspiradoras com reflexões sobre o envelhecimento e digno, para oferecer uma perspectiva equilibrada sobre o tema.
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A rotina da longevidade: a soneca diária de Dora Horsfall
A britânica Dora Horsfall, que completou 105 anos nesta segunda-feira (02/11), atribui parte de sua longevidade a um hábito simples e constante: tirar uma soneca todos os dias. Nascida em Londres, em 1921, ela mantém essa rotina de descanso desde a infância. Sua neta, Mandy Cheeseman, acredita que o costume pode contribuir para a disposição da avó, descrita como uma pessoa divertida e com uma risada contagiante. “Acho que pode ser por isso que ela está tão bem conservada. Ela tira uma soneca todos os dias, desde quando éramos pequenas”, afirmou Mandy ao site The Independent.
Atualmente moradora da casa de repouso Flowers Manor Care Home, em Chippenham, Dora celebrou o aniversário com familiares e amigos e recebeu até um cartão do rei Charles III e da rainha Camilla. Ao comentar a marca alcançada, disse que o mais importante é a maneira como cada pessoa aproveita o tempo que tem. “Algumas pessoas têm vidas curtas, outras têm vidas longas. Mas o que fazemos durante esse tempo é o que importa.”
Longevidade e bom humor: uma vida que atravessou a história
A trajetória de Dora passa por acontecimentos históricos importantes, como a Segunda Guerra Mundial, período em que trabalhou como cobradora de ônibus e, depois, em uma fábrica secreta responsável pela produção dos aviões de combate Spitfire. Após 45 anos em Salisbury, ela e o marido se mudaram para o sul da Espanha, e ela voltou ao Reino Unido após o falecimento dele. Com o bom humor de sempre, Dora costuma dizer que tem a mesma idade do dedo mindinho e é um pouco mais velha que os próprios dentes. Ela também elegeu o elástico como a invenção mais importante de sua vida, especialmente pelo uso em peças íntimas.
Envelhecer: um acontecimento social
A história de Dora Horsfall, com vitalidade e bom humor em idade avançada, contrasta com uma visão da velhice que às vezes é romantizada e, outras vezes, negligente. A médica Ana Claudia Quintana Arantes, em artigo publicado na Vida Simples nesta terça-feira (03/11), argumenta que a velhice não é apenas um acontecimento do corpo, mas um “acontecimento entre pessoas”. Ela destaca como a autonomia dos idosos pode ser minada aos poucos quando outros decidem por eles, falam por eles ou ignoram suas opiniões.
A especialista dá como exemplo a cena de uma filha respondendo pela mãe de 87 anos no consultório médico. Nesses momentos, a pessoa idosa pode “desaparecer” socialmente, mesmo com a mente e o espírito ativos. “Ninguém se descobre velho por dentro; por dentro há uma continuidade quase teimosa, a mesma curiosidade, a mesma implicância, a mesma vontade de que alguém pergunte o que se pensa sobre alguma coisa e espere de verdade pela resposta”, escreve Ana Claudia. Segundo ela, a notícia da velhice muitas vezes chega de fora: pela voz que fica mais alta ou mais lenta ao falar com o idoso, pelo cardápio escolhido sem consulta ou pelo médico que se dirige ao acompanhante em vez do paciente.
Longevidade com autonomia: a importância da escuta
A visão de que envelhecer é uma questão de postura interior ou de bom gosto, que cobre o corpo envelhecido com metáforas sobre experiência, pode ser perigosa. Ana Claudia ressalta que o corpo velho, com suas dores e limitações, não é uma metáfora. “Ele tem uma dor que tem localização, intensidade e horário, e a poesia que jogamos por cima disso tudo não alivia nada, ela só nos autoriza a não olhar”, afirma. Esse “não olhar” pode ser o começo do abandono, e não existe boa velhice no abandono.
No Brasil, o direito à dignidade e à participação está previsto no Estatuto da Pessoa Idosa. A experiência de Dora Horsfall, com a família presente e liberdade para expressar sua visão de mundo, mostra como é importante um ambiente que valorize a individualidade e a autonomia. Para o Viver Bem Demais, a longevidade com qualidade de vida passa por reconhecer e respeitar a voz de cada pessoa, independentemente da idade. As pequenas decisões diárias, como a soneca de Dora, e a forma como a sociedade trata seus membros mais velhos são fundamentais para um envelhecimento equilibrado, saudável e feliz.
Por uma longevidade com voz e propósito
A escuta ativa e o estímulo à participação dos idosos nas próprias vidas são pilares para que a velhice seja uma fase de continuidade e propósito, e não de silenciamento. É um convite a olhar para o envelhecimento não só como um processo biológico, mas como uma jornada humana e social que merece respeito, dignidade e a chance de ser vivida plenamente.
