Valor do inútil: o bem-estar além da produtividade
Por Gabriela Antunes
Por Spineria
28/10/2026 às 19:06

Reconhecer o valor do inútil pode parecer contraintuitivo em um mundo cada vez mais pautado pela busca incessante por resultados e pela maximização da produtividade. No entanto, uma reflexão crescente, embasada em saberes ancestrais e análises contemporâneas, sugere que a verdadeira plenitude e o bem-estar duradouro podem residir justamente na capacidade de valorizar o que não se encaixa na lógica utilitária. Este texto explora como a desconstrução da obsessão pela produtividade pode abrir caminho para uma vida mais rica, autêntica e feliz, incentivando a coragem de seguir o próprio destino.
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A armadilha da produtividade constante
A sociedade contemporânea frequentemente nos impulsiona a preencher cada minuto com atividades que visam algum tipo de ganho ou objetivo. Até mesmo os momentos de descanso parecem exigir uma justificativa, transformando o lazer em mais uma tarefa a ser otimizada. Brenda Vieira, em artigo para a Vida Simples (27/10), destaca que, nessa corrida para construir uma vida “melhor”, corremos o risco de adiar a própria vida.
A parábola do pescador ilustra bem essa dinâmica: um empresário, ao ver um pescador satisfeito com sua captura diária, sugere que ele pesque mais para acumular riqueza e, eventualmente, se aposentar para desfrutar de uma vida tranquila. O pescador, sereno, revela que já vive essa tranquilidade, brincando com os filhos, cochilando com a esposa e conversando com os amigos. Ele entende o valor do inútil sem precisar de teoria.
A fala do líder indígena, escritor e filósofo Ailton Krenak, citada no mesmo artigo, ressoa com essa ideia: “A vida é tão maravilhosa que a nossa mente tenta dar uma utilidade a ela, mas isso é uma besteira. A vida é fruição, é uma dança, só que é uma dança cósmica, e a gente quer reduzi-la a uma coreografia ridícula e utilitária.”
Produtividade como construção histórica
Silvia Muiramomi, socióloga e líder indígena do povo Guayaná-Muiramomi, complementa que essa pressão por produtividade se tornou tão internalizada que opera como um “modo fábrica” na condição humana. Ela aponta que a valorização do trabalho duro não é natural, mas uma construção histórica, imposta pela violência da colonização e pelo estabelecimento da propriedade privada. A acumulação de bens passou a ser priorizada em detrimento da coletividade e da colaboração.
O valor do inútil na sabedoria ancestral
A busca incessante por conquistas externas, segundo Silvia Muiramomi, leva a um ciclo de insatisfação. “Nada que venha do exterior pode nos levar à plenitude do ser”, afirma ela, explicando que objetos externos proporcionam um prazer efêmero, seguido de estresse e fadiga. A verdadeira realização e os estados de felicidade mais duradouros, de acordo com a líder indígena, são encontrados no convívio com a natureza, na partilha entre amigos e na vida em comunidade. O bem-estar, nesse sentido, é uma equação que alinha saúde física, emocional e espiritual.
Infância, velhice e a circularidade da vida
A escritora e ativista Guarani Geni Núñez, em uma reflexão de Dona Lulu Cunhai Botu Caioá, liderança do povo Caioá, questiona a lógica utilitarista que atribui valor às diferentes fases da vida. A infância e a velhice, por exemplo, são frequentemente desvalorizadas por não serem consideradas produtivas. Essa perspectiva contrasta com a sabedoria indígena da circularidade da vida, na qual cada etapa (o rio que passa, a folha que cai, a criança que nasce e o idoso) possui valor intrínseco e deve ser honrada. Para Silvia Muiramomi, enxergar utilidade em tudo destrói as subjetividades, e a contemplação dos ritmos da vida, que expressa o valor do inútil, é a chave para o “bem viver ancestral”.
Coragem para o próprio caminho
O valor do inútil também se manifesta na coragem de seguir caminhos não convencionais e de apoiar sonhos individuais. Em entrevista à CLAUDIA (27/10), a atriz Philippine Leroy-Beaulieu, conhecida por seu papel na série Emily em Paris, compartilha sua visão sobre a importância de permitir que os filhos sigam os próprios destinos. Ela, que interpreta a mãe de Amyr Klink no filme 100 Dias, destaca a coragem de Tamara Klink, filha do navegador, que se tornou a primeira mulher a passar o inverno sozinha no Ártico.
Philippine Leroy-Beaulieu enfatiza a necessidade de ter fé nas escolhas dos filhos, mesmo que isso gere preocupação. Ela relata que sua própria liberdade e coragem foram construídas porque lhe permitiram experimentar, inclusive coisas perigosas. Sobre Tamara Klink, a atriz afirma: “E a Tamara é maravilhosa, louca, corajosa. Adoro ela!”, e ressalta a importância de figuras femininas ocupando espaços historicamente dominados por homens.
A história de apoio da avó de Tamara à sua aventura é um exemplo de como a força feminina pode encorajar a busca por si mesmo, desafiando expectativas de utilidade e segurança. A atriz também se identifica com a teimosia, vista não como um traço negativo, mas como uma força e uma obsessão que podem ser belas.
Como redefinir o bem-estar a partir do valor do inútil
Diante da pressão por produtividade e da valorização de uma vida com propósito, é fundamental redefinir o que significa viver bem. Chrystinna Barros, especialista em felicidade pela Universidade de Berkeley, sugere que não é preciso abandonar metas ou ambições, mas sim expandir a régua que define o que merece nosso tempo. Reduzir a vida apenas a conquistas pode empobrecê-la.
Pequenas práticas para abraçar o inútil no dia a dia
É possível trilhar um caminho que preserve espaços sem finalidade determinada, mesmo nas pequenas coisas do cotidiano:
O objetivo não é criar uma meta de ser improdutivo, o que repetiria a lógica que se tenta questionar. A produtividade é útil e oferece uma base para o futuro, mas reconhecer o valor do inútil significa estar aberto ao inesperado, àquilo que não tem um propósito claro. Conclusão: o valor do inútil nos caminhos curvos
Como a escritora Lygia Fagundes Telles sabiamente expressou: “É preciso amar o inútil. Criar pombos sem pensar em comê-los, plantar roseiras sem pensar em colher as rosas, escrever sem pensar em publicar, fazer coisas assim, sem esperar nada em troca. A distância mais curta entre dois pontos pode ser a linha reta, mas é nos caminhos curvos que se encontram as melhores coisas da vida.”
A verdadeira qualidade de vida está na capacidade de encontrar alegria em todas as experiências, úteis ou não, que compõem a jornada diária. E é aí que mora o valor do inútil.
