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“A arquitetura é inseparável de uma visão de mundo”, sentencia Elizabeth de Portzamparc
| Foto: Divulgação

O 27º Congresso Mundial de Arquitetos (UIA2021RIO) terminou nesta quinta-feira (22), mas as falas e temas levantados pelos mais importantes nomes da arquitetura mundial que passaram por ele ainda ressoam e levantam questões que farão parte dos caminhos do setor para os próximos anos.

Uma delas é a da arquiteta franco-brasileira Elizabeth de Portzamparc, que em palestra apresentada na última terça-feira (20) defendeu que não é possível a realização de uma arquitetura que esteja dissociada de uma visão de mundo. "Uma visão comprometida tanto com a transformação social quanto com sua preservação", afirmou.

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Fez isso referenciando grandes mestres da arquitetura, entre os quais fez questão de elencar a ítalo-brasileira Lina Bo Bardi e Paulo Mendes da Rocha, falecido no último mês de maio e que era presidente do Comitê de Honra do congresso, tendo sido homenageado em mesa específica na data de abertura do evento (18 de julho).

A arquiteta reforçou ainda que, assim como ocorre na natureza, cada edifício pertence a um ambiente, com o qual deve estar em harmonia. "Ele se instala, modifica e evolui com o lugar, passando a pertencer ao ecossistema com o qual irá evoluir. Esses sistemas de relações entre homem-arquitetura-mundo foram rejeitados pelo movimento moderno, que defendia uma arquitetura desconectada de seu contexto cultural, humano e climático", criticou ao destacar que a lógica funcionalista da visão moderna da cidade não permite que a complexidade dela seja compreendida, uma vez que as cidades se baseiam em sistemas interativos.

“Foi um movimento desvinculado da relação de lugar, do contexto. Diabolizo-o porque a arquitetura não é um objeto que a gente coloca [em um lugar]. E o movimento moderno trazia a ideia de um projeto genérico, colocado ali, mas que poderia estar em qualquer lugar do mundo, não estando interligado com o local", frisou.

Um dos prédios que integram o Massy Atlantis Grand Ouest, na França, exemplo de projetos mistos assinados por Elizabeth.
Um dos prédios que integram o Massy Atlantis Grand Ouest, na França, exemplo de projetos mistos assinados por Elizabeth. | Serge-Urvoy/Reprodução

Sustentabilidade

A sustentabilidade da produção arquitetônica foi outro ponto de destaque levantado por Elizabeth, no que vai além das questões exclusivamente ambientais.

A preocupação com o meio ambiente e com a destruição das florestas ao redor do mundo, e não só da Amazônia, em favor da agro-economia e da extração de recursos naturais para a cadeia da tecnologia esteve, sim, presente na fala da arquiteta, que também levantou questões sobre a sustentabilidade econômica e social dos projetos.

Para ilustrar a questão, ela apresentou projetos desenvolvidos para a comunidades de desabrigados de Paris, a partir de 2004 e também que uniam moradias sociais e residenciais para venda.

"Se o objetivo das conexões urbanas é criar conexões na cidade, parece lógico aproximar grupos sociais marginalizados dela", destacou.

Para promover a reintegração social dessa comunidade e evitar a rejeição dos habitantes locais, a arquiteta projetou casas em pequena escala, com "arquitetura atraente, mas barata" e pré-fabricadas em madeira. O uso misto das construções, o alojamento de estudantes nelas e a criação de espaços para uso comum foram pensados para evitar a estigmatização das casas.

"Também encontramos uma diversidade social em meus projetos de habitação atuais, unindo moradias para aquisição e moradias sociais. Com clientes inteligentes ou com a ajuda dos prefeitos das cidades, conseguimos frequentemente fazer os programas evoluírem também para usos mistos, propondo várias tipologias, duplex, estúdios de artistas, alojamentos estudantis e familiares", aponta Elizabeth, ao destacar que neste projetos também busca criar laços de vizinhança, por meio de jardins compartilhados ou outros espaços livres.

"A arquitetura não pode resolver por si só as injustiças sociais ou a segregação. Mas podemos e devemos visar, mesmo que em pequena escala, projeto por projeto, o fornecimento de soluções que as minimizem", sentenciou. "Todos sabemos que a arquitetura não pode atuar sobre o sistema econômico globalizado. Mas podemos tentar 'despiorar' e reduzir alguns de seus erros. Não basta pensar em proteger o meio ambiente. É necessário pensar também que podemos impactar positivamente as economias locais", completou.

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