A nova casa do Brasil na Antártica é curitibana

A construção do projeto desenvolvido por arquitetos de Curitiba está em fase de conclusão. Obra será a base para o desenvolvimento de pesquisas brasileiras no continente austral

Fotos: Divulgação

por Jorge Olavo*

22/03/2019

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O continente mais frio do planeta está ganhando um toque curitibano. Nos últimos anos, a paisagem glacial da Ilha do Rei George, na Antártica, tem acompanhado o projeto idealizado pelos arquitetos do escritório Estúdio 41 ganhar forma. A nova Estação Antártica Comandante Ferraz, que substituirá o centro de pesquisa brasileiro destruído pelo fogo em 2012, foi concebida no Centro de Curitiba.

Apesar de ser a capital mais fria do Brasil, não foi daqui que vieram as principais referências para planejar a edificação que enfrentará em média 20 graus Celsius negativos na zona costeira do continente antártico. Para chegar ao desenho vencedor do concurso promovido pela Marinha e pelo Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) em 2013 – do qual participaram 74 trabalhos de escritórios de todo o mundo –, os projetistas recorreram a estações antárticas de outros países. Entre elas estão a espanhola Juan Carlos, a britânica Halley, a indiana Bharathi e a coreana Rei Sejong.

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“É uma alegria ver o projeto concluído. Éramos um escritório jovem e isso foi muito importante para a nossa projeção”, conta o arquiteto Emerson Vidigal, sócio-fundador do Estúdio 41 e professor da Universidade Federal do Paraná. Entretanto, a felicidade de ter o projeto escolhido e ver o trabalho reconhecido mundialmente esconde uma frustração. Até hoje, os arquitetos continuam a conhecer sua criação apenas virtualmente. “Ainda não conseguimos ir até a Antártica e ver a obra de perto. Dependemos que nos levem até lá e ainda não tivemos essa oportunidade”, afirma Vidigal, um dos autores do projeto.

Se projetar uma construção imponente sem conhecer o terreno que receberá a fundação parece desafiador, as condições climáticas do continente antártico e outros detalhes da execução elevaram em alguns patamares o nível de dificuldade do projeto. Como superar nevascas, ventos de 140 km/h, clima extremamente frio e seco e ainda ter a execução da obra limitada a quatro meses por ano devido à impossibilidade de acesso de embarcações e montagem de canteiro de obras?

Tecnologia e estética

A solução foi aliar tecnologia e estética para desenhar uma estrutura segura e que ofereça conforto aos seus “moradores”. A edificação é suspensa para que o acúmulo de neve não seja um problema, é feita em aço especial para resistir às baixas temperaturas e tem design aerodinâmico para enfrentar os vendavais. O sistema de isolamento das paredes usa o mesmo princípio das câmaras frigoríficas. A maior parte das janelas tem tamanho reduzido e os vidros são mais grossos e espaçados também para minimizar trocas de calor.

Vidigal explica, ainda, que a Estação Antártica brasileira apresenta os principais requisitos de sustentabilidade de uma edificação contemporânea. “É eficiente em termos de consumo de energia e materiais de construção. Possui sistemas próprios de geração de energia, processamento de lixo, tratamento de água e esgoto. O edifício funciona como uma pequena cidade e tem até um setor de saúde que funciona como um pequeno hospital para atender emergências.”

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Para superar a barreira logística, tudo precisa ser pré-testado e estar pré-fabricado em dimensões possíveis para ser armazenado no porão de um navio cargueiro, que também transporta guindastes e todo equipamento para a construção. As peças que formam esse complexo quebra-cabeça na Antártica foram produzidas pela empresa Ceiec nos arredores de Shanghai, na China.

“A estratégia foi buscar a máxima repetição dos componentes construtivos, visando à redução dos custos e do tempo para a montagem final e para as atividades posteriores de manutenção”, explica o capitão de fragata Rodrigo Cersosimo Kristoschek, encarregado da Divisão de Operações do Programa Antártico Brasileiro (Proantar). Em consequência desse processo, o mandarim passou a ser a língua oficial do canteiro de obras, o que exigiu a contratação de intérpretes.

Cereja do bolo

Diante desse cenário complexo, desassociar o conjunto da obra para destacar uma ou outra característica beira a injustiça. “O arranjo de todos os condicionantes da obra e gerar uma forma estética atraente decorrente dos aspectos tecnológicos é uma contribuição para a arquitetura do século 21. Algo completamente coerente com o momento que estamos vivendo”, afirma o arquiteto e urbanista Luiz Fernando Janot, coordenador do concurso que escolheu o projeto para a estação antártica e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

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A opinião é compartilhada por Vidigal. Contudo, ele declara simpatizar por um detalhe do projeto: o paralelismo da edificação em relação à linha da praia. “O projeto foi implantado respeitando a geografia do local. São dois blocos paralelos entre si e paralelos à linha da praia. Imagino um bote chegando na estação, com o monte ao fundo. Essa simplicidade cria uma imagem forte para o projeto que se encaixa neste elemento geográfico”, explica.

Estratégia que passa pela pesquisa

Essencial para o equilíbrio térmico do planeta, a Antártica tem despertado cada vez mais o interesse de pesquisadores. O continente garante condições adequadas de vida a diversas espécies e ecossistemas e influencia o clima e as circulações atmosféricas e oceânicas, o que traz impactos diretos na economia global. Outros aspectos que fortalecem a presença brasileira por lá são a proximidade física, a maior procura pelos mares do sul em rotas transoceânicas e o fato de o continente antártico possuir a maior reserva de água doce do planeta.

“Isso tem despertado o interesse de algumas nações ricas em petróleo e pobres em água potável em projetos que possibilitem o transporte de blocos de gelo para extração de água doce nos locais carentes desse recurso”, conta capitão de fragata Rodrigo Cersosimo Kristoschek, do Programa Antártico Brasileiro (Proantar), lembrando ainda que grandes reservas de recursos minerais e o processamento do krill também são objetos de estudo. “A escassez de recursos não renováveis do planeta poderá levar ao desenvolvimento de tecnologia que possibilite a exploração racional dos recursos da Antártica, sendo imprescindível a presença e o correto posicionamento das nações junto à comunidade internacional”, completa.

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Nessa linha, além do suporte à geração de conhecimento, a continuidade das pesquisas na Estação Antártica Comandante Ferraz é estratégica para o Brasil. “Manter uma estrutura de pesquisa permanente lá é muito importante, permitindo ao Brasil continuar como membro consultivo no Sistema do Tratado da Antártica [STA], com capacidade de discutir e se fazer presente nas decisões do futuro da Antártica e participar dos grandes projetos científicos globais”, explica o capitão. O STA é composto por 30 nações que possuem estações de pesquisa no continente antártico.

Mesmo sem a estação brasileira desde 2012, pesquisadores deram sequência a seus estudos a bordo de dois navios da Marinha, em acampamentos e em estações estrangeiras. Trabalhos brasileiros concluídos recentemente no continente austral buscaram descrever o ambiente pré-histórico da região, identificar e analisar plantas e fungos, estabelecer parâmetros para novas edificações na Antártica, estudar ecossistemas marinhos e potenciais aplicações farmacológicas de algumas espécies, avaliar a influência atmosférica e os impactos ambientais do continente e desenvolver a medicina polar. Novos estudos devem ser iniciados em outubro.

Para fora

O escritório curitibano Estúdio 41 também tem levado seus projetos para outros estados brasileiros em concursos de arquitetura. Entre os trabalhos em construção está a sede gaúcha de Fecomércio, Sesc e Senac, em Porto Alegre, que preza pela qualidade de vida no ambiente de trabalho a partir do contato do ser humano com a natureza e os espaços livres.

Outro projeto importante é o Masterplan para a orla do Lago Paranoá, em Brasília, que prevê a execução de uma série de parques urbanos para uso público nas margens do lago. E Curitiba? Até o momento, o escritório não tem nenhum trabalho na sua cidade-sede. “Ainda não tivemos a oportunidade de construir em Curitiba. Estamos à disposição, esperando um convite”, diz o arquiteto Emerson Vidigal, sócio-fundador do Estúdio 41.

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Transparência

Concursos de arquitetura para desenvolver projetos de obras públicas deveriam ser obrigatórios. É o que defende o conselheiro superior do Instituto de Arquitetos do Brasil, Luiz Fernando Janot, responsável pela concorrência elaborada para a Estação Antártica Comandante Ferraz. “É comum no Brasil a contratação de empreiteiras para executar obras só com um projeto básico. Um projeto arquitetônico bem executado torna o orçamento da obra muito mais coerente e justo, trazendo mais transparência ao processo de construção de obras públicas”, afirma Janot.

Confira alguns números e curiosidades relacionados à nova Estação Antártica Comandante Ferraz:

  • 17 laboratórios serão equipados na última etapa da obra
  • 64 pessoas é a capacidade da nova estação
  • US$ 99,6 milhões, aproximadamente R$ 377,3 milhões, é o orçamento total da obra
  • 4.500 m² é o tamanho aproximado da nova estação
  • Mais de 200 contêineres metálicos compõem a estrutura dos espaços internos
  • Cerca de 250 trabalhadores fazem a montagem da estação na Antártica
  • 45 dias é o tempo de navegação da China (onde a estação está sendo pré-fabricada) até a Antártica

*Especial para Gazeta do Povo.

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