Conheça a história da libanesa que é reitora da Escola de Arquitetura da Universidade de Columbia

Amale Andraos esteve em muitos lugares – e todos marcaram sua história e sua forma de ver a arquitetura. Sócia do WORKac, escritório nova-iorquino, ela fala sobre a profissão e a docência

Foto: Raymond Adams

por Luciane Belin*

01/04/2019

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Nascida no Líbano, crescida na Arábia Saudita e graduada no Canadá, Amale Andraos viu e viveu em lugares tão diferentes entre si que é difícil dissociar suas experiências de quem é hoje. Depois de deixar Beirute quando a guerra civil começou em seu país, ela teve a infância marcada pelas atividades culturais com os pais em terras sauditas, mas foi no Canadá que começou a colocar em prática a arquitetura.

Já firme na profissão, foi a Harvard, nos Estados Unidos, cursar o mestrado na área. Foi lá que conheceu o arquiteto Rem Koolhaas, responsável por levá-la a trabalhar em Rotterdam, na Holanda, onde conheceu seu atual sócio, Dan Wood, com quem fundou o escritório WORKac, em 2003, em Nova York.

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Inspirada por mais gente do que consegue contar, segundo a própria Amale, ela é hoje reitora da Escola de Arquitetura, Planejamento e Preservação da Universidade de Colúmbia, cargo que foi a primeira mulher a ocupar. Além de lecionar em diversas outras universidades nos Estados Unidos e também no Líbano, Amale é considerada uma das mais importantes arquitetas do século, nomeada uma das líderes da nova geração no guia “De A a Zaha: 26 mulheres que mudaram a Arquitetura”.

Foto: Raymond Adams

Seu trabalho junto à WORKac obteve reconhecimentos como os prêmios de mérito do Instituto Americano de Arquitetos (AIA, do inglês American Institute of Architects), entre outras dezenas de premiações. Entre um trabalho e outro, Amale conversou com HAUS para falar sobre suas influências e sobre o que marca sua forma de ver o mundo e a profissão. Confira a entrevista, que faz parte do especial Arquitetura: Substantivo Feminino.

Representação parece ser uma palavra importante em seu trabalho e sua trajetória. Pode nos falar um pouco sobre isso?

Arquitetos estão sempre engajados em re-representar o mundo para eles mesmos – redesenhar um site, reorganizar um programa, reinventar uma tipologia ou revisitar um momento histórico favorito para projetar suas possibilidades para o futuro. Se dar conta deste constante processo de tradução é uma parte importante do nosso trabalho e, por si só, um ato de transformação e design. Como nós apresentamos as coisas, de que perspectiva e para quem são considerações cruciais e, para arquitetos, a menor mudança de perspectiva, o ato de desfazer hierarquias dadas para escalar novas relações é como nós abrimos o potencial da arquitetura para ser diferentes e surpreender.

Foto: Bruce Damonte

Ser mulher e imigrante – e a primeira reitora mulher da Escola de Arquitetura da Columbia University – influenciou de alguma forma a maneira que você enxerga essa palavra, representação, e esse mundo?

Quando eu estava na McGill University para obter minha graduação em Arquitetura, eu tive a sorte de estar em uma turma incrível. Um pequeno grupo nosso começou um grupo de leitura em feminismo e arquitetura para complementar nosso currículo existente. Foi depois chamado de “gênero e espaço” e nossa discussão semanal abriu uma perspectiva tão diferente para mim, que eu nunca mais pude ver o mundo da arquitetura da mesma forma, uma vez que nós todas juntas nos tornamos conscientes de certas construções, aprendendo o potencial da arquitetura tanto para consolidar o status quo e representar autoridades ou, ao contrário, para tentar encontrar formas de inverter relações já assumidas, ou pelo menos problematizar essas questões. Isso foi muito importante na minha formação e, hoje, eu tento dar suporte e adotar um senso de abertura e questionamento sobre como e o que nós aprendemos e como nós envolvemos arquitetura como uma disciplina e prática.

Você acha que ser mulher ajudou a forma como você vê o Design e a Arquitetura?

Ser uma mulher e uma migrante deu forma à maneira como eu vejo as coisas, de forma que eu me sinto sempre dentro e fora ao mesmo tempo. Eu gosto de olhar para as coisas de várias perspectivas e eu estou ciente do esforço constante que nós todas temos que fazer para isso e descentralizar a forma como nós olhamos para as coisas, e questionar os fundamentos do nosso conhecimento.

Museu Garage é um dos projetos de Amale pela WORKac. Foto: Miguel de Guzman

Aqui no Brasil, é comum enxergar um grande gap entre o que vemos no mundo acadêmico e o que são a arquitetura e o design nos escritórios e estúdios, nas ruas. São mundos que mudam muito rápido e pode ser difícil para as universidades acompanharem essa velocidade. Isso acontece nos Estados Unidos também? É algo universal?

As faculdades de arquitetura estão educando as próximas gerações de arquitetos e designers. Assim, nós temos que tentar fornecer a eles o que precisam para se dedicarem a um futuro ainda desconhecido e que eles, esperamos, poderão dar forma de novas maneiras. Então, eu penso que é exatamente o inverso do que sua pergunta sugere: idealmente, universidades não estão atrás do mundo, que está se movendo muito rápido. Ao invés disso, elas estão à frente com relação às perguntas e desafios que fazem para seus alunos. Esta é a grande aspiração e, enquanto nós certamente não somos sempre bem-sucedidos, como educadores, é isso que deveríamos aspirar a fazer, eu acredito.

Foto: Elizabeth Felicella

Por outro lado, justamente, nós sabemos e reconhecemos que a universidade é o lugar onde a inovação nasce. Como reforçar a conexão entre esses dois mundos?

O ensino de Arquitetura é muito interessante porque é baseado em projeto e estúdio – é tudo muito “mão na massa” e enquanto questões podem ser bastante especulativas, estudantes recebem locais, programas, contextos, etc., para se envolver com. Dessa forma, eu penso que há uma forte possibilidade de conectar a questões e preocupações reais, lá fora, no mundo, sem limitar as possibilidades de avançar novas ideias sobre o campo e seu potencial.

Como e quando você conheceu o mundo da Arquitetura e do Design? O que mais aprecia nesta profissão?

Meu pai é pintor e arquiteto. Eu cresci na Arábia Saudita onde ele estava experimentando com novos tipos de construção – e eu estava frequentemente em locais de construção e o assistia entrar em competições. Minha mãe é uma excelente fotógrafa amadora. Juntos, eles sempre se envolveram com arte e design, indo a museus, e foram muito apaixonados por viver uma vida cercada por coisas bonitas e se importar com o meio ambiente. Eu devo a eles muito por terem compartilhado essa paixão comigo.

***

Confira as demais entrevistas do Especial Arquitetura: Substantivo Feminino.

*Especial para Gazeta do Povo

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