Antonina conclui obras de restauro da estação ferroviária e igreja com mais de 150 anos

Com as obras, linha turística do trecho ferroviário entre Antonina e Morretes volta a funcionar dia 22 de dezembro

Fotos: Karina Pizzini

por Karina Pizzini*

02/11/2019

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Nas escadarias que dão acesso à estação, o coral se apresenta com a classe que remete à década de 20 ou 30. Luvas, laços, pérolas e vestidos de uma única cor, ternos e chapéus contrastam com o amarelo da nova fachada da Estação Ferroviária de Antonina. A cidade se reúne na praça para ver o coral, a banda da cidade e presenciar a entrega das obras de restauração da Estação e da Igreja Senhor Bom Jesus do Saivá, tombados como Patrimônio Cultural Brasileiro. Entre a nostalgia e as expectativas para o futuro, os capelistas acompanharam, na última quinta-feira (31), a cerimônia de entrega das obras com esperança de ver o trem voltar à cidade.

Fotos: Karina Pizzini

Dona Tereza Santos Rocha, de 71 anos, não vê o trem passar por Antonina desde a década de 1970. A memória dos passeios de trem com o pai, que era maquinista, alimentam sua esperança de reviver esses momentos na cidade. “Lembro da minha mãe fazer uma roupa nova para passearmos de Maria Fumaça e ela ficou toda furadinha com a faísca depois”, conta relembrando a sua animação em passear de trem com a família. Tereza recorda da infância com nostalgia, mas se anima em pensar que a reativação da estação trará um futuro mais turístico à cidade.

Fotos: Karina Pizzini

A Estação de Antonina está ligada à história ferroviária do Paraná, iniciada com a inauguração do trecho Curitiba-Paranaguá, em 1885. A construção em estilo eclético ocorreu em 1916, após o incêndio que destruiu a antiga estrutura em madeira. Segundo a chefe da divisão técnica do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan-PR), Anna Eliza Finger, a obra foi integralmente de conservação.

O diretor da Associação Brasileira de Preservação Ferroviária Regional do Paraná (ABPF), João Luís Teixeira, conta que os capelistas voltarão a ver a Maria Fumaça na estação ferroviária da cidade ainda em 2019. Ele espera que a primeira aparição seja em dezembro com o trem temático de Natal. Ainda de acordo com Teixeira, o trecho contará com uma locomotiva original de 1884, reformada pela ABPF, em Curitiba. “Ela conta a história do Paraná, já que foi a primeira Maria Fumaça a entrar em operação”, afirma.

Fotos: Karina Pizzini

Segundo o Iphan, a previsão é que a linha turística do trecho de 14 km entre Antonina e Morretes ocorra no dia 22 de dezembro. “Se a estação não estivesse restaurada, provavelmente não seria possível viabilizar o retorno do trem. Há muita expectativa da comunidade sobre o trem”, reforça Anna.

Desde 2003, o edifício da ferroviária abriga alguns órgãos da Prefeitura Municipal de Antonina e desde 2017 estava fechada para visitação devido às obras. Com um investimento de R$ 1,4 milhão, o restauro contemplou a troca do telhado por um sistema de telhas metálicas térmicas, a substituição dos sistemas elétricos e eletrônicos, a reforma geral dos banheiros e sistemas hidráulicos e a restauração total das esquadrias de madeira.

Fotos: Karina Pizzini

Igreja Senhor Bom Jesus do Saivá de Antonina

Dona Nisamar Finkensieper Sbrissia se considera capelista, mesmo não tendo nascido em Antonina, para onde se mudou com a família ainda muito pequena. Ela e a Dona Vera Maria de Oliveira Ribas podem ser consideradas guardiãs da Igreja Senhor Bom Jesus do Saivá e já estavam com saudades de frequentar a igreja como de costume. A restauração do local começou em maio de 2018 e desde então funcionava de maneira precária e com missas esporádicas.

Para ambas, mais do que ter a segunda casa aberta novamente, a igreja restaurada é importante para se valorizar a religiosidade que ela representa e a história que carrega. “A conscientização é muito falada, mas não é praticada. Tem que educar as crianças para mostrar a importância da fé e da religião”, diz Dona Nisamar. “Agora eu quero a conservação, não adianta restaurar e não preservar”, complementa Dona Vera.

Fotos: Karina Pizzini

Tombada pelo Iphan em 2012, a Igreja guarda a tradição das capelas luso-brasileiras coloniais, construída de alvenaria de pedra e com ornamentação austera. A execução da obra contou com recursos de R$ 1,5 milhão para a substituição do telhado, todo sistema elétrico e hidráulico, nova pintura e iluminação cenográfica. Com a conclusão da obra, a imagem setentista original talhada em madeira do Senhor Bom Jesus do Saivá retorna ao local.

Fotos: Karina Pizzini

Comunidade

A obra contou com a participação direta da comunidade, que doou telhas cerâmicas tipo colonial, colocadas na parte de cima da Igreja. Agora, os fieis, juntamente com o padre, se reúnem para arrecadar verba para a restauração do altar. O balconista José Gilson Almeida, morador de Antonina há dez anos, conta que desde o início das obras de restauro houve uma mobilização de moradores e comerciantes para revitalizar a cidade. “As obras incentivaram os moradores a pintarem suas casas e comércios, no sentido de melhorar a cidade e deixá-la mais bonita”, diz.

Fotos: Karina Pizzini

Segundo a presidente do Iphan, Kátia Bogéa, o tombamento de patrimônios culturais e históricos pelo Iphan, em âmbito federal, projeta essas pequenas cidades a um patamar de importância nacional para a cultura brasileira. “É perceptível nessa comunidade a esperança depositada no seu patrimônio cultural como um elemento potencializador do desenvolvimento econômico local, e isso se reflete em um aumento da autoestima dos moradores, que hoje olham para seu patrimônio com um maior orgulho”, diz.

Armazém Macedo

O Conjunto Histórico e Paisagístico de Antonina, tombado pelo Iphan em 2012, conta com oito intervenções em bens tombados com previsão de recursos do Governo Federal de R$ 16,9 milhões. Até o momento já foram investidos R$ 5 milhões. As obras fazem parte do PAC Cidades Históricas, iniciativa do governo federal de 2013. Entre os projetos que aderiram ao programa está a restauração do Armazém Macedo, construído quando a erva mate era o principal produto de exportação do Paraná e Antonina tinha o posto de maior movimento nesta atividade.

Fotos: Karina Pizzini

Além das duas obras entregues, e da restauração do Armazém Macedo, ainda estão em etapas preparatórias: a restauração da Fonte da Laranjeira e requalificação do Largo da Fonte e entorno; restauração do Santuário de Nossa Senhora do Pilar e requalificação do entorno; restauração da Fonte da Carioca e requalificação do Largo da Carioca e entorno; a restauração do Sobrado da Prefeitura Municipal e anexo; além da restauração da Igreja São Benedito e requalificação do entorno.

*Especial para a Gazeta do Povo.

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