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Arquiteto ganha prêmio nacional com projeto de abertura e requalificação de cemitério
| Foto: Murilo Rodrigues/Divulgação

Qual a função de um muro? De bate-pronto, evitar a passagem das pessoas. Correto? Mas e quando ele não funciona, mesmo tendo mais de 5 metros de altura? Essa foi uma das questões que levaram o então estudante de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR), Murilo Rodrigues, a se debruçar sobre a requalificação do Cemitério Municipal São Francisco de Paula, no bairro São Francisco. Com a proposta de revitalização, o Trabalho de Conclusão de Curso de Rodrigues venceu a 4ª edição do Prêmio Rosa Kliass, da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas. A orientação foi de Armando Luis Yoshio Ito e Giceli Portela.

Os muros que delimitam o cemitério variam de 1,2 metro a 5,5 metros de altura, e mesmo assim não inibem o vandalismo. "A quantidade de depredação é tão grande que os guardas do local desistiram de notificar a Prefeitura sobre todos os casos. Se não, eles passariam o dia fazendo isso", conta o hoje arquiteto formado, provando que, portanto, os muros não cumprem com sua função. "E pior: as pessoas evitam olhar para ele. E quando se para de olhar, o local se torna perigoso justamente porque não tem ninguém olhando. Se tem o olhar, esse espaço vai se tornar seguro", sentencia.

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| Murilo Rodrigues/Divulgação

A primeira sugestão do arquiteto foi então inverter essa lógica do muramento e abrir o cemitério para o resto da cidade, a fim de que haja um diálogo com o entorno, com a Praça do Gaúcho, os bares e outros empreendimentos da região. "A ideia é transformar esse espaço que já é lindo em um lugar lindo aberto, para que todos possam apreciar suas construções, a arquitetura, as esculturas e a história das personalidades que viveram em Curitiba e que hoje estão enterradas ali", defende Rodrigues, justificando que isso aproximaria o patrimônio encontrado ali do dia a dia das pessoas.

E isso ajudaria a desmistificar o tabu em torno da morte. "Precisamos nos sensibilizar e falar sobre o tema", diz o arquiteto. Assim, espaços de permanência com bancos e mais árvores seriam ideais para trazer mais movimento, contemplação e infraestrutura para o cemitério.

| Murilo Rodrigues/Divulgação

"Eu me emocionei com muitas histórias de pessoas que vão visitar parentes próximos com frequência e que já deixam banquinhos de madeira lá mesmo", exemplifica o autor do projeto.

Além disso, Rodrigues descobriu que o atual edifício de autoria do arquiteto Fernando Popp, da década de 1990, por mais que tenha qualidade arquitetônica e dialogue com as construções modernas da época, perdeu sensibilidade. "Fui olhar o projeto original e ele é riquíssimo, com muita emoção. Mas em algum momento entre a concepção e a execução isso se perdeu", conclui.

| Murilo Rodrigues/Divulgação

Por isso, Rodrigues propôs um novo edifício de concreto que fomenta as emoções por meio de luz, sombra e texturas, com novas áreas para os velórios, novos espaços administrativos, entre outros.

| Murilo Rodrigues/Divulgação

"Apliquei nesse estudo o urbanismo das cidades para dentro do cemitério, como se ele fosse uma metrópole. E dessa forma foi possível conceber respostas e soluções precisas para cada área do cemitério", pontua. Um dos melhores exemplos é o portal de entrada, que lembra uma casca de concreto pré-moldado com abertura zenital (para luz natural) e estimula um passeio arquitetural, uma promenade, que remete ao rito de passagem. "E a parte de drenagem, com vegetação menos densa de baixa manutenção e árvores específicas que não danifiquem os túmulos e o piso, as calçadas equalizadas, ampliação das vias", lembra.

| Murilo Rodrigues/Divulgação

Questionado sobre a viabilidade do projeto, Rodrigues afirma que, para a Prefeitura de Curitiba em específico, a nova construção em concreto não seria financeiramente exequível. "Mas a parte de paisagismo, derrubada dos muros e instalação de columbários [câmaras para restos de cremação] é totalmente viável. Isso possibilitaria que o cemitério continuasse ativo por décadas."

"Eu respeito muito o sentimento das pessoas. De forma alguma quero desrespeitar. Mas acho que o cemitério pode ser mais que um espaço de dor. Acredito na emoção dos espaços, em uma obra que vai tocar teu coração e esmagar tua alma", completa.

Veja mais imagens do projeto de requalificação do cemitério:

| Murilo Rodrigues/Divulgação
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