Arquitetos curitibanos ‘atualizam’ Le Corbusier para cenário brasileiro contemporâneo em mostra no MON

Releituras integram a exposição "Experimentando Le Corbusier", em cartaz até 11 de agosto

Releitura do Aleph Zero está logo à entrada da exposição. Foto: Felipe dos Anjos

por Aléxia Saraiva

15/05/2019

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O legado de Le Corbusier ao modernismo é uma das bíblias arquitetônicas, e tanto já influenciou diretamente outros grandes arquitetos — como é o caso do vencedor do Pritzker 2018, o indiano Balkrishna Doshi — como ganha ressignificações fluidas em trabalhos contemporâneos.

A tentativa de trazer essas releituras para um contexto brasileiro contemporâneo é o mote da exposição “Experimentando Le Corbusier – Interpretações Contemporâneas do Modernismo”, em exibição no Museu Oscar Niemeyer (MON) até o dia 11 de agosto. Arquitetos e artistas foram convidados a ressignificar a obra deste cânone arquitetônico extrapolando formatos e linguagens, e dialogando com as necessidades urbanísticas atuais.

“Isso é mostrar-se fiel à lição do arquiteto: não repetir nem imitar o passado, como se ele nos desse respostas prontas, não considerá-lo simples documento histórico, mas apoiar-se nos momentos notáveis, a fim de criar e inventar soluções para o mundo de hoje”, afirma o texto curatorial.

Cinco escritórios e arquitetos curitibanos integram essa mostra: Fernando Canalli, Estúdio 41, Arquea Arquitetos, Saboia + Ruiz e Aleph Zero. Além deles, outros profissionais também integram a exposição, como Guto Requena, Gabriel Ranieri, FGMF e Metro Arquitetura. A mostra tem curadoria de Pierre Colnet e Hadrien Lelong, da Cremme – Editora de Mobiliário, através do Instituto Cremme.

HAUS apresenta as releituras curitibanas como um aperitivo e um convite a visitar a mostra completa. Confira:

Fernando Canalli

A obra do arquiteto Fernando Canalli imprime, na seda pura, uma releitura da Capela Notre-Dame-du-Haut, famosa obra de Le Corbusier. O desenho, feito à mão com caneta preta sobre papel, foi digitalizado e resultou em um foulard (lenço de seda pura). A fluidez do traço, associada à leveza da seda, inspiram o movimento da obra.

Foto: divulgação

Segundo o arquiteto, o foulard “permite que arquitetura e arte se tornem um elemento de identidade de uso cotidiano e representem a nossa busca incessante por símbolos, autenticidade e individualidade”.

Este trabalhou derivou de um projeto desenvolvido pelo profissional junto ao Instituto Cremme, em que trabalha com fios de seda italianos e tecidos em Maringá.

Capela Notre-Dame-du-Haut, localizada na colina de Bourlémont em Ronchamp em Haute-Saône, França. Foto: reprodução

Arquea Arquitetos

O escritório Arquea trabalhou a ideia de verticalização e densidade propostas por Le Corbusier. Elas permitiram que, na crise habitacional do início do século 20, mais pessoas pudessem viver na mesma área — e, verticalizando, cria-se mais espaços livres.

A proposta dos arquitetos para a exposição trabalhou o conceito de proporção em duas dimensões, apresentando 600 blocos organizados de maneiras distintas. Metade ficam no chão, espalhados, ocupando 4 m². A outra metade compõem um pequeno bloco na parede.

Foto: divulgação

“Aprendemos assim a comprimir para descomprimir, organizar para bagunçar, adensar para libertar. Praticamos isso o tempo todo dentro de um escritório de arquitetura. É possível observar esta lógica na nossa produção em diversas escalas de projeto”.

As peças da parede, que representam o contemporâneo, são feitas em madeira — em oposição às do chão, em concreto —, sugerindo novas práticas sustentáveis.

Estúdio 41

Como seria uma estrutura arquitetônica e urbanística de Le Corbusier em Curitiba? O Estúdio 41 busca responder essa pergunta com base no projeto do arquiteto para o Plano do Rio de Janeiro, no início dos anos 1930, com a ideia de que diversos bairros da cidade seriam cortados por um tipo de “edifício auto-estrada linear”. Ele dialoga com as propostas de Corbusier para outras cidades da América Latina, como Montevidéu e São Paulo.

Para criar uma recontextualização com sobreposição e escala, os arquitetos curitibanos trouxeram diferentes elementos gráficos e uma maquete, que propõem uma crítica tanto ao movimento moderno na América Latina como do próprio desenvolvimento urbano de Curitiba.

“Essa crítica se estenderia também ao eurocentrismo ao qual esses países constantemente estão subjugados. Além disso, abre-se a possibilidade de questionar o mito de Curitiba como cidade modelo de planejamento, em crise atualmente, além do papel assumido pelo mercado imobiliário no desenvolvimento de nossas metrópoles”, explicam, no memorial do projeto.

Saboia + Ruiz

Foto: Felipe dos Anjos

A obra “Uma janela ao homem”, do escritório Saboia + Ruiz, é uma tentativa dos arquitetos de criarem um relicário, através da reprodução de pertences pessoais de Le Corbusier. Que objetos poderiam representar o homem por trás da obra? As referências foram buscadas na própria Fondation Le Corbusier, na qual encontraram registros de 73 pedras, 27 galhos, 57 conchas e 18 ossos que pertenciam a ele.

Foto: Alexandre Ruiz

“Le Corbusier se extasiava com as vistas. Nas suas visitas ao Brasil ele emoldurou as paisagens naturais do Rio de Janeiro em seus expressivos croquis. Aqui resolvemos inverter esta lógica. A partir de seu olhar e de seus registros, tentamos emoldurar o arquiteto estrangeiro: a origem de suas ideias e, consequentemente, parte de seu legado ao processo criativo da Arquitetura Moderna Brasileira. Criamos uma janela ao homem, ou seria um relicário?”, questionam.

Aleph Zero

Releitura do Aleph Zero está logo à entrada da exposição. Foto: Felipe dos Anjos

O escritório curitibano (com sede em São Paulo) Aleph Zero buscou uma sobreposição de imagens que representam instantes diferentes do tempo: o que era visto nos primeiros registros do Brasil para o mundo? E o que era visto pelo homem moderno que representava a figura de Le Corbusier? Como a arquitetura contemporânea brasileira se encaixa no meio desses diferentes olhares? É esse hibridismo que dá resultado à releitura dos arquitetos.

“Quando Le Corbusier veio pra cá, ele trouxe conhecimentos de como fazer ou pensar a cidade e a sociedade. Como a ideia desse homem moderno no nosso contexto se sobrepôs ao que era uma exuberância natural? Por mais que aconteça essa conversa, ela nunca foi muito bem feita”, explica Gustavo Utrabo, sócio do escritório. “É uma crítica de pensar que a arquitetura não é imposta de cima para baixo, mas que precisa entender o contexto que existe. O papel do arquiteto é o de mediador”.

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