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A Casa de Pedra, símbolo do Batel.
| Foto: Rodrigo Pierrot/ Gazeta do Povo

Não é exagero algum dizer que ali na esquina das alamedas Dom Pedro II e Presidente Taunay está um dos símbolos mais amados da paisagem do Batel. É a Casa de Pedra, como ficou popularmente conhecido o casarão em Curitiba. O imóvel com cara de chalé inglês tem 900 m², o que o torna imponente o suficiente para chamar atenção, e área verde de 2 mil m² que abraça a residência assegura que o lugar não passe despercebido.

Para os olhos mais atentos, ainda guarda um segredo místico. Seus portões de madeira maciça originais da década de 1930 são entalhados com centenas de estrelas de oito pontas. O símbolo aparece em diversas culturas, da China à história do Islã. É batizado de Estrela de Ishtar ou Estrela de Vênus, em referência a uma antiga deusa assíria; Estrela de Lakshmi, para os hindus; e, na cultura cristã, simboliza a Virgem Maria, como explica trabalho de História da Arte de Lizângela Guerra sobre a gênese da estrela de oito pontas, na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

  • Os portões de madeira maciça originais da década de 1930 são entalhados com centenas de estrelas de oito ponta.
  • Nos fundos da casa, área verde de 2 mil m² engrandece ainda mais a importância da construção.
  • Casa foi projetada por um dos principais escritórios brasileiros de arquitetura da década de 1930.

Lembranças

Nada disso, porém, torna a casa mais especial do que as reminiscências que a psicóloga Paula de Macedo Ferraz de Campos, 51 anos, e sua família guardam na memória. “Até os 14 anos eu praticamente morava na casa”, confidencia Paula, que, junto com sua irmã, Ana Carolina Ferraz de Campos Bolduan, e seu pai, o ex-governador do Paraná João Elísio Ferraz de Campos, são os atuais proprietários do local. “Eu morava em um prédio próximo, mas todos os dias ia até o casarão, que pertencia a minha avó e minha bisavó. Depois da escola, na época o Sion, eu e minha irmã passávamos o dia lá, brincando em uma casinha de boneca que existia no jardim, subindo em árvore, tocando piano”, relembra a psicóloga. “Era também o lugar que a gente passava as férias, fazia os aniversários e comemorava festividades importantes, como o Natal, por exemplo.”

E foi lá que a bisavó topou ficar com a primeira cachorrinha de Paula, a guapeca Suzie, toda preto e branco, uma vez que o bichinho não poderia viver no apartamento da família. “A gente costuma falar que o imóvel não é Unidade de Interesse de Preservação (UIP) nem tombado como patrimônio pelo estado, mas é tombado pela família. Enquanto a gente estiver aqui, o imóvel não está à venda”, conta Paula. Principalmente devido ao terreno abundante, toda semana a residência recebe ofertas de compra, como confirma a imobiliária Ouro Verde, que atualmente administra o imóvel.

Arquitetura de transição

A casa foi mandada construir por Oreste Códega, um industrial e madeireiro nascido em 1881, em Sondrio, na região da Lombardia, na Itália, mas que ainda criança veio para o Brasil com sua família e radicou-se em Curitiba. O projeto foi criado pela famosa firma de engenharia Freire & Sodré, do Rio de Janeiro, e foi executado de 1936 a 1938 por Eduardo Fernando Chaves, um dos grandes construtores da região da capital paranaense na época, segundo entrevista do marchand Waldir Simões de Assis Filho, em 1994, com as proprietárias da época, Zelinda Códega Woiski e sua filha Rosy Woiski de Leão Macedo.

De acordo com a arquiteta Letícia Nardi, o edifício é um exemplar do período de transição do ecletismo para o modernismo. “Você não vê elementos decorativos pesados, como seria de esperar de uma construção eclética, e nem uma arquitetura limpa, característica dos modernos”, esclarece a especialista responsável por atualizar o inventário do patrimônio cultural edificado da Região Metropolitana de Curitiba, e que foi chamada pela reportagem para avaliar a arquitetura da casa.

“Esse tipo de arquitetura transitória atualmente está no limbo dos estudos sobre patrimônio, por isso não sabemos muito sobre ela”, informa. Apesar de ser apelidada de Casa de Pedra, o casarão não é estruturalmente de pedra. Os granitos e pedras de cantaria em sua fachada são meramente decorativos. Da época, sobrevivem ainda na casa os vitrais em estilo floral dos banheiros, executados por uma empresa de São Paulo com vidros da Bélgica e da França, os pisos de madeira nobre, e lustres e lanternas em ferro batido feitos por Raphael Pacce, no Rio de Janeiro.

  • Os vitrais em estilo floral dos banheiros foram executados por uma empresa de São Paulo com vidros da Bélgica e da França.
  • No interior, pisos de madeira nobre da construção original.
  • Os granitos e pedras de cantaria em sua fachada são meramente decorativos.

Galeria de arte

Os descendentes do construtor da casa ocuparam-na até o ano de 1979, quando passou a ser alugada para empresas de diversos setores comerciais. A mais longeva foram as galerias Simões de Assis e SIM, que por 26 anos fizeram da Casa de Pedra sua casa. “Em 1994 inauguramos a galeria com a presença de destacados artistas plásticos, como Arcangelo Ianelli, Tomie Ohtake, Juarez Machado e Carlos Bracher”, conta o galerista.

Agora, a galeria deixa a Casa de Pedra para inaugurar seu próprio espaço na Alameda Dr. Carlos de Carvalho, em frente ao Angeloni, com projeto assinado pelo escritório curitibano Arquea Arquitetos. “A Casa de Pedra nos acolheu maravilhosamente durante muito tempo. Mas decidimos aproveitar a pandemia para buscar algo mais contemporâneo, com mais leveza, e que permitisse termos obras maiores, o que demanda um pé-direito ainda maior e que na casa não havia possibilidade de mexer”, frisa Assis.

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