Autoridade mundial em patrimônio é substituída por cinegrafista no comando do Iphan-MG

Considerada uma das mães do patrimônio imaterial brasileiro, Célia Corsino foi afastada para dar lugar ao jornalista Jeyson Dias, da Câmara de Juiz de Fora

Igreja Matriz de Ouro Preto. Foto: André Macieira/Iphan/Divulgação

por Luan Galani*

27/09/2019

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Funcionária de carreira do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1974, a museóloga Célia Corsino foi exonerada do comando da superintendência do Iphan de Minas Gerais (Iphan-MG), um dos mais importantes do país, já que o estado concentra 60% dos bens tombados pelo instituto, conforme publicação no Diário Oficial da União na última quarta-feira (25).

Em seu lugar, por nomeação do ministro do governo federal, Osmar Terra, da pasta da Cidadania, entrará o jornalista Jeyson Dias Cabral da Silva, que é cinegrafista da Câmara Municipal de Juiz de Fora, e já atuou como assessor legislativo do ex-vereador e hoje deputado federal Charlles Evangelista (PSL).

A alteração na direção do Iphan-MG , que acontece após mudanças polêmicas em outras quatro superintendências do instituto pelo Brasil, gerou perplexidade em diversas entidades da área do patrimônio e políticos do estado pela falta de conhecimento técnico do novo indicado.

Painel de Portinari para a Igreja de São Francisco de Assis, na Pampulha, em Belo Horizonte. A mudança no cargo acontece poucos dias antes da reabertura da igreja, que foi restaurada graças a esforços de Célia Corsino. Foto: Prefeitura de Belo Horizonte/Divulgação

Caráter técnico do cargo

Segundo os arquivos digitais do Iphan, Célia possui graduação em Museologia pelo Museu Histórico Nacional (1973), especialização em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdades Integradas Estácio de Sá (1985) e especialização em Administração de Projetos Culturais pelo Fundação Getúlio Vargas (1986). Foi por duas vezes diretora de identificação e documentação do Iphan nacional (1996-2002) e atualmente também é funcionária da Pontifícia Universidade Católica de Goiás.

O novo superintendente é graduado em Jornalismo, já foi assessor de um vereador de Juiz de Fora e cinegrafista da casa legislativa.

Preocupados com a troca no comando, os prefeitos de Diamantina (Juscelino Roque, do PMDB), Congonhas (Zelinho, do PSDB) e Ouro Preto (Júlio Pimenta, do PMDB) enviaram cartas ao ministro Osmar Terra pedindo a permanência de Célia na superintendência. As três cidades gozam do status de patrimônio da humanidade pela Unesco.

O centro histórico de Diamantina (MG) está localizado na encosta do lado oposto da Serra dos Cristais. Foto: Iphan/Divulgação

Procurada pela reportagem para comentar a dança das cadeiras no Iphan-MG, o governo de Minas Gerais de Romeu Zema (Novo) respondeu por meio da assessoria de comunicação que “por ser o Iphan uma autarquia  do Governo Federal, não cabe ao Governo de Minas tecer comentários a respeito do tema.”

Célia também foi contatada por HAUS, mas preferiu não comentar.

O jornalista indicado ao comando do Iphan-MG também foi procurado por meio da assessoria de comunicação da Câmara Municipal de Juiz de Fora no início da tarde desta quinta-feira (26), mas até o fechamento desta reportagem nesta sexta-feira (27) Jeyson Dias Cabral da Silva não havia respondido.

O Ministério da Cidadania também não respondeu às inúmeras tentativas de contato de HAUS.

Igreja de São Francisco de Assis na cidade de São João del-Rei. Foto: Iphan/Divulgação

Mãe do patrimônio imaterial brasileiro

Célia é considerada autoridade mundial em patrimônio por todo o seu histórico, mas principalmente por ter ajudado a criar o Registro dos Bens Culturais de Natureza Imaterial, o Programa Nacional do Patrimônio Imaterial, ambos datados de 2000, e o primeiro museu brasileiro de patrimônio imaterial em uma antiga estação ferroviária de Belo Horizonte, como lembra o renomado arquiteto carioca Cyro Lyra, 81 anos, que até hoje atua no patrimônio por todo o Brasil.

“As pessoas não precisam ser arquitetas para lidar com patrimônio. Mas não podem ser tecnicamente despreparadas. Veja a atual presidente do Iphan, por exemplo, a Kátia Bogéa. É historiadora, educadora, com muita sensibilidade ao patrimônio e conhecida pela educação patrimonial que semeou no Maranhão”, defende Lyra. “Mas isso não se adquire da noite para o dia. O conhecimento técnico se forma ao longo da vida. É básico! Minas Gerais perde muito sem ela.”

*Com informações de Aléxia Saraiva.

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