Balada com alma de fábrica: antiga produção de tradicional marca paranaense ganha sobrevida

Galpão da antiga fábrica do Café Damasco, na BR-277, é transformado em casa noturna que homenageia primeiras festas de música eletrônica em Londres e mantém viva a história do espaço

Fachada da fábrica do Café Damasco em novembro de 2010. Foto: Valterci Santos / Arquivo / Gazeta do Povo.

por Vivian Faria*

22/07/2019

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Onde antes se produzia café agora oferece-se entretenimento: desde o dia 12 de julho, o galpão da antiga fábrica do Café Damasco, na BR277, no local em que há dez anos funcionava a torra, a moagem e o empacotamento dos produtos da empresa, abriga oficialmente o Clube Inbox, um complexo que conta com bar de drinks e uma casa noturna focada em música eletrônica – além de um container de operação gastronômica na parte externa.

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Clube Inbox: preservação de estrutura e do mobiliário guardam a memória da fábrica. Foto: João Neto / Zooe Cwb / Divulgação

Pensada para homenagear as primeiras festas de música eletrônica que aconteciam em Londres nos anos 1980 e 1990, as quais tinham como palco prédios e galpões abandonados, a balada não exigiu a descaracterização do espaço. “A divisão física da fábrica continua exatamente a mesma. Onde hoje é o lounge, o café era torrado e moído. A parte da pista é onde ele era embalado e enviado para distribuição”, conta uma das responsáveis pelo conceito do negócio, Marina Schondermark.

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Além disso, nenhuma grande alteração foi feita na estrutura da edificação.  As principais mudanças foram o isolamento acústico do espaço que abriga a pista de dança, a inclusão de banheiros no local, a construção dos bares do lounge e da pista a partir de blocos de concreto, a implantação de portas corta-fogo e a atualização dos sistemas elétrico e hidráulico.

Foto: João Neto / Zooe Cwb / Divulgação

“Mas deixamos o pé-direito, o teto da fábrica, com exaustores e luminárias pendentes, e não quebramos parede para mexer na fiação: fizemos tudo em tubo externo preto”, conta a designer de interiores Gabriella Dinnies, que ajudou Marina. Os portões que separam o bar da pista e a pista do fumódromo também foram mantidos.

Para completar a ambientação, os responsáveis pelo local apostaram em um novo sistema de iluminação, no uso de móveis em madeira e muitas plantas, e na contratação do artista Rodrigo Nickel para grafitar as paredes da pista e dos banheiros. Além de darem ao local o clima dos galpões abandonados das festas das décadas de 1980 e 1990, as imagens contam a história da house music.

Memória

O conceito também permitiu que outra vontade dos sócios, entre os quais está o neto de um dos fundadores do Café Damasco, fosse realizada: a de preservar um pouco da história do local.

“Como a fábrica tem uma memória afetiva, quisemos reaproveitar todos os móveis possíveis e toda essa carga”, explica Marina.

Para isso, ela e os sócios saíram para explorar todo o espaço que abrigava a antiga empresa, buscando móveis que pudessem ser reaproveitados.

Um dos grandes achados foram as cadeiras do antigo auditório do Café Damasco. “Lembro quando fomos lá e sentamos no auditório para conversar sobre o que poderíamos usar no clube, pensamos: ‘Essas cadeiras têm que estar lá’.

Detalhes na decoração trouxeram peças que lembram a antiga atividade do local. Foto: João Neto / Zooe Cwb / Divulgação

Não só pela memória afetiva, mas também pelo conforto”, conta. Ao todo, 13 cadeiras ganharam base – e vida – nova e agora abrigam os frequentadores do Clube Inbox.

Gabriella destaca também as estantes alocadas no lounge. “Encontramos em um depósito, onde tinha umas 90 estantes. Tivemos que dar uma limpadinha, mas elas estavam em bom estado. Adaptamos algumas prateleiras, deixando mais altas, para [armazenar] garrafas e nós mesmos pintamos algumas das estantes com spray”, diz.

Carretéis, pias, luminárias, latões de lixo com a marca Café Damasco e até cubas refrigeradas da própria fábrica também compõem o ambiente do Clube Inbox. “Tem uma parte onde era o refeitório ao lado do galpão e lá tinha as cubas refrigeradas, que serão usadas para gelo. Só tivemos que comprar as torneiras”, revela a designer.

Fotos e cafeteiras

Mesmo sem uma “aplicação prática” no novo negócio, alguns objetos da antiga fábrica também foram resgatados e incluídos na decoração da casa noturna, como fotos e cafeteiras do tipo coroa, que antigamente eram encontradas em muitos estabelecimentos, como restaurantes.

Caixa d’água foi mantida no novo uso da fábrica do Café Damasco. Foto: João Neto / Zooe Cwb / Divulgação

Caixa d’água

A caixa d’água da antiga fábrica, projetada pelo arquiteto Lineu Borges de Macedo e que se tornou ponto de referência para quem saia ou chegava da cidade, também foi mantida e serve como caixa d’água secundária do clube.

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*especial para a Gazeta do Povo

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