Com inspiração na Polinésia, bar no São Francisco tem a melhor decoração de Curitiba

Com um pé na Polinésia e referências modernas e bem brasileiras, Ananã foi eleito bar com a melhor ambientação no Prêmio Bom Gourmet 2018 por HAUS

O Ananã é um “oásis tropical” em meio ao cinza da Rua Inácio Lustosa. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

por Carolina Werneck

28/09/2018

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O bar com a melhor decoração de Curitiba é o Ananã, no São Francisco, especializado em coquetéis. O espaço, que é um pontinho azul e laranja na Inácio Lustosa, com arquibancada servindo às vezes de mobiliário e inspiração tiki com projeto assinado pelo Y Arquitetos, foi o vencedor do Prêmio Bom Gourmet 2018 por HAUS na categoria melhor ambientação de bar, que avaliou os empreendimentos gastronômicos abertos nos dois últimos anos.

De origem polinésia, a cultura tiki dominou o cenário dos bares americanos dos anos 1930 até os anos 1960. A ambientação desse tipo de estabelecimento traz referências à cultura do exótico polinésio. Para o Ananã, os arquitetos do Y reinterpretaram a essência tiki. “Como eles estavam fazendo uma tradução dos drinks para o Brasil, nosso cenário e nossa região, a gente fez uma tradução da arquitetura. Em vez de exaltar o exótico polinésio, a gente exalta o exótico brasileiro”, explica Lucas Issey, um dos sócios do escritório.

O Ananã está instalado em um ambiente retangular de 32 m². As características do ponto foram um dos desafios para a equipe do Y. Para criar um projeto original e que funcionasse na prática, eles precisaram desconstruir a ideia formatada de “bar”. Brunno Douat, estudante de arquitetura e colaborador do Y, conta que “em qualquer bar, há sempre um muro de pessoas entre os clientes e o bartender. Então a gente quis desmaterializar isso com a permanência sendo em uma arquibancada. O trabalho do bartender se torna um evento e as pessoas têm livre circulação em frente ao bar”.

O espaço reduzido obrigou os arquitetos a pensar uma nova solução para a permanência e circulação dos clientes. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo.

O espaço reduzido obrigou os arquitetos a pensar uma nova solução para a permanência e circulação dos clientes. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

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Respeitável público

A arquibancada, aliás, é um dos destaques do projeto. Foi construída com tijolos de barro produzidos em uma indústria paranaense e acompanha o desenho do balcão, no mesmo material. Mas essa não é uma arquibancada comum. “A gente não usou um desenho tradicional, a gente desconstruiu de um jeito que as pessoas não banalizassem o objeto. Ela traz oportunidades muito interessantes de interação. “, diz Pedro Sunye, sócio de Issey. O volume preza pela informalidade e casou perfeitamente com a proposta do Ananã. Para Karen Kaudy, 25 anos e uma das proprietárias do lugar, a experiência com a arquibancada tem sido um sucesso. “Vendo esse sistema funcionando, não consigo entender como um bar desses funcionaria em um formato tradicional, com mesas e cadeiras. Não faz mais sentido”, diverte-se.

Exibir o trabalho dos bartenders como um espetáculo é uma das formas de permitir que os visitantes se apropriem da arquitetura. Essa é uma característica comum nos projetos do Y. “Não precisamos explicar ‘olha, você pode usar ali’. As pessoas não tiveram esse estranhamento, essa dúvida. O estranhamento existe, mas é mais um convite para o uso”, comemora Douat. Andrew Guilherme, sócio de Karen, conta, rindo, que as pessoas param os carros no semáforo em frente ao bar, abaixam os vidros e gritam “o que funciona aí?”.

A arquibancada é o ponto central do projeto. Ela transforma o trabalho dos bartenders em um espetáculo a ser apreciado e ainda resolve o problema da permanência no bar. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

A arquibancada é o ponto central do projeto. Ela transforma o trabalho dos bartenders em um espetáculo a ser apreciado e ainda resolve o problema da permanência no bar. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

As referências da arquitetura conversam com as adotadas em toda a conceituação do bar. Guilherme avalia que “a questão do coquetel em Curitiba vem com uma carga muito formal. É aí que encaixamos toda a ideia tropical do bar, porque as pessoas querem ocupar a rua, querem menos formalidade”. Os donos contam que muitos dos clientes comentam o fato de a arquibancada lembrar suas adolescências sentados no meio-fio, conversando com os amigos. Ali, tudo foi pensado para transmitir essa sensação de familiaridade.

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Teto, luzes, paredes e pintura corporal

Entrar no Ananã é ser imediatamente tatuado pela iluminação do lugar. A experiência aproxima ainda mais o público do clima criado pela arquitetura no ambiente. O efeito de placas de compensado penduradas sob os spots de luz se derrama pelas paredes, pelo piso e, naturalmente, pela pele e pelas roupas das pessoas. Os arquitetos explicam que, na cultura tiki, todos os elementos têm significados. Por isso, o teto não poderia ser diferente. No bar, o teto tem não apenas significado, mas também uma função arquitetônica.

Issey conta que, quando o escritório começou a estudar o exótico brasileiro, “um fator que surgiu muito forte foi a questão gráfica das pinturas corporais indígenas”. Para entender melhor como elas funcionam, os profissionais do Y mergulharam na cultura indígena. A pesquisa os levou, inclusive, ao Museu de Arte Indígena (MAI) de Curitiba. Em todo o planeta, povos de diferentes origens utilizam a pintura corporal como representação de estados de espírito. Comemorações, lutas, danças e pedidos têm seus desenhos próprios. “Então a gente viu uma oportunidade gráfica muito interessante de pintar as pessoas com luz”, diz o arquiteto. Além das “tatuagens” de luz, a estrutura também dispensou o papel de paredes, já que elas estão banhadas pelos mesmos desenhos.

A iluminação chama a atenção dos frequentadores porque pinta as paredes e os próprios clientes com motivos de dança da tribo dos Karajás, que foram usados no teto. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

A iluminação chama a atenção dos frequentadores porque pinta as paredes e os próprios clientes com motivos de dança da tribo dos Karajás, que foram usados no teto. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

“Esse padrão é um motivo de dança da tribo Karajá. Foi uma preocupação nossa pesquisar um padrão que fosse mais festivo e usá-lo do jeito certo”, explica Sunye. “O que eu acho muito legal do teto é que, no tiki, a questão do teto é muito forte, muito maximalista. Então a gente consegue entender o volume criado aqui como uma estética tiki, mas não totalmente tiki, porque a gente também não é totalmente tiki”, avalia Karen, rindo. A ideia roubou a atenção dos frequentadores do bar, que se divertem tirando fotos e brincando com os ângulos proporcionados pela luz.

Uma Polinésia de significados

Foram dois meses de trabalho e mais dois meses para executar o projeto. Um período curto para um espaço em que cada detalhe tem uma razão de ser. Todo o desenvolvimento começou pela escolha dos tijolos artesanais. Eles foram usados na arquibancada de permanência e nos balcões do bar. Para dar contraste, as paredes foram pintadas com tinta epóxi azul clara. “O azul é exatamente a cor complementar do laranja, a cor que gera o maior contraste possível com os tijolos. E também tem a questão do conceito. Enquanto o tijolo é bem artesanal, a tinta azul é um material industrial, então rola essa mistura do contemporâneo com o tradicional”, diz Sunye.

Mais uma vez, como já é uma espécie de tradição do escritório, o projeto não usou sequer uma peça que fosse de catálogo. Cada item do mobiliário e da decoração foi especialmente desenhado para o bar. Para Issey, foi uma oportunidade de testar uma arquitetura “taylor made”, ou seja, feita sob medida. “A gente sabia que os bartenders seriam a Karen e o Andrew. O espaço de trabalho é projetado para a altura deles, para o alcance dos braços, para a metodologia de trabalho deles.” Isso foi possível visitando os locais em que os dois trabalhavam antes e entendendo o que precisaria ser mudado e o que poderia ser feito igual.

No Ananã, cada detalhe foi escolhido por uma razão. As plantas ajudam a completar a textura visual do restante do projeto. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

No Ananã, cada detalhe foi escolhido por uma razão. As plantas ajudam a completar a textura visual do restante do projeto. Foto: Leticia Akemi/Gazeta do Povo

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Plantas naturais dão o toque final às muitas texturas existentes no Ananã. Elas são usadas nos fundos do bar para criar volume e também servem de biombo para esconder a entrada do banheiro. “A ideia não foi criar uma floresta tropical, mas a textura que a planta tem é única. Você vê e existe um tato visual”, diz Issey. Para os meninos do Y, o resultado alcançado no Ananã é fruto de uma identificação entre o tipo de coquetelaria desenvolvida por Karen e Guilherme e a arquitetura feita pelo escritório. “Eles não executam receitas, eles as criam. A gente também não reproduz receitas arquitetônicas, mas tenta repensar os ingredientes e gerar uma solução única”, compara Sunye.

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