Casarão rosa ganha nova vida no coração de Curitiba; conheça sua história

Prédio antigo no Centro da cidade ganha destaque com restauro e levanta debate sobre cuidado com patrimônio histórico privado

Foto: Aléxia Saraiva/Gazeta do Povo

por Aléxia Saraiva

19/03/2018

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Um antigo casarão no centro de Curitiba estava enraizado na paisagem com um pálido tom de amarelo. Mas ao ganhar, recentemente, um novo cor-de-rosa — vermelho sedução, na cor oficial —, ele voltou a ser protagonista na esquina da Rua Emiliano Perneta com a Avenida Visconde de Nácar. Agora, a velocidade dos biarticulados contrasta com a dos pedestres que param, olham e atravessam a rua para admirar e fotografar o prédio. A cara nova, no entanto, não ficou só na cor: toda a fachada foi restaurada, e o interior, refeito.

Responsável pelo projeto do restauro, o arquiteto Claudio Maiolino explica que o estilo eclético do prédio remete à década de 1920. “Não é uma arquitetura que tem um sentido completo em si, ela é feita de misturas: capitel coríntio com elementos do renascimento e flor barroca”. Elementos prontos agrupados formaram esse estilo, encontrado também em palacetes no Batel.

Foto: Adriano Mendes da Rocha

Ao longo do tempo, a casa passou por diversas alterações que mudaram aspectos da fachada original. O arquiteto Luiz Fernando Vellasques, do escritório A-Projetar, foi o responsável pela execução da obra. “Junto ao IPPUC [Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba] foi feito um trabalho bem minucioso e manual, de raspagem, para resgatar as partes decorativas o máximo possível”, lembra. Os adornos externos foram reproduzidos com argamassa pronta.

Internamente, o prédio inaugura sete salas comerciais para locação. São 480 m² distribuídos em dois andares. A casa já teve uso residencial, mas há anos era ocupada por lojas e um restaurante na parte superior. O arquiteto explica que, por dentro, ela estava deteriorada, o que fez com que fosse necessário reconstruir sua estrutura. “Estava tudo bem danificado, correndo risco de colapso”, afirma.

Segundo Vellasques, a passagem do biarticulado na frente da edificação traz um transtorno estrutural grande pela idade da casa. “A gente teve que fazer um trabalho complexo. Foi elaborado um esqueleto embutido com estrutura metálica. Hoje ela consegue ter essa resistência estrutural sem problemas futuros, como trincas na fachada por conta da movimentação”. No interior, foram adotadas todas peças novas. “Não adiantava tentar copiar, porque ia ficar escandalosamente fora do padrão da época”, conta.

Foto: Hugo Harada/Gazeta do Povo

Atualmente, o dono do prédio é Woo Hin Lin, chinês naturalizado brasileiro que mora em Curitiba há 31 anos. Há sete ele é proprietário do casarão, e sempre foi do seu interesse restaurar a construção por causa do estado em que se encontrava a parte interna. Foram cerca de dois anos até que ele e Maiolino chegassem ao projeto final da casa. Já o restauro em si levou dez meses, tendo sido concluído em fevereiro deste ano. Os últimos detalhes ainda estão sendo finalizados na casa, como a instalação do elevador. Lin aguarda apenas o Certificado de Vistoria de Conclusão de Obra da Secretaria Municipal do Urbanismo para abrir as salas aos negócios.

Cuidado com o patrimônio

Ambos os arquitetos envolvidos na obra criticam a cultura brasileira do descuido com o patrimônio em imóveis particulares. Maiolino, que foi responsável por projetos de restauro como o da Santa Casa, explica que historicamente se criou um hábito de demolir construções antigas para darem lugar a edifícios economicamente mais rentáveis. É para ajudar a preservar esse tipo de patrimônio que o IPPUC concede uma redução no IPTU nos casos em que a edificação está conservada sob condições específicas — o que, no caso de Lin, é uma grande vantagem: no seu imóvel, o imposto total chega a R$ 8 mil mensais.

No entanto, essa compensação não é suficiente para criar a consciência da preservação. “O que chama mais atenção é a falta de cuidado com prédios históricos. [Os donos em geral] resolvem fazer intervenções sem referência técnica, com mão de obra de barata e sem qualificação para fazer esse tipo de restauro”, aponta Vellasques.

Maiolino explica que cada processo é difícil e requer muito diálogo para chegar a um acordo entre IPPUC e proprietário, já que normas de segurança são posteriores à construção de prédios como esse. “Ou você casa o edifício com nosso tempo fazendo com que ele seja útil à sociedade ou você vai condenar ele à morte por não ter uso”. Ele garante que todo o esforço é revertido em benefícios. “A valorização vem. O difícil é você fazer as pessoas entenderem isso”.

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