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Dia do idoso: casas bem planejadas reduzem em 40% acidentes domésticos; confira dicas

Soluções simples e atenção aos detalhes facilitam e tornam mais seguro o dia a dia das pessoas que chegam à terceira idade

Fotos: Rafael Renzo/Divulgação

por Sharon Abdalla

01/10/2018

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Levantar da cama, ir ao banheiro ou à cozinha durante a madrugada, alcançar a coberta guardada na prateleira mais alta do armário. Tarefas que parecem simples, e que fazemos quase que instintivamente diversas vezes ao dia, costumam se transformar em obstáculos quando atingimos a maturidade. Além da dificuldade de execução, elas ainda carregam o risco de provocar acidentes domésticos, que respondem por 70% das intercorrências que atingem as pessoas com mais de 60 anos, segundo dados do Ministério da Saúde.

Outro porcentual que chama atenção é o apresentado por um estudo realizado por profissionais da Universidade de São Paulo (USP) que aponta que 40% deles poderiam ser evitados caso as moradias fossem preparadas para receber e proporcionar conforto aos idosos. Mas, o que falta para que os imóveis possam responder às necessidades que passamos a ter quando atingimos a melhor idade?

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Fotos: Rafael Renzo/Divulgação

Na opinião da arquiteta Flávia Ranieri, uma mudança de cultura comportamental e a disposição para fazer da residência uma ‘casa inclusiva’. “O Brasil sempre foi um país muito jovem e, culturalmente, sempre tivemos o pensamento de que, [ao atingirem a melhor idade], os pais iriam para a casa dos filhos. Então, ninguém nunca olhou para a velhice. Agora, a população está envelhecendo mais e melhor, o que faz dos idosos pessoas ativas, que viajam e têm voz – e não mais os velhinhos que ficavam em casa sentados na poltrona”, explica a profissional, pós-graduada em Gerontologia pela Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein.

Projeto

À frente do escritório Grou, que oferece consultoria e projetos de arquitetura para idosos, Flávia levou para a Casa Cor São Paulo o Estúdio da Longevidade, um “apartamento” que apresenta em 45 m² um conjunto de soluções (das mais simples às mais elaboradas) que facilitam e tornam mais seguro o dia a dia das pessoas que já chegaram à melhor idade, ao mesmo tempo em que mantêm sua privacidade e independência.

A livre circulação entre os cômodos, sem excesso de móveis e objetos que possam dificultar a movimentação, está entre elas. “Desentulhar o caminho é o primeiro passo. Um exercício que auxilia neste processo é o de entrar em casa e circular pelos cômodos formando uma espécie de corredor imaginário. Ele deve estar completamente livre, sem fios, tapetes ou móveis baixos que possam obstruir o caminho”, sugere a arquiteta.

Fotos: Rafael Renzo/Divulgação

Reorganizar os armários (subindo ou descendo nas prateleiras os objetos utilizados com mais frequência), instalar barras de apoio no banheiro (tanto na área do vaso sanitário como na do chuveiro) e dar atenção à altura da cama são outras medidas facilmente adotadas. Flávia explica que não há uma medida padrão para a organização/instalação dos objetos, móveis e equipamentos, mas que ela deve corresponder à altura dos moradores e às suas necessidades particulares. Para a cama, por exemplo, o ideal é que, ao se sentar, a pessoa possa apoiar os pés no chão de forma que os joelhos formem um ângulo de 90º. Segundo a arquiteta, isso evita que o idoso precise se esforçar demais ou jogar o peso do corpo para se levantar, o que contribui para a perda do equilíbrio e, consequentemente, para as quedas.

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“A pessoa precisa ter uma conversa sincera consigo mesma, identificar quais são os seus hábitos e em que aspectos está tendo dificuldade, como cozinhar ou usar o banheiro. A partir disso, ela pode buscar soluções específicas para eles, além de investir mais nas direcionadas aos ambientes da casa que ela mais utiliza. Se uso muito o escritório, por exemplo, posso reforçar a iluminação e optar por uma cadeira com melhor ergonomia, na qual consiga permanecer por mais tempo de forma confortável”, ilustra.

O destaque dado aos objetos que fazem referência à memória afetiva dos moradores é outro ponto que merece atenção. Isso porque, segundo Flávia, eles proporcionam segurança emocional aos idosos e fazem com que eles se reconheçam naquele espaço, “transformando a casa em um lar”.

Tecnologia

Aliada da vida moderna, a tecnologia também contribui para trazer conforto e segurança aos idosos. No ambiente que Flávia assina na Casa Cor São Paulo, ela está presente em soluções como a fita de LED instalada no rodapé do armário. Acionada por sensor de movimento, ela funciona como iluminação noturna e indica o caminho da cama até o banheiro e a cozinha.

Fotos: Rafael Renzo/Divulgação

O fogão, por sua vez, foi ligado a um sistema de automação que, ao detectar fumaça e calor em excesso, liga as câmeras e emite um aviso ao morador e/ou demais pessoas cadastradas de que o eletrodoméstico foi esquecido ligado. As câmeras também permitem que os familiares visualizem à distância a rotina dos idosos (quando eles autorizam que isso aconteça) e, aliadas aos botões de pânico que podem ser espalhados pela casa ou a um colar com sensor de queda, avisam quando sofrerem algum acidente. Nestes casos, a automação ainda facilita o acesso dos socorristas ao imóvel, uma vez que o familiar consegue, mesmo à distância, destravar a fechadura eletrônica, fazendo com que a porta não precise ser arrombada.

“Muita gente que visita o espaço fala: ‘isso não é uma casa para idosos. É uma casa para mim’. E este é objetivo, não fazer da casa algo específico para os idosos, mas sim que inclua todas as pessoas. É uma casa com mais cuidado, que pode atender tanto uma pessoa da melhor idade como um jovem que quebrou a perna e precisa do auxílio de algum equipamento médico para se locomover, mesmo que temporariamente”, completa Flávia.

Preparação

Fotos: Rafael Renzo/Divulgação

Isso faz com que as preocupações em relação à qualidade espacial e estrutural da planta sejam levadas em consideração desde a juventude, pois o ideal é que na melhor idade o imóvel possa receber as soluções necessárias ao conforto e segurança sem que, para isso, seja necessária a realização de uma reforma de grande porte.

“A casa envelhece com você. Então, o ideal é que ela conte circulação ampla e portas com largura de 80 cm [que permitem a passagem de uma cadeira de rodas ou andador], por exemplo. Um armário você pode trocar com facilidade, mas eliminar uma parede para ampliar a circulação já é algo mais difícil de se realizar”, comenta Flávia.

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