“Faz concurso público de arquitetura ou é burro”, critica grande nome da habitação social no Brasil

O trabalho do arquiteto Gilson Paranhos, que está à frente da Companhia Habitacional do Distrito Federal desde 2015, é considerado um case de sucesso por aliar boas soluções de habitação social a concursos públicos de arquitetura

Foto: CAUPR/Reprodução

por Luan Galani

31/08/2018

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O arquiteto Gilson Paranhos, um dos grandes nomes da cruzada pela habitação social de qualidade no Brasil, não tem papas na língua. É admirado em todo o país pelo trabalho que tem desenvolvido especialmente a partir de 2015, quando assumiu a presidência da Companhia Habitacional do Distrito Federal (Codhab/DF), com soluções que aliam concursos públicos de arquitetura – que sempre buscam as melhores propostas para os problemas da cidade – à habitação de interesse social, um dos grandes gargalos brasileiros.

Paranhos esteve recentemente em Curitiba para audiência pública na Câmara de Vereadores para discutir a realização de concursos públicos de arquitetura na cidade e para palestrar durante o evento Arquitetura em Debate, a convite de políticos, instituições e escritórios de arquitetura.

Confira entrevista exclusiva que o arquiteto concedeu a HAUS!

Foto: Câmara Municipal de Curitiba/Reprodução

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Como é pensada essa relação da densidade habitacional dentro da Codhab/DF?

Essa é uma questão fundamental. Mas a gente não conta o que é densidade para a população. Nossa densidade lá é de 50 habitantes por hectare, no máximo 150. Em paris é de 450 habitantes por hectares. Precisamos contar o que isso quer dizer. Quando desenho Brasília, mostro que entre o plano piloto e Taguatinga, primeira cidade satélite, só naquele espaço cabe Manhattan. Faço um desenho e ali dentro cabe Paris, Barcelona. Então, como vai resolver mobilidade, educação e saúde depois? Não vamos resolver nunca. A densidade depende da área, mas esse espraiamento é seríssimo.

Nossas cidades estão muito ruins para deixar que os políticos façam como queiram. É importante ter essa consciência. Nas audiências públicas, nós arquitetos nos omitimos. Não contamos o equívoco que fazemos. Votamos no Plano Diretor que faz com que tenhamos densidade média de 34 habitantes por hectare. Estamos acabando com os pobres. Estamos destruindo os pobres. E essas normas nós é que fazemos. Não estamos submersos na realidade da periferia. Há quatro anos entrei no governo. Meu deus, eu tenho certeza absoluta, que a baixa renda de Brasília é causada pelas normas que nós fazemos. E fazemos que o pobre fique cada vez mais distante, não trazemos ele para dentro. Paulo Mendes da Rocha que brinca: ‘Vamos ocupar o Ministério das Cidades’ (risos).

Como foi a conversa com o Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba (Ippuc)?

Tenho que ser sincero com você. Acho que o Ippuc tem uma historia tão maravilhosa, e Curitiba tem uma história tão maravilhosa, que tá criando um problema para Curitiba e para o próprio Ippuc. Quando o Ippuc começou, era uma referência de planejamento. Hoje, me parece que o Ippuc se considera acima da média e se considera um grande instrumento de planejamento. Só que não tá planejando. No momento em que você se considera melhor que todos os outros, você começa a produzir projetos e esquece de fazer planejamento. Em uma cidade como Curitiba, precisa planejar, e isso precisa de profissionais. Para fazer a quantidade de projetos que eles fazem hoje, não conseguem planejar. Tem que escolher. Ou fazer um monte de projetos ou planejar.

Se o Ippuc for contaminado com a ideia dos concursos públicos de arquitetura, isso pode colocá-los em outro patamar. Não tenho dúvida que é necessária a produção de concurso público de projeto de arquitetura para que Curitiba volte a ser o que foi. Todos sabemos que o Ippuc e bem estar da cidade têm decaído de maneira absurda. É forte falar isso. Os profissionais são de altíssima qualidade, mas a soberba não faz bem para ninguém.

O Estúdio 41 Arquitetura ficou em primeiro lugar no concurso e irá desenvolver o projeto do bairro Pôr do Sol na periferia do Distrito Federal. Imagem: Estúdio 41 Arquitetura/Divulgação

Como se faz esse convencimento? Como você fez e faz em Brasília?

Tenho falado que as cirurgias estão sendo feitas sem os médicos. As cidades estão sendo gestadas sem os arquitetos. Não adianta. Os arquitetos estudam 30, 40 anos para fazer uma cidade. O resultados das nossas cidades são essas cidades que estamos vendo. Nosso produto final são as cidades. Os arquitetos tem que ir para cima e mostrar a que viemos. No momento que a sociedade entender isso, vai interferir violentamente nisso.

Mas e quem diz que isso é uma reserva de mercado dos arquitetos?

Para defender a cidade, tem que ter um arquiteto. É uma questão de inteligência. Sobre a questão de reserva de mercado, é claro que um arquiteto falando isso a pessoa tem todo direito de pensar que isso é reserva de mercado. Mas não é. Quem produz projetos são arquitetos. O concurso público de projeto, tendo concurso ou não tendo concurso, quem vai fazer as obras são arquitetos. É uma questão de inteligência para melhorar a qualidade das cidades.

E a solução do Minha Casa Minha Vida?

O Minha Casa Minha Vida não nasceu no Ministério das Cidades. Nasceu no Ministério do Planejamento e da Presidência da República. O Minha Casa Minha Vida não veio resolver o problema do déficit habitacional. Veio resolver o problema de um número de empreiteiras que precisavam rodar a economia do país. E rodou por um tempo. Mas agora tá de ponta cabeça. Números mostram que o déficit habitacional aumentou. Você não vai resolver isso com a proposta centralizadora do Minha Casa Minha Vida. Em Brasília, fizemos cinco eixos para começar a atender. É mais barato fazer aluguel legal de 12 mil unidades habitacionais porque você gasta só um terço do valor do que construir 12 mil unidades. Se fosse uma proposta do Ministério das Cidades, não seria centralizador assim. Nem sempre tem que produzir unidade habitacional do zero. Aluguel legal traz a baixa renda para o centro, ocupa vazios, é muito mais barato e atende com muito mais qualidade.

Imagem: MCA Arquitetura & Design/Divulgação

Projeto de unidades habitacionais coletivas Samambaia. Imagem: MCA Arquitetura/Divulgação

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Você costuma falar bastante do caminho da arquitetura e o potencial brasileiro para ajudar a construir o futuro da área. Pode explicar um pouco mais?

Acredito no arquiteto. Mas nosso maior potencial não foi explorado. Que é a intuição. Nata, que não é explorada. Essa intuição dá respostas que infelizmente não é aproveitada. Acredito também que os bolsões de pobreza estão crescendo no mundo. Eu visitei a África há pouco tempo, e nossas periferias não chegam perto da realidade deles. E nós arquitetos estamos sendo chamados para resolver a questão. Na baixa renda é que a sociedade vai entender a que viemos. Digo isso com a pequena experiência que estamos tendo em Brasília, com 10 postos de assistência técnica [SUS da arquitetura e da construção civil que desenvolve projetos de infraestrutura urbana de acordo com as necessidades da comunidade e realiza projetos de construção e melhorias habitacionais]. Você diz para a população de baixa renda que, de repente, tem que mudar o posto daqui para lá. A comunidade não deixa. Vão aos gestores, ao governador. Não deixam mudar. Acredito que a gente vai crescer em função da necessidade das cidades. Aí entra a criatividade para dar respostas concretas. A sociedade vai parar de pensar que somos pintadores de fachada, simplesmente.

A que se deve o sucesso da experiência dentro da Companhia Habitacional do Distrito Federal?

Cheguei em Brasília no final de 1969. Tive a possibilidade de trabalhar com quem fez Brasília. Trabalhei com o Lelé [João Filgueiras], pude conversar com o Oscar Niemeyer, conversar com o Milton Ramos. Essas pessoas me ensinaram que tem que fazer na prática. A teoria é muito simples, mas construir na prática é diferente. E entendo que o que consegui fazer na companhia foi executar na prática. A gente tá aprendendo com a experiência. Aprendemos todos os dias. Nós arquitetos temos mania de planejar muito, mas digo que se ficar planejando a gente não faz. Fui liberado no meu cargo no dia 30 de março. No dia 4 de abril abri o primeiro posto de assistência técnica, atropelando qualquer tipo de questão jurídica, contábil etc. Não tinha resposta. Fui montando. Hoje temos 10 postos funcionando porque não ficamos discutindo o sexo dos anjos. Montamos e começamos a trabalhar. É trocar o pneu com o carro andando.

Foto: CAUMG/Divulgação

Muitos sempre apontam a questão financeira como impedimento para os concursos ou assistência técnica. Você concorda? Como você faz em Brasília?

É normal no Brasil. Todos temos a mania de achar que a questão financeira interfere. Quando montei o primeiro posto, tínhamos que pagar aluguel. Mas não podia tirar dinheiro do estado para pagar área particular em espaço irregular. E a gente só trabalhar em áreas irregulares. A questão de dinheiro só falta quando não trabalhamos. No governo, é assim. Todo mundo fala: como vai fazer se não tem dinheiro? O dinheiro aparece. Hoje não consigo gastar o dinheiro que tenho. Quando trabalha, o dinheiro aparece para resolver os problemas. Essa historia do dinheiro é ficção. Dinheiro sobra no país. A gente não consegue destruir o país. Olha a corrupção que acontece, e mesmo assim não conseguem nos destruir. Existe muito dinheiro. É fazer acontecer na prática e ele aparece. Essa é minha experiência lá em Brasília.

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