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Foto: Embaixada do Brasil em Tóquio
Foto: Embaixada do Brasil em Tóquio| Foto:

2018 foi o primeiro ano em que o Pritzker Prize, premiação considerada “o Nobel da arquitetura”, teve um brasileiro no corpo de jurados. Mas, ao contrário do que se pode imaginar, André Corrêa do Lago não é arquiteto: é diplomata e atual embaixador do Brasil no Japão. No entanto, tem nessa arte sua paixão, incentivada desde criança. Com referências nacionais que vão de Niemeyer a Lúcio Costa, irmãos Roberto e Affonso Reidy, ele sempre teve o hábito de ler sobre o assunto e, viajando, conhecer pessoalmente grandes obras. Ele reconhece na arquitetura brasileira uma das artes sobre as quais o país teve maior influência mundial no século 20. De Tóquio, o embaixador conversou com a reportagem a respeito do papel do Brasil na arquitetura contemporânea e sobre a atual fase do Pritzker Prize.

O Pritzker Prize está completando 40 anos em 2018. Como você enxerga o atual momento da arquitetura mundial?

Acredito que a arquitetura seja hoje a arte mais divulgada e popular do mundo. O desenvolvimento econômico nas mais diversas regiões tem inspirado não só uma arquitetura global – com famosíssimos arquitetos construindo em diversos continentes –, mas também interessantíssimas arquiteturas locais. Graças ao progresso da comunicação, estamos todos aprendendo o quanto a arquitetura pode ser ao mesmo tempo diversa e de qualidade. O “global”, naturalmente, afeta o “local”, mas também é impactado por esses projetos geograficamente limitados ou menos divulgados. A “globalização” vem sendo acusada de disseminar projetos “inadequados”, mas temos que admitir que, graças a ela, estamos sendo expostos a projetos que podem ser replicados ou adequados em várias partes do mundo.

Nos últimos anos, nota-se uma mudança no perfil do prêmio. Se antes a estética tinha um papel fundamental na obra do vencedor, depois dos prêmios concedidos a Barkrishna Doshi e Alejandro Aravena vemos que uma arquitetura mais social tem ganhado força. Você concorda com essa visão ou acredita que ambos os elementos são relevantes como critérios?

Não acredito que haja uma “arquitetura estética” ou uma “arquitetura social”. Alguns arquitetos, no entanto, são associados a algumas características mais fortes. Por exemplo, Peter Zumthor, vencedor do Pritzker em 2009, é muitas vezes considerado um arquiteto “poético”. Venturi, ganhador em 1991, um arquiteto “intelectual”. Glenn Murcutt (2002) e Shigeru Ban (2014), arquitetos “ambientalistas”.

O Aravena é um arquiteto excepcional em soluções de baixa renda, mas também em seus projetos para universidades e residências. Se você olhar para o Centro de Inovação da Universidade Católica do Chile, verá que é um projeto de concreto, que tem uma força escultórica formidável. Já seu projeto das “Torres Siamesas”, para a mesma universidade, impressiona mais por sua dimensão de sustentabilidade.

Acredito que todos esses arquitetos reúnem várias características e sua obra geralmente tem grande coerência. Uma boa obra de arquitetura envolve tantos elementos que, às vezes, alguns chamam mais a atenção do que outros. O que os une é sua extraordinária qualidade e as várias soluções que o arquiteto encontrou para diferentes desafios.  Não é um “samba de uma nota só”.

Foto: Embaixada do Brasil em Tóquio
Foto: Embaixada do Brasil em Tóquio

Como o fato de ser embaixador do Brasil no Japão, além de ter vivido em vários países, afeta sua visão de arquitetura?

Quando você está apenas de passagem por um país, acaba por priorizar alguns elementos em sua visita. Quando você vive fora, acumula oportunidades, encontros e descobre que todos os países são mais complexos e muitas vezes mais interessantes do que se pode imaginar. Por outro lado, quanto mais você conhece o resto do mundo, mais você valoriza o Brasil. Muitas coisas que achamos natural em nosso país são, na realidade, conquistas e resultados de um enorme número de talentos e circunstâncias excepcionais.

A arquitetura japonesa é essencialmente diferente da brasileira. O que podemos aprender com ela?

Há muitos elementos em comum, em especial o fato de ambos os países terem usado essencialmente a arquitetura para mudar sua imagem na segunda metade do século 20. Com poucos anos de diferença, o Brasil construía Brasília e o Japão reconstruía Tóquio para as Olimpíadas de 1964. Curiosamente, são os dois países fora do eixo Europa-Estados Unidos que desenvolveram, a partir dos anos 1940-1950, uma arquitetura moderna poderosa, com dimensões marcadamente universais e, ao mesmo tempo, locais. Outro elemento em comum é que, nesse período, tanto Japão quanto o Brasil foram dominados por um nome de particular destaque: Tange (Pritzker de 1987) e Niemeyer (Pritzker de 1988), ambos reconhecidos como mestres do concreto armado.

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Ao mesmo tempo, o vertiginoso crescimento econômico do Japão nos anos 1970 e 1980 permitiu um boom imobiliário que estimulou uma arquitetura extremamente variada e dinâmica. Se no Brasil falamos muito em duas correntes arquitetônicas (a carioca e a paulista – ambas reconhecidas pelo Pritzker, já que Paulo Mendes da Rocha também ganhou o prêmio em 2006), há no Japão um número muito maior de linhagens, o que também foi reconhecido pelo Pritzker com as premiações a Maki (1993), Ando (1995), Sejima e Nishizawa (2010), Ito (2013) e Ban (2014). A diversidade da arquitetura japonesa é impressionante para qualquer padrão e tenho tido o privilégio de ver tudo isso de perto.

No Brasil, há uma diversidade maior do que a conhecida dicotomia Rio-São Paulo, mas temo que exista certa dificuldade de divulgação. Os japoneses são certamente mais experimentais que nós, e projetos inovadores são estimulados pela vida útil muito curta das construções. Parece incrível, mas a vida média de um edifício em Tóquio é menor que trinta anos!

Sobre a arquitetura brasileira contemporânea: ela ainda é completamente inspirada pelo modernismo ou podemos apontar o surgimento de novos movimentos?

A força do nosso modernismo e a fidelidade a essa tradição que os melhores arquitetos brasileiros vêm demonstrando fortaleceu a impressão de que existe uma forma brasileira de arquitetura moderna, que agora ganha novas dimensões graças a um excelente grupo de arquitetos contemporâneos. Creio que há muito espaço a ser explorado dentro das referências históricas do nosso modernismo. Há também muito espaço a ser explorado pela incorporação crítica da evolução da arquitetura contemporânea. Vale dizer, ainda, que, em minha opinião, uma das grandes forças da arquitetura brasileira foi ter resistido ao período pós-moderno, que, por sorte, em nosso país se restringiu principalmente a projetos comerciais.

Foto: Divulgação Pritzker/Cortesia VSF
Foto: Divulgação Pritzker/Cortesia VSF

Como outros países veem a arquitetura brasileira?

É impressionante ver como os estrangeiros reconhecem uma grande unidade na evolução de nossa arquitetura. No entanto, temos que ser muito cuidadosos em não transformar a arquitetura brasileira em um “estilo”. Uma boa arquitetura não vem da simples repetição de elementos conhecidos: vem do equilíbrio de características adaptadas a circunstâncias específicas. A mera aplicação de elementos de estilo é uma visão antiquada.

A força do modernismo brasileiro está em buscar um equilíbrio entre os fundamentos teóricos de diversas origens com uma forte consideração do clima, materiais disponíveis e tradições locais. O brise-soleil, por exemplo, deve ser usado não como elemento estético, mas em função da orientação do edifício. O mesmo se aplica a esses outros “elementos”, que podem ser resgatados ou utilizados na medida em que cumprem a sua função, e não apenas como elemento “decorativo”.

Como crítico de arquitetura, você concorda que Curitiba é uma das capitais brasileiras do urbanismo?

Curitiba é justamente reconhecida por algumas inovações urbanísticas nada menos que brilhantes. O BRT se tornou universal e muitas das inovações que continham elementos ambientais também passaram a ser “mainstream” no resto do mundo. Jaime Lerner é indiscutivelmente um dos maiores urbanistas do século 20, e toda vez que converso com ele fico impressionado com sua capacidade de sugerir soluções ao mesmo tempo inovadoras, simples e muitas vezes baratas. Seu conceito de “acupuntura urbana” permitiu que nosso país, que realizou a maior obra urbanística “tabula rasa” do mundo, que foi Brasília, também deixe uma marca no urbanismo contemporâneo das intervenções pontuais com impacto em toda a cidade. Curitiba, no entanto, não realizou projetos arquitetônicos que tenham se tornado ícones mundiais a exemplo do que foi o seu urbanismo. É interessante ver o quanto a cidade concentrou-se na substância, muito mais do que na forma.

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