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Kobra em Bristol, após finalizar o mural em homenagem a John Lennon.| Foto: Paulbox/Framedogs

Curitiba receberá pela primeira vez uma obra do artista brasileiro Eduardo Kobra, 47 anos, um dos muralistas mais celebrados internacionalmente, com grafites e murais em mais de 40 países, nos cinco continentes. Na verdade, serão dois painéis, que também marcam a estreia do grafiteiro na região Sul do Brasil.

O convite é da incorporadora e construtora Piemonte, que chamou o artista – um verdadeiro presente para a cidade toda – para criar uma pequena instalação onde será o edifício Croma, no Bigorrilho, na Rua Jeronimo Durski, 1.624. E onde mais tarde, após a finalização das obras, ficarão os dois painéis inéditos de Kobra em homenagem a Curitiba.

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Mural de Kobra em homenagem a Bowie, em Jersey City.| Kobra

Antes de sua vinda à cidade no dia 29, para inaugurar essa pequena instalação que por enquanto é só um gostinho do que está por vir, Kobra cedeu uma entrevista exclusiva para HAUS em que relembra seu começo humilde, repleto de desigualdade social em Campo Limpo, na periferia de São Paulo, de onde vem todo seu carinho para com as comunidades mais abandonadas, que, segundo ele, abrigam hoje os próximos grandes artistas brasileiros.

“Cada um de nós pode fazer a diferença para um desses meninos e meninas”, defende. Comenta também sobre o período em que ficou doente durante a pandemia e como se voltar para o próximo ajudou a dar novo sentido para sua vida. E propõe repensar a efemeridade das obras de rua. “Quando você viaja para outros países e vê pinturas clássicas de 500 anos atrás que ainda estão ali, penso: por que a arte de rua tem esse aspecto descartável? Por que não cuidar e preservar? Preparar a parede, iluminar, envernizar, dar oportunidade para que as próximas gerações possam contemplar a grandiosidade dos artistas que hoje estão pintando nas ruas do Brasil e do mundo”, questiona. Confira a entrevista na íntegra a seguir!

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Kobra é um dos muralistas mais celebrados em todo o mundo, com obras em 40 países, nos cinco continentes.| Instagram/Just_a_spectator

De onde vem o nome Kobra?

Meu nome é Carlos Eduardo Fernandes Léo. O nome Eduardo Kobra surgiu ainda na adolescência, quando eu estudava na escola pública Maurício Simão, na periferia de São Paulo, no bairro de Campo Limpo. Eu gostava muito de desenhar. Em vez de ter anotações, os meus cadernos eram repletos de desenhos. Isso com cerca de 10, 11 anos de idade. Os professores não curtiam muito, mas os outros meninos achavam bacana. Aí colocaram o apelido de Kobra, como quem diz: você é fera no desenho. Depois de alguns anos, com a pichação, o grafite, e depois o mural, Kobra virou minha marca registrada.

Em que situação específica você teve o insight de que gostaria de trilhar a vida como artista, muralista, grafiteiro? Como foi?

Foi tudo muito orgânico, intuitivo. Não teve esse momento. Eu não tinha essa referência, essa instrução. Não tinha conhecimento. O que eu tinha eram os muros, era a repreensão, eram as pessoas contrárias àquela manifestação intuitiva de pintar desde os 8 anos. O que enfrentei foi dificuldade, o que eu via era que eu tinha que seguir por outro caminho. Contrariando anseios artísticos, fui trabalhar de office boy, depois na tapeçaria do meu pai. Mas nunca abandonei meu sonho de pintar, mesmo sem conhecer artistas e nem sequer ter entrado em algum museu. Não tinha essa perspectiva: “Vou me tornar artista”. Nem sabia o que era isso. Sou da segunda geração de grafiteiros. Tive pouco contato com a primeira geração porque eles eram de outras regiões da cidade, mais lá para Vila Madalena, e eu estava no Campo Limpo. Foi um processo árduo sem perspectiva de conquista. Foi coração, alma, fé, determinação, perseverança, e insistir mesmo. Meus desenhos nem eram tão bons no início. A gente tem sempre que evoluir nossos desenhos, mas naquela época não tinha como eu frequentar aula de desenho ou ter artistas como inspiração. Fui aprendendo na rua mesmo. No duro.

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Obra de Kobra homenageia Adoniran Barbosa em São Paulo.| Kobra

Como e onde foi seu primeiro trabalho oficial?

No bairro onde nasci fiz meus primeiros trabalhos em 1986 e 1987, tudo de forma ilegal, nesse mesmo período com pichações também. Se eu fizer referência de possibilidade de convite, um primeiro contrato foi em 1993, quando o parque Play Center abriu uma concorrência para pintar dois ou três equipamentos. Alguém da equipe deles viu eu pintando e me convidou. Pediu que eu apresentasse dois desenhos para uma disputa que aconteceria lá no parque. Consequência: apresentei 35 desenhos diferentes. Eu não tive uma oportunidade como essa antes. Então passei noites virado, criando. Três desenhos meus foram aprovados. Foi minha primeira oportunidade, e depois o parque me contratou para fazer todas as pinturas artísticas por mais alguns anos. Ah, uma lembrança: quando entrei no parque para executar esses primeiros desenhos, dormi uma semana no chão dos brinquedos tamanha a ansiedade de entregar algo bom. Naquela época esse trabalho me ajudou a pagar o aluguel.

Suas obras trazem uma questão de unidade entre as nações, as pessoas, as crenças, as culturas. Por que para você isso é tão importante e sensível?

Tudo que faço é intrínseco à minha natureza, de tudo que vivi, das minhas emoções, alegrias, tristezas, angústias, ansiedades, desprezos, tudo está relacionado. Das coisas que me comovem, filmes que assisto, séries que acompanho, da arquitetura. E quando falo das pessoas, eu vivi muito isso, vi muita discriminação e me marcou muito essa dificuldade durante a infância, essa distância entre as classes sociais, as oportunidades tão diferentes. E comecei a pensar como o mundo poderia ser diferente, como as pessoas poderiam ser mais solidárias umas com as outras, e transformar o planeta num lugar melhor. Com o passar do tempo, a gente vê mais violência, mais intolerância, mais diferença, e quis começar a colocar isso no meu trabalho. Quanto belo seria se simplesmente nos respeitássemos e respeitássemos as nossas diferenças. Poderíamos viver com muito mais paz.

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Mural de Kobra em Nova York sobre a tolerância necessária para um mundo melhor, com Gandhi e Madre Teresa.| Instagram/Just_a_spectator

Poderia explicar como será sua obra lá no empreendimento da Piemonte?

Não tenho nenhuma obra aí na região [Sul]. Primeiro queria agradecer a oportunidade que a Piemonte está me dando para que eu leve minha obra para a cidade. Tenho sempre aproveitado os convites, tanto nacionais quanto internacionais, sempre mantendo a origem do meu trabalho, a integridade a nível da mensagem, do conceito, da construção, da imagem. Isso é importante, e a Piemonte está respondendo muito bem às trocas de ideias. Pesquisei muito sobre a cidade de Curitiba e estou criando dois painéis que serão visíveis para o público. Nesse momento será uma pequena instalação, uma letra no local onde as obras serão colocadas na sequencia. Depois serão dois painéis de uma conexão bem importante com aquilo que consegui captar sobre o local. É assim como eu faço em todos os lugares por onde passo. Depois é que vem a tela, os estudos e o mural. Não são obras com visões comerciais. São obras com visões culturais relacionadas a Curitiba.

Pode explicar melhor esse conceito dos painéis que serão feitos depois no empreendimento?

Tive total liberdade criativa para desenvolver os dois painéis. E todos que passarem ali na região vão poder ver as obras. Eu tenho muitos trabalhos ao redor do mundo, em 40 países pelos cinco continentes, e esses convites são maravilhosos porque através deles eu consigo expandir minha arte, meus trabalhos sociais, continuar a sonhar com minhas obras no Brasil. Fiz pesquisa sobre toda a história da cidade, os elementos essenciais, com natureza, com cultura, com as pessoas, e unifiquei isso nos painéis. Em breve estarei produzindo.

Kobra defende que a arte de rua não seja mais efêmera, e sim preservada como outras formas de arte.
Kobra defende que a arte de rua não seja mais efêmera, e sim preservada como outras formas de arte.| Alan Teixeira

Em qual série ou outro projeto você está trabalhando agora? Poderia descrever um pouco para a gente, por favor?

Estou produzindo 10 peças para uma exposição nos Emirados Árabes, em Dubai, que acontece no final de março. Já realizei quatro murais lá e agora fui convidado para essa exposição. Estou entregando de forma gratuita e voluntaria para São Paulo [em razão do aniversário da cidade] duas obras para o Hospital de Clínicas, em homenagem aos profissionais de saúde e a todos que trabalham por ali, criando relação entre ciência e fé, porque, segundo a minha concepção, não há nenhuma questão, o mesmo Deus que criou a arte também criou a ciência, a tecnologia, a fé, e estou falando disso nos painéis. Uma outra peça lá também é o Metamorfose, de borboletas com pedras preciosas, fazendo a analogia de que cada vida é preciosa. Tenho me dedicado também à montagem do meu instituto, embora já venha trabalhando com as artes para meninos e meninas das comunidades, que passam por todo tipo de dificuldade e precisam de alguém para dar apoio.

A arte de rua sempre trouxe e traz consigo a questão da democratização da arte e dos espaços urbanos. Como você enxerga essa relação no Brasil hoje?

Os artistas brasileiros são espetaculares. Porque muitos deles utilizam materiais diferenciados. Até pela origem, muitos vêm de condição difícil, financeira, e aí acabaram tendo que improvisar de muitas maneiras. Isso fez da arte de rua brasileira uma das mais icônicas, significativas e importantes do mundo. Não é por acaso que muitos têm sido reconhecidos por grandes museus ao redor do mundo. Eu mesmo estou com uma galeria me representando que está em 12 países. Só em Nova York são 4 lugares diferentes. É importante os artistas levarem arte ao maior número de pessoas, tanto quanto possível. Arte é livre, é democracia, é muito interessante quando vê que quem só pintava em museus agora está indo para as ruas, ou os designers e ilustradores estão criando peças que podem ser vistas por todos nas ruas, nas cidades, nos muros, nas placas, nos painéis, nos outdoors, e tem ainda os grafiteiros e muralistas. Esses vão para as galerias e continuam nas ruas. Por mais que tenha trabalho ao redor do mundo, o principal é ter o contato com as pessoas. Isso é um privilégio. Porque não pinto aleatoriamente. E a partir disso, trazer pessoas que não tem esse contato com galeria, pela origem, pela parte humilde, trazer o universo da arte, por que a arte traz alegria. Nas cidades, com tanta angústia e depressão, a arte é um bálsamo para tudo isso.

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Novo mural de Kobra no HC de São Paulo homenageia os profissionais de saúde e a ciência.| Reprodução/TV Globo

Como a pandemia lhe afetou pessoalmente e o seu trabalho?

Fez-me olhar mais para dentro, para valores familiares, uma reflexão sobre o meu trabalho, eu que estava viajando o mundo inteiro, com 40 convites internacionais quando os países fecharam as fronteiras. Foi um momento introspectivo. Passei a produzir dentro do estúdio, e, de alguma forma, foi um momento obviamente angustiante. Eu vinha de um ritmo muito acelerado. Mas foi libertador também, foi muito de autoconhecimento, de entender meus limites e, por outro lado, teve essa questão de estar com meu filho, com minha esposa, com outros familiares, de reconstruir muitos desses valores que estavam sendo perdidos. E a respeito do meu trabalho, decidi durante a pandemia ajudar mais o próximo. Fiquei ansioso, muito depressivo, doente. Coloquei meu trabalho à disposição de pessoas que estão até hoje passando por desemprego, pessoas que perderam entes queridos, moradores de rua. Acabamos criando ações, entre elas, de um cilindro de oxigênio que pintei e vendi por 700 mil reais para comprar quatro usinas de oxigênio. Então mandamos para Manaus. Entregamos também 25 mil kits de higiene e alimentação para moradores de rua de São Paulo. Foi um momento de olhar para o próximo. De poder fazer algo pelo próximo. Isso é algo que quero dar sequência.

Você usa bastante fotos históricas em suas obras. Como é essa pesquisa?

Tenho vários caminhos no meu trabalho. Tenho um projeto chamado Olhares da Paz, em que valorizo personalidades que lutaram ou que lutam pela paz e que são exemplos para todos nós. Em Recortes da História, pego momentos da história e transformo em mural em um lugar público, como o momento do discurso “I have a dream”, de Martin Luther King. Tenho o Muro das Memórias, em que trabalho com cenas antigas, que mostram cidades de 1920, 1930. Sou colecionador de livros antigos e gosto de fazer esse paralelo da preservação do patrimônio histórico. Outro projeto é o Greenpincel, da proteção da natureza, dos animais, das florestas, dos povos indígenas. Faço um protesto com esse projeto, a respeito de tirar animais de seu habitat. Tenho também os desenhos anamórficos, em 3D, no chão e nas paredes. A cada momento trabalho de forma diferente, valorizando pessoas importantes, pessoas anônimas que são igualmente importantes, seja na Times Square ou no Jardim Ângela. Sempre com o mesmo entusiasmo. Circulo por vários universos, às vezes sépia, às vezes preto e branco, às vezes colorido. Não importa a pintura e a técnica, mas sim o significado, por quê aquilo foi feito.

Mural de Kobra com Einstein andando de bicicleta, em Nova York.
Mural de Kobra com Einstein andando de bicicleta, em Nova York.| Instagram/Just_a_spectator

O que você acha que falta para as pessoas valorizarem mais seus próprios grafiteiros e artistas locais, aqueles que ainda não são tão estabelecidos como você, OSGÊMEOS, Alexandre Orion etc?

Eu pessoalmente sou mais um vindo da periferia. Estive lá recentemente e pouca coisa mudou, mesmo passados tantos anos. Os artistas aqui são valentes, guerreiros, cheios de esperança e de perseverança. Mesmo com a dificuldade toda que eles têm, eles continuam ali, se esforçando, e isso é imensurável. Agora, poderia ser diferente. Deve ser diferente. Poderíamos de forma geral incentivar mais, apoiar mais, doando muro, doando materiais, criando escolas de arte, dando mais acesso para meninos e meninas, talentos brasileiros sendo desperdiçados, e que recebem outras propostas. Cada um de nós pode fazer a diferença para um desses meninos e meninas. Seja na literatura, na arquitetura, no teatro, nas artes plásticas, na street art. Isso é nato, é brasileiro. Quanto mais valorizarmos, mais o nome do Brasil vai ser valorizado. Eles vão melhorar o cotidiano e o espaço público pelo mundo. Tem que ter um olhar atento para as comunidades, em especial.

Muitas vezes cria-se polêmica quando uma obra é apagada. Mas muitos grafiteiros defendem a efemeridade como uma característica intrínseca da arte de rua, que imita a vida, em que nada é permanente. Como aconteceu com o seu mural do Einstein na Oscar Freire em 2018. Qual a sua opinião?

Cada artista tem uma história, um por quê. Eu estou desde 1987 [fazendo arte]. Tenho acervos de mais de 3 mil obras que já fiz, e 90% não existe mais. O que o tempo apagou, a fotografia eterniza. Só algumas pessoas viram. Mas hoje eu penso um pouco diferente. Acho que da mesma forma que fui para o México ver obras do Diego Rivera [1886-1957] e do Keith Haring [1958-1990] em Tóquio, ou quando alguém entra em um museu para ver Tarsila do Amaral ou Cândido Portinari, ou quando você viaja para outros países e vê pinturas clássicas de 500 anos atrás que ainda estão ali, penso: por que a arte de rua tem esse aspecto descartável? Por que não cuidar e preservar? Preparar a parede, iluminar, envernizar, dar oportunidade para que as próximas gerações possam contemplar a grandiosidade dos artistas que hoje estão pintando nas ruas do Brasil e do mundo. Então já não tenho essa certeza, mas hoje fico imaginando isso. Tenho um filho de 5 anos e gostaria sim que, quando mais velho, ele pudesse ver os artistas que estão hoje nas ruas, assim como ele viu o quadro da Monalisa no Louvre. É um paralelo importante. Só estão no museu porque estão sendo cuidadas. E por que com os murais não existe essa preocupação? É preciso mudar.

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