Igreja que foi cenário de “O Pagador de Promessas” tenta se reerguer após incêndio

O imóvel histórico também foi pano de fundo para o filme "Deus e o Diabo na Terra do Sol", de 1963

Foto: Rede Globo/Reprodução

por HAUS*

07/05/2019

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A igreja esteve cheia de fiéis e romeiros durante toda a semana, que culminou com uma missa no sábado de Aleluia. Na madrugada do domingo de Páscoa, contudo, o templo católico erguido há mais de 200 anos ardeu em chamas.

“Estávamos esperando pela Ressurreição, mas o que veio foi fogo”, afirma Ivaney Palhano, 26, coordenador de pastorais da paróquia.

Incrustada em uma das regiões mais inóspitas do sertão da Bahia, a Igreja Matriz do Sagrado Coração de Jesus, em Monte Santo (a 350 km de Salvador), tenta se reerguer após um incêndio que destruiu sua área interna, despedaçou o telhado e danificou imagens sacras de valor histórico.

Em 1963, o então jovem cineasta baiano Glauber Rocha filmou em Monte Santo o seu icônico “Deus e o Diabo na Terra do Sol”. Nos anos 1980, a cidade foi locação da minissérie “O Pagador de Promessas”, da Rede Globo.

Foto: Facebook/Reprodução

O fogo começou por volta das 2h do domingo de Páscoa (21). Sem estrutura de Corpo de Bombeiros –a unidade mais próxima fica a 170 km– os próprios moradores se uniram para debelar as chamas.

Arrombaram a porta da igreja e quebraram vidros para salvar imagens sacras. Subiram nos telhados para tentar fazer cessar as labaredas que queimavam as vigas de madeira e usaram caminhões-pipa para resfriar as brasas.

Na última terça (30), as portas da igreja foram abertas pela primeira vez para operários que entraram para retirar destroços, enquanto beatas aproximavam-se para dimensionar o estrago. “Só tenho vontade de chorar”, disse a agricultora Rosa Dantas, 64, que vai na missa toda semana.

Pedaços de madeira e telhas quebradas se misturavam a livros sagrados que ficaram chamuscados e objetos litúrgicos. Além do altar da igreja, perdeu-se no incêndio um oratório de madeira, um crucifixo e três imagens sacras.

Foto: Divulgação

A polícia fez perícia para identificar as causas do incêndio, mas os resultados saem apenas em junho. Peças sacras que são inventariadas pelo Iphan serão vistoriadas por técnicos do órgão federal de proteção ao patrimônio.

Andando de um lado para o outro, com as mãos cobertas de fuligem, Cristina Barreto, 51, recolhia em meio aos escombros as peças que ainda poderiam ser restauradas. Dentre elas estava uma imagem de são Rafael Arcanjo, da qual só restou parte do corpo.

“É de doer o coração para nós que somos daqui. É uma igreja com muita história”, afirma Cristina. No formato atual, a Igreja Matriz data de 1927. No entanto, a fundação da paróquia de Monte Santo e a construção da primeira capela aconteceu em 1790, época em que missionários capuchinhos aportaram na região.

Impressionado com a semelhança da serra que margeia a área do Piquaraçá com o Monte Calvário de Jerusalém, frei Apolônio de Todi a batizou de Monte Santo e ordenou a construção de um santuário e a instalação de cruzes no caminho até o topo do monte.

Foi o início de uma tradição de romarias que perdura há mais de 200 anos e que hoje chega a atrair cerca de 100 mil fiéis na festa de Todos os Santos, em 1º de novembro.

Foto: Reprodução

O incêndio, contudo, pode significar um revés na atração de turistas e preocupa a paróquia e as autoridades.

O prefeito Edivan Fernandes, o Vando (PSC), diz que o ideal era ter a igreja recuperada até novembro, quando acontece a festa de Todos os Santos. Ele diz ter feito consultas ao Ministério Público para usar recursos da prefeitura na recuperação do templo.

“Não é questão de religião. Esta igreja atrai muitos romeiros e é vital para a economia da nossa cidade”, afirma.

Foto: Reprodução

A paróquia iniciou uma campanha para arrecadação de recursos, mas as doações ainda são diminutas. Fiéis da cidade estão organizando rifas e vão fazer um evento beneficente com shows.

“Vamos pôr mãos à obra e reerguer a nossa igreja. Ninguém vai esmorecer”, afirma o padre Darlan, administrador da paróquia. Ele diz confiar na tradição de lutas da cidade que remete a disputas de terra até à Guerra de Canudos.

Enquanto a igreja não é recuperada, as missas acontecerão todas as quintas e domingos ao ar livre, na praça Monsenhor Berenguer.

Saiba como fazer uma doação

Banco Bradesco

Agência 3.621

Conta corrente 7.245-1

Diocese de Bonfim Paróquia de Monte Santo

CNPJ 13.833.801/0013-13

*Com Folhapress.

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