Projeto residencial Tavarua, em São Paulo, vencedor do prêmio Americas Property Awards 2017. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.
Projeto residencial Tavarua, em São Paulo, vencedor do prêmio Americas Property Awards 2017. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.| Foto:

A carreira da arquiteta Fernanda Marques é plural. Seu portfólio inclui desde residências até grandes empreendimentos imobiliários e showrooms para grifes conceituadas. O estilo limpo e contemporâneo permeia todas as suas obras, que aliam arte e design de linguagem internacional. O escritório de Fernanda é baseado em São Paulo, mas aberto para o mundo: ela e sua equipe executam trabalhos por todo o Brasil e no exterior. A área de atuação é ampla, com foco na arquitetura, interiores, design de produto, comunicação visual e paisagismo.

Em entrevista exclusiva para HAUS, Fernanda revela suas inspirações e crenças – seguir o estilo próprio acima de modismos é uma das principais delas. A arquiteta também fala sobre o processo de criação de áreas comuns que devem se adaptar ao gosto dos diferentes moradores de um empreendimento.

Foto: Divulgação
Foto: Divulgação

Como você define seu estilo?

Eu não gosto de trabalhar com modismos, acredito que o olhar do arquiteto deve estar acima das restrições de moda. Cada um tem um estilo, o que é muito diferente de modismo. O estilo é aquilo em que a gente acredita, e como transformamos esses nossos valores em traços arquitetônicos. Eu diria que tenho uma arquitetura contemporânea. Gosto de linhas retas, traços limpos, poucos adornos; eu não gosto do que não tem muita função. Acabei me tornando muito mais conhecida pelos interiores, que é a expertise que eu tenho há 30 anos, do que pela arquitetura. Eu comecei fazendo arquitetura residencial e hoje eu tenho um hall de projetos bastante grande.

Projeto residencial Tavarua, em São Paulo, vencedor do prêmio Americas Property Awards 2017. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.
Projeto residencial Tavarua, em São Paulo, vencedor do prêmio Americas Property Awards 2017. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.

Quais são suas maiores influências e inspirações?

Minha grande influência é principalmente a arquitetura brutalista brasileira. Sou formada na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU-USP), portanto eu tive o privilégio de estudar num edifício que foi construído para receber a escola de arquitetura – um projeto do Vilanovas Artigas, que é um dos nossos grandes bastiões da arquitetura brutalista brasileira. Tive também a oportunidade de ter aula com o Paulo Mendes da Rocha, que é nosso grande nome da arquitetura no Brasil junto com o Oscar Niemeyer. Então eu trago no meu DNA essas crenças: vãos muito grandes, uma ausência de elementos decorativos. Mas existe uma diferença muito grande entre esse brutalismo que eu conheci na escola e a arquitetura que eu exerço hoje. Os meus prédios e as minhas casas olham para fora, enquanto esses projetos puramente brutalistas olham para dentro de si. Eu não consigo conceber uma arquitetura que não esteja relacionada com seu entorno, não gosto de barreiras claras entre o interior e exterior.

Apartamento em São Paulo do escritório  Fernanda Marques Arquitetos Associados. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.
Apartamento em São Paulo do escritório Fernanda Marques Arquitetos Associados. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.

Você atua em várias cidades no Brasil e no exterior. É preciso adaptar seus projetos para se adequar ao público de cada local?

Isso é importante, é uma coisa que nós temos que levar em consideração; mesmo falando de Brasil, com essa dimensão continental. O projeto que eu faço, por exemplo, em Belém do Pará, não vai ser igual ao que eu vou fazer no Paraná, por questões de temperatura, do clima, dos costumes locais. O brasileiro do Sul adora churrasco, tem churrasqueira dentro de apartamentos, e nem sempre isso acontece em outros locais. Quando a gente fala de São Paulo, as churrasqueiras estão sempre no terraço, e, no Norte, temos que levar muito em conta a umidade; quando escolhemos o acabamento que vai ser colocado, temos que pensar que muita umidade gera fungo, bolor.

Apartamento assinado por Fernanda Marques em Miami. Foto: Max Zambelli/Reprodução.
Apartamento assinado por Fernanda Marques em Miami. Foto: Max Zambelli/Reprodução.

Quando a gente fala de outros países, a diferença fica um pouco maior. Aqui no Brasil, os prédios residenciais são edificações novas, na sua grande maioria, então são edificações que já nasceram para ser residências multifamiliares. Quando a gente vai, por exemplo, para a Europa, uma sociedade muito mais antiga do que a nossa, a gente se depara com edifícios que foram transformados para serem residências, mas que não nasceram assim; nasceram como mosteiros, residência unifamiliar. Isso leva a um retrofit em que a planta não traduz exatamente a forma de morar que nós estamos habituados. Não que sejam mudanças muito radicais, você tem a possibilidade de entrar em um prédio de altíssimo padrão dando de cara com a porta dos dormitórios, coisas que aqui no brasil seriam inadmissíveis, mas que para eles – que já estão acostumados com esse retrofit e as dificuldades que ele impõe -, já é algo muito mais habitual.

Você consegue levar traços da brasilidade pra esses lugares?

Eu levo, e eu reconheço que em cada um desses projetos que eu fiz, em Nova York, em Miami, em Londres, em Lisboa, em Angola, têm sempre um traço dessa brasilidade. Eu acredito que a minha linguagem está muito mais voltada para uma linguagem internacional do que para uma linguagem tão brasileira, mas alguns conceitos são brasileiros. Por exemplo, a integração entre os espaços, integração do interno com o externo, o uso da iluminação natural. Convidar essa iluminação a entrar dentro das nossas casas, rasgando grandes vãos para que a luz entre, a comunicação entre espaços dentro da mesma casa. Brasileiro gosta de receber família, gosta de receber os amigos, é um povo que convida para dentro de suas casas, então tudo isso acaba sendo refletido nos meus projetos. Eu acabo valorizando sempre essa questão de como nós vamos receber a família, os amigos, isso está sempre presente nos meus traços.

Existe algum elemento comum em todos os seus projetos?

Nas arquiteturas que eu faço, eu gosto muito de pensar em uma escada importante. Isso não foi consciente, sabe? Uma vez um cliente chegou para mim assim: “eu quero no meu projeto uma escada como essas escadas que você faz”. Aí eu parei pra pensar, eu realmente me dedico muito a escadas que são quase esculturas, que são bem marcantes. Esse é um elemento que você vai reconhecer nos meus projetos, vai reconhecer também muito o uso da madeira.

Escada de projeto em Londres vencedor do prêmio A'Design Award 2016. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.
Escada de projeto em Londres vencedor do prêmio A'Design Award 2016. Foto: Fernando Guerra/Reprodução.

Eu gosto de fazer um contraponto entre pontos quentes e pontos frios. Isso significa usar diferentes tipos de madeira, diferentes tipos de pedra. Não que eu vá misturar muitos elementos dentro do mesmo projeto, mas vai sempre ter esse contraponto entre frio e quente. Em lugares mais frios, quando eu estou trabalhando na Europa, eu procuro trazer mais textura para os tecidos, para os sofás, porque isso tudo passa uma mensagem subliminar, a sensação de um ambiente mais quente. Gosto de fazer esse tipo de jogo.

Como foi o processo do design de interiores do seu novo projeto em Curitiba, o ROC Batel?

Todas as áreas comuns como hall, espaço gourmet, salão de festas, ginástica e piscina são decoradas por mim, e as imagens representativas dos apartamentos são todas por nós sugeridas. Tive um trabalho extenso, porque esse projeto tem um número bem grande de exposições de apartamentos. Eu vejo que teve um investimento muito grande na arquitetura predial, todo esse projeto foi pensado minuciosamente. Foram feitos muitos estudos até a Laguna chegar no produto final; o mesmo na disposição das plantas, nós fizemos um exercício muito grande pra chegar na melhor distribuição, para que cada quarto e cada ambiente tivessem uma dimensão boa, eu gosto muito dos grandes vãos que a Laguna abre.

Projeto de quarto para apartamento do ROC Batel, novo projeto da Laguna. Foto: Divulgação.
Projeto de quarto para apartamento do ROC Batel, novo projeto da Laguna. Foto: Divulgação.

As janelas das salas são todas envidraçadas, muito do que a gente encontra são pequenas janelas, pequenas aberturas, não é? Aqui não, a gente está realmente conversando com a cidade. Sendo que é uma cidade linda, totalmente planejada, é um prazer vir pra cá, e porque não aproveitar e trazer um pouco disso para dentro da sua casa? Então os grandes vãos é uma das características que mais me chamaram a atenção. Não teve economia nesse sentido, e isso valorizou muito esse projeto.

Como é planejar um prédio sabendo que tantos moradores irão usar a área comum? Como unir as expectativas de tantas pessoas diferentes?

É um desafio, e quando a gente fala de um prédio que vai ter uma população grande, esse desafio se torna ainda maior. Em empreendimentos maiores, e por muitos anos foram feitos empreendimentos gigantescos pelo Brasil, um dos desafios é realmente dimensionar as áreas e fazer ambientes para atender bebês, crianças, jovens, adultos, pessoas da terceira idade. A gente vai criando pontos de interesse para cada um desses grupos e pontos de interesses também pra essa nova família que a gente vê hoje. A família deixou de ser um elemento da forma como eu a conheci quando eu era pequena, por exemplo, para se tornar algo muito plural. Tem famílias que têm filhos do primeiro casamento, do segundo casamento, e por aí vai. O que eu acho muito interessante, só nos enriquece, é um leque maior para a troca de ideias.

*Especial para a Gazeta do Povo.

LEIA TAMBÉM

Deixe sua opinião
Use este espaço apenas para a comunicação de erros
Máximo de 700 caracteres [0]