Grande nome da habitação social defende a reurbanização para salvar as cidades

Diretora da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Estado de São Paulo e consultora de cidades para Banco Mundial e ONU, a arquiteta Elisabete França questiona o ensino do urbanismo e a estética modernista nas universidades

Foto: Pixabay/Divulgação

por Luan Galani

02/04/2017

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Curitiba tem defeitos. Ninguém é louco de negar a realidade. Mas o que os curitibanos não percebem é que, mesmo com tantos problemas, ainda estamos na frente de diversas outras cidades brasileiras. Discutir o trânsito está no nosso DNA. Criticar traços urbanos faz parte do dia a dia. De urbanista e prefeito, todo mundo tem um pouco por aqui. “Curitiba ainda é superdiferenciada”, sentencia a arquiteta Elisabete França, diretora da Companhia de Desenvolvimento Habitacional do Estado de São Paulo (CDHU) e consultora de cidades para ONU e Banco Mundial.

Como João Batista Vilanova Artigas, gigante do modernismo brasileiro que nasceu em Curitiba e fez carreira em São Paulo, Elisabete também vem dessas bandas, mas cresceu profissionalmente por mais de 30 anos na capital paulista. “Tem alunos que dizem até hoje: ‘Ah, vou para Medellín ver o transporte público e o desenho urbano’. Eu sempre falo: ‘Vai para Curitiba! É mais perto, barato e é onde tudo começou’.”

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Foto: Divulgação

De acordo com a arquiteta, que esteve recentemente na cidade a convite da UniBrasil para o evento sobre habitação e administração pública, arquitetos de Curitiba saem com um olhar diferenciado para a cidade. Mas o urbanismo ainda não passa de perfumaria nas universidades brasileiras. “Em nenhum outro país do mundo o urbanismo é ensinado junto com a arquitetura na graduação. Só aqui. Lá fora o urbanismo é sempre um curso de pós”, critica Elisabete, que leciona na Fundação Armando Álvares Penteado (Faap) e no núcleo de estudos USPCidades.

“Já começa errado. Dessa forma, os alunos saem só com noções de planejamento geral, de plano diretor de 500 capítulos. De desenho mesmo tem pouco”, explica. “Quando estagiei no Ippuc nos anos de 1970, me botaram para desenhar uma mesa de pingue-pongue na primeira rua de lazer da cidade. Hoje, se fala isso para o aluno, ele acha pouco. Todo iniciante sempre quer desenhar o mundo. Mas precisamos retomar isso”. De outra forma, na opinião da arquiteta, não tem como reurbanizar ou criar cidades melhores se lá na gênese do ensino os pés estão antes das mãos.

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Via exclusiva para ônibus é uma das soluções curitibanas celebradas em todo o mundo. Foto: Gazeta do Povo/Arquivo

E ainda disparou críticas à maneira como grande parte das casas populares são criadas pelo Brasil: sempre longe do centro e feitas de qualquer jeito para as pessoas mais simples. Em São Paulo, com ela à frente do CDHU, arquitetos foram chamados para projetar as residências e planos de reurbanização de áreas favelizadas ou de risco. “Nós temos uma cultura de querer construir tudo do zero. Mas sai muito mais barato reurbanizar do que levantar um novo conjunto do zero. Precisamos aprender isso”, diz Elisabete, lembrando que a locação social também resolveria parte do déficit de habitação brasileiro. “Só em São Paulo são mais de 100 prédios ocupados por movimentos de moradia. Poderia ter um programa federal disso.”

E dá um recado para a nova geração de arquitetos que sai das universidades somente com o óculos modernista. “Não dá para sair da universidade fazendo casa modernista. Temos que sair da caixinha. Pensar em projetos ligados à nossa região, materiais peculiares e vernaculares. Os arquitetos africanos são um grande exemplo para nós”.

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